sábado, 28 de janeiro de 2012

Manifesto pela denúncia do caso Pinheirinho à Comissão Interamericana de Direitos Humanos




Manifesto pela denúncia do caso Pinheirinho à Comissão Interamericana de Direitos Humanos


No dia 22 de janeiro de 2012, às 5,30hs. da manhã, a Polícia Militar de São Paulo iniciou o cumprimento de ordem judicial para desocupação do Pinheirinho, bairro situado em São José dos Campos e habitado por cerca de seis mil pessoas.
A operação interrompeu bruscamente negociações que se desenrolavam envolvendo as partes judiciais, parlamentares, governo do Estado de São Paulo e governo federal.
O governo do Estado autorizou a operação de forma violenta e sem tomar qualquer providência para cumprir o seu dever constitucional de zelar pela integridade da população, inclusive crianças, idosos e doentes.
O desabrigo e as condições em que se encontram neste momento as pessoas atingidas são atos de desumanidade e grave violação dos direitos humanos.
A conduta das autoridades estaduais contrariou princípios básicos, consagrados pela Constituição e por inúmeros instrumentos internacionais de defesa dos direitos humanos, ao determinar a prevalência de um alegado direito patrimonial sobre as garantias de bem-estar e de sobrevivência digna de seis mil pessoas.
Verificam-se, de plano, ofensas ao artigo 5º, nos. 1 e 2, da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José), que estabelecem que toda pessoa tem direito a que se respeite sua integridade física, psíquica e moral, e que ninguém deve ser submetido a tratos cruéis, desumanos ou degradantes.
Ainda que se admitisse a legitimidade da ordem executada pela Polícia Militar, o governo do Estado não poderia omitir-se diante da obrigação ética e constitucional de tomar, antecipadamente, medidas para que a população atingida tivesse preservado seu direito humano à moradia, garantia básica e pressuposto de outras garantias, como trabalho, educação e saúde.
Há uma escalada de violência estatal em São Paulo que deve ser detida. Estudantes, dependentes químicos e agora uma população de seis mil pessoas já sentiram o peso de um Estado que se torna mais e mais um aparato repressivo voltado para esmagar qualquer conduta que não se enquadre nos limites estreitos, desumanos e mesquinhos daquilo que as autoridades estaduais pensam ser “lei e ordem”.
É preciso pôr cobro a esse estado de coisas.
Os abaixo-assinados vêm a público expor indignação e inconformismo diante desses recentes acontecimentos e das cenas desumanas e degradantes do dia 22 de janeiro em São José dos Campos.
Denunciam esses atos como imorais e inconstitucionais e exigem, em nome dos princípios republicanos, apuração e sanções.
Conclamam pessoas e entidades comprometidas com a democracia, com os direitos da pessoa humana, com o progresso social e com a construção de um país solidário e fraterno a se mobilizarem para, entre outras medidas, levar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos a conduta do governo do Estado de São Paulo.
Isto é um imperativo ético e jurídico para que nunca mais brasileiros sejam submetidos a condições degradantes por ação do Estado.

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Bem lembrada por Rafson Ximenes:



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

E aí me dá uma tristeza no peito...



Gente Humilde
Garoto, Chico Buarque e Vinicius de Moraes

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Como um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a tudo
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Nóias, futuros nóias e ex-futuros nóias


Foto: Maria Fernanda Sampaio (a mão é minha!)

Nóias, futuros nóias e ex-futuros nóias

Gerivaldo Neiva *

Já vi de perto e até já conversei com um “nóia”, mas não conheço nenhum “ex-nóia”. 
Talvez até existam...
Também conheço muitas pessoas que se embriagam de sexta a domingo, mas trabalham normalmente na segunda.
Conheço também muitas pessoas que fumam baseados de maconha, outros que cheiram cocaína, mas que também trabalham, pagam impostos ou estudam.
Pode até ser que exista, mas não conheço nenhum “nóia” que trabalhe, estude ou pague imposto.
E “ex-nóia”, será que existe mesmo?

