Gerivaldo Neiva - Juiz de Direito
Membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD) e Law Enforcement Against Prohibition - Leap Brasil.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
sábado, 18 de maio de 2013
Drogas e cidadania: um debate urgentíssimo!
Foto: Pedro Kirilos / O Globo
Drogas
e cidadania: um debate urgentíssimo!
É
urgente o debate sobre a questão das drogas. Precisamos deixar de lado os mitos
e preconceitos e encarar com serenidade este problema.
Eu
tenho posição contrária à política proibicionista, contra a internação
compulsória e a favor da legalização de todas as drogas. A chamada “guerra às
drogas” resultou em um fracasso retumbante e precisamos estudar e debater a
experiências de outros países que estão avançando em políticas de legalização. Por
conta desse posicionamento, sou Porta-Voz no Brasil do movimento Law Enforcement Against Prohibition
(Agentes da Lei contra a Proibição – Leap – Brasil), mas aberto ao diálogo e ao
debate.
Recentemente,
defendi minhas ideias no Congresso
Internacional sobre Drogas, em Brasília (DF), de 3 a 5 de maio de 2013, e em
evento promovido pela Associação Juízes para a Democracia (AJD), núcleo de Tocantins, em 17 de maio de
2013, em Palmas (TO).
Com
a única intenção de promover este debate, compartilho as apresentações que usei
nos eventos.
Aproveito, por fim, para agradecer aos colegas juízes do núcleo da AJD em Tocantins e ao pessoal da Faculdade Católica pelo convite, hospitalidade e oportunidade de contribuir com o debate.
Aproveito, por fim, para agradecer aos colegas juízes do núcleo da AJD em Tocantins e ao pessoal da Faculdade Católica pelo convite, hospitalidade e oportunidade de contribuir com o debate.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Redução da maioridade, ECA e o sorriso das crianças
Foto encontrada na Internet sem o crédito. Peço desculpas ao autor...
Antes
de reduzir a maioridade penal, vamos conhecer o ECA?
Ou
O que
fizemos com o sorriso das crianças?
Gerivaldo
Neiva *
Fotos de crianças são todas lindas. Não existem
crianças feias. O sorriso de uma criança talvez seja uma das mais belas
expressões de inocência, ingenuidade e de como todos nós, lá no fundo,
gostaríamos que fossem todas as pessoas, que fosse a vida e, sobretudo, que o
mundo fosse assim: belo e inocente.
Aliás, talvez Deus queira se comunicar com os
homens através dos sorrisos das crianças para nos dizer com sua voz afável de
pai:
-
Olhem,
quando Eu os criei à minha imagem e semelhança, quis dizer com isso que todos
são meus filhos e que um pouco de Mim, da minha divindade, está em cada um de
vocês.
Pois bem, quando vejo fotografias de personalidades
históricas que causaram tanto mal à humanidade, de ditadores sanguinolentos ou
de delinquentes comuns que praticaram crimes cruéis, sinto uma grande
curiosidade de ver as fotografias dessas pessoas quando ainda eram crianças, de
preferencia sorrindo, e tentar encontrar naquele sorriso alguma explicação.
Procurar entender, talvez, por que a criança
linda que sorria inocentemente se transformou naquele adulto que mata outras
crianças. Não, não é possível que Deus tenha pretendido isto. Se Ele mesmo
disse que nos criou à sua imagem e semelhança, por que haveria de querer que
seus filhos se matassem uns aos outros?
Talvez uma sucessão de fotos dessas crianças
transformadas em ditadores sanguinolentos ou delinquentes comuns nos indicasse
alguma possibilidade de entender esta transformação. Como pano de fundo de cada
foto, a paisagem da vida de cada uma delas: sua infância, seus pais, sua
família, sua rua, seus amigos, seus professores, seus ídolos, suas
experiências, suas crenças, seus medos, suas angústias, seus desejos, suas
oportunidades, seus amores, suas frustações...
Não sei se querendo ou não, mas às vezes penso
que os escritores do Estatuto da Criança e do Adolescente, ao estabelecerem o
princípio da proteção integral e demais garantias às crianças e adolescentes,
talvez estivessem querendo perpetuar os sorrisos de TODAS as crianças como
criaturas de Deus, à sua imagem e semelhança.
Portanto, antes de se discutir acerca da punição
ou a partir de quantos anos deveríamos punir nossas crianças e adolescentes, é
de fundamental importância conhecer a vontade do ECA para que TODA criança se
transforme em um adulto que teve uma infância normal.
Por fim, aos que defendem contra ou a favor da
redução da maioridade penal, retomar e fazer efetivar o ECA é discussão que
precede à qualquer proposta punitiva, além daquelas já previstas, ou alteração
na idade para que um adolescente seja responsabilizado ou punido por infrações.
De logo, vamos aos primeiros artigos do ECA. Uma
observação inicial aos navegantes: sempre leia o ECA pensando em TODAS as
crianças, e não apenas em seus filhos ou nos “meninos de rua.” O ECA serve para TODAS as crianças, repito.
Art. 3º A
criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à
pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei,
assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e
facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral,
espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.
Art. 4º É
dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público
assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à
vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
convivência familiar e comunitária.
Pergunto: quando deixamos de cumprir
efetivamente os artigos 3o. e 4o. do ECA – garantir a
TODAS as crianças o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social,
liberdade, dignidade, vida, saúde, alimentação, educação, esporte, lazer,
profissionalização, cultura, convivência familiar e comunitária – não estamos
retirando violentamente o sorriso inocente dos lábios das crianças e, ao longo
do tempo, transformando inocência em violência?
Vamos ver mais ECA:
Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente
será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração,
violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por
ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.
Art. 7º A
criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a
efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o
desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência.
Pergunto: quando o Estado e seus poderes –
executivo, legislativo e judiciário – permitem que crianças (TODAS as crianças,
repito) sejam vítimas de crueldade, opressão, discriminação, exploração e que
se omitem no desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento
sadio e harmonioso das crianças, também não estamos sendo cúmplices nesta
transformação de sorriso inocente em olhar cruel?
Sendo assim, depois que lhes retiramos o sorriso
inocente dos lábios e lhes impusemos o ódio no coração e crueldade nos desejos,
às antigas crianças, agora transformadas em “menores infratores”, com imensa e
inexplicável maldade, queremos impingir-lhes mais sofrimentos com punições cada
vez mais cruéis. Ora, já não basta terem perdido o sorriso? Já não basta serem
o lixo do mundo? Já não basta terem sido excluídos da sombra do grande
guarda-chuva chamado contrato social? Já não basta terem sido excluídos da
paternidade de Deus?
Nossa crueldade é tamanha que nem mesmo nos
importamos em efetivar o ECA no que diz respeito ao cumprimento das medidas
socioeducativas. Na verdade, está escrito que a partir de 12 anos de idade, o
adolescente pode sofrer medidas socioeducativas, podendo chegar à internação
(ou prisão?) por 3 anos, mas agora queremos que cumpram pena de prisão em
estabelecimentos penais.
Efetivamente, nós somos muito piores do que adolescentes
infratores. Nós, cultos, civilizados e educados, somos infinitamente mais
violentos e cruéis do que eles. Ora, tiramos ou permitimos que lhes fosse
tirando o sorriso inocente de criança (imagem de Deus) de seus lábios, jogamos-lhes
na rua, tiramos-lhes tudo e, por fim, agora como vítimas do ódio que nós mesmos
regamos, para concluir nossa maldade, queremos que cumpram castigos em
penitenciárias abarrotadas de adultos (crianças sorridentes um dia?) que
praticaram toda a sorte de crimes.
A punição a sofrer por seus atos infracionais
deve ter o sentido único de lhe devolver o sorriso aos lábios do adolescente
embriagado de escárnio ou crack e jamais de lhe impingir mais ódio no coração.
Se é para lhe privar da liberdade, que ao mesmo tempo lhe ofereça tudo o que
lhe foi até então negado: cuidado, carinho, educação, saúde, cultura, esporte,
diversão, oportunidades e, sobretudo, a dignidade!
Por fim, em nossa travessia democrática, que
custou a vida de tantos heróis, estamos nos valendo de uma Constituição e das
leis decorrentes dela (ECA e tantas outras). Se agora abandonarmos este barco,
rasgando nossa Constituição e outras conquistas legislativas, vamos morrer
abraçados em um mar revolto e sem ilhas à vista. Mesmo com velas remendadas e
cheio de vazamentos, este é o barco que temos. Se a travessia está difícil com
este barco, sem ele vamos permanecer por mais um longo período da história na
margem sombria do arbítrio e prepotência.
* Juiz de Direito (Ba), membro da Associação
Juízes para a Democracia (AJD) e Porta-Voz no Brasil do movimento Agentes da
lei contra a Proibição (Leap-Brasil).
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Carta de Brasília em defesa da razão e da vida
Carta de
Brasília em defesa da razão e da vida
O
Congresso Internacional sobre Drogas: Lei, Saúde e Sociedade foi realizado
entre 3 e 5 de maio de 2013 no Museu da República em Brasília para fomentar o
diálogo sobre o tema das drogas. Nós, participantes do Congresso e signatários
desta carta, constatamos que a política proibicionista causa danos sociais
gravíssimos que não podem persistir. Não há evidência médica, científica,
jurídica, econômica ou policial para a proibição. Entretanto, identificamos
alarmados um risco de retrocesso iminente, em virtude do projeto de lei
7663/10, de autoria do Deputado Osmar Terra (PMDB/RS), atualmente em tramitação
na Câmara dos Deputados, relatado pelo deputado Federal Givaldo Carimbão
(PSB/AL). Entre vários equívocos, o projeto prioriza internação forçada de
dependentes químicos. Vemos com indignação que autoridades do Governo Federal
se pronunciam a favor dessa prática. Conforme apontado pelo relator especial
sobre tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes junto ao
conselho de direitos humanos da Organização das Nações Unidas, a internação
forçada de dependentes químicos constitui tortura. Tendo em vista a trajetória
política, compromisso com os direitos humanos e experiência pessoal em relação
à tortura da Presidenta Dilma Roussef, é inadmissível que o Governo Federal
venha a apoiar a internação forçada. Entendemos que a aplicação dessa medida no
Brasil atual representa a volta da política de higienização e segregação de
classe e etnia.
Mesmo em
suas versões mais brandas, o proibicionismo infringe garantias fundamentais
previstas na Constituição da República, corrompe todas as esferas da sociedade,
impede a pesquisa, interdita o debate e intoxica o pensamento coletivo. A
tentativa de voltar a criminalizar usuários e aumentar penas relacionadas ao
tráfico de drogas é um desastre na contramão do que ocorre em diversos países
da América e Europa, contribuindo para aumentar ainda mais o
super-encarceramento e a criminalização da pobreza. A exemplo das Supremas
Cortes da Argentina e da Colômbia, é preciso que o Supremo Tribunal Federal
declare com urgência a inconstitucionalidade das regras criminalizadoras da
posse de drogas ilícitas para uso pessoal. Em última instância, legalizar,
regulamentar e taxar todas as drogas, priorizando a redução de riscos e danos,
anistiando infratores de crimes não-violentos e investindo em emprego,
educação, saúde, moradia, cultura e esporte são as únicas medidas capazes de
acabar efetivamente com o tráfico, com a violência e com as mortes de nosso jovens.
É um imperativo ético e científico de nosso tempo, em defesa da razão e da vida
humana.
Seguem-se
118 assinaturas: Clique
aqui...
sábado, 4 de maio de 2013
Palestra ao vivo no Congresso Internacional sobre Drogas
Minha palestra será neste domingo (05.05), 13:30h – 14:50h
Mesa
Redonda: Psicologia, Drogas e Cidadania
Mediador: Humberto Verona
Participantes: Gerivaldo
Neiva, Patricia Flach, Rosemeire Silva e Aldo Zaiden
terça-feira, 30 de abril de 2013
Minha agenda de palestras/2013
Minha agenda de palestras/2013
MAIO
05 – Congresso Internacional sobre Drogas
(CID2013), Museu da República, Brasília
(DF)
10 – Congresso de Direito Constitucional
(UEFS), Feira de Santana (BA)
17 – Evento do núcleo da AJD-TO, Faculdade Católica, Palmas (TO)
31 – Encontro Regional dos Estudantes de
Direito (UESB), Vitória da Conquista (BA)
JUNHO
07 - III Semana da AJUP/UFJF – Juiz de Fora (MG)
11 – Semana Jurídica (UNEB), Jacobina (BA)
JULHO
.................
AGOSTO
12 – Semana Jurídica (Faculdades
Integradas), Jaú (SP) - (Aguardando confirmação)
24 – 2o Seminário Nacional do
IBADPP – Instituto Baiano de Direito Processual Penal, Salvador (Ba)
29 – XXXII Semana de Estudos Jurídicos
(FURB), Blumenau (SC)
SETEMBRO
24 a 27 – VI Congresso de Direito (FAINOR),
Vitória da Conquista (Ba)
OUTBRO
25 – Simpósio Nacional de Direito
(Faculdade de Direito), Ilhéus (BA)
NOVEMBRO
..............
DEZEMBRO
Férias...
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Carta de BH: por uma política cidadã sobre drogas
Tenho grande orgulho de ter contribuído com este
Seminário!
(Clique
aqui para acessar o roteiro da minha palestra)
Nos dias 14 a 16 de março de 2013
a Frente Mineira Sobre Drogas e Direitos Humanos realizou o Seminário Drogas e
Cidades: Pensamentos para uma Prática Cidadã, quando foi lido, ao final, o
documento abaixo:
CARTA DE BELO HORIZONTE
POR UMA POLÍTICA CIDADÃ SOBRE DROGAS
Os participantes do SEMINÁRIO DROGAS E CIDADES: PENSAMENTOS PARA UMA
PRÁTICA CIDADÔ, realizado em Belo Horizonte, nos dias 14 a 16 de março de 2013
declaram:
- como cidadãos, responsáveis e atuantes nas políticas públicas sobre
drogas, repudiamos as ações higienistas, violentas e repressivas de tratamento
aos usuários de drogas, em especial de crack, levadas a cabo e divulgadas como
solução do problema nas grandes cidades, destacadamente no Rio de Janeiro e São
Paulo;
- que as chamadas cracolândias antes de serem a “pátria dos craqueiros”
é um território de esquecidos e abandonados pela cidade e poder público,
devendo as intervenções públicas fortalecerem os direitos de cidadania dos
moradores destes territórios e dos usuários que ali se concentram para fazer
uso de drogas, e não recolhê-los indiscriminadamente. Ao contrário, deve-se
investir no laço e vínculo com os mesmos, trazendo-os para a rede de tratamento
e assistência;
- não aceitamos nem tampouco defendemos a realização das chamadas
internações compulsórias e involuntárias como recurso primeiro e em massa dos
usuários. Tais ações não cuidam, apontam o fracasso clínico e social de busca
do consentimento ao cuidado e são, na prática, um ato de seqüestro de direitos;
- na mesma medida repudiamos a
implantação das propostas políticas do Governo do Estado