Apesar disso, conheço dezenas de “futuros-nóias”, que serão ou não “futuros-nóias.”
Depende...
Muitos deles terão as oportunidades e não serão “nóias”.
Outros já tem o destino traçado: são personagens de crônicas de mortes anunciadas.

Assim, como é muito raro encontrar um “ex-nóia”, pode também não ser muito efetivo criar fórmulas somente para salvar os “nóias”, visto que é muito difícil – não impossível – que se torne um ex.
Não tenho dúvidas, portanto, de que é muito mais importante uma criança não se tornar um “nóia” do que revertê-la em “ex-nóia”.
Enquanto isso, no presente, tendo fracassado o discurso piedoso de salvação aos “nóias”, bem como fracassada a “guerra ao tráfico” e os cassetetes da polícia, o braço impiedoso do sistema passa a cometer outros verbos sobre os pobres “nóias.”
Primeiro se comete verbos da terceira conjugação: reprimir.
Depois, da segunda conjugação: esconder.
Depois, da primeira: matar.

Por fim, penso que há um único verbo – da primeira conjugação – que se conjuga e se comunga com todos eles: cuidar! De forma transdisciplinar, cuidar de forma integral!
Cuidar:
Dos “nóias”, para que tenham um mínimo de dignidade humana.
Dos “futuros-nóias”, para que se tornem “ex-futuros-nóias.”
Dos “ex-futuros nóias”, para que tenham vida plena e abundante.
Cuidar, por seus semelhantes e pelo poder público, para que não seja necessário cometer tantos verbos: reprimir, esconder e, sobretudo, matar.

(sobre a fotografia que ilustra este texto, encontrei o filhote de periquito com um problema e cuidei dele. Depois de uns dias, transformou-se num belo periquito de penas amarelas. A mão é minha e a fotografia é de Maria Fernanda Sampaio)

* Juiz de Direito (Ba), membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD), 26.01.2012.


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quero o direito ao inferno!




Quero o direito ao inferno!

Aos “nóias” de todas as cracolândias do mundo!

Gerivaldo Neiva *

Queria peitos,
leite
beijos
colo
carinhos
afagos
brinquedos
folguedos
casa
comida
escola
ar puro
cultura
esporte
prazer
alegria
trabalho
liberdade
vida
vida plena e abundante...

Recebi, sem pedir,
fome
tapas
cascudos
murros
violência
solidão
medo
favela
periferia
esgotos
fedor
bola de pano
barraco
descaso
desprezo
abandono
promessas
exclusão
gozação
prisão
faca
revólver
morte
morte por todos os lados...

Quis e não tive.
Não quis e me impuseram.
Agora é tarde e nada me serve mais...
Devolvo,
aos que me deram,
 tudo o que me deram
e que não pedi.

Eu, 
(se é que ainda Sou),
sem mais nada,
não quero e nem peço mais nada.
Não quero a paz,
não quero a vida,
não quero direitos,
não quero ser salvo,
não quero o céu e nem o paraíso...

São canalhas os que querem me salvar!
São canalhas todos os bons!
São canalhas todos os santos!
Não quero ser salvo por canalhas!
Fodam-se os canalhas!

Ora, se não se autodetermina quem não é,
também não se pode,
quem quer que seja,
 determinar sobre quem já não é mais.
É tarde e Inês é morta!

Agora, quero apenas meu corpo,
quero tudo o que for impuro,
quero tudo o que fede,
quero o lixo e as sarjetas,
quero todas as feridas,
quero morrer de overdose,
quero ir para o inferno!

A rua é meu inferno.
Os outros são o meu inferno.
O mundo é meu inferno.
O inferno é o meu inferno!
Eu sei o caminho das pedras!
Deixem-me....


* Juiz de Direito (Ba), membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD), em 24.01.2012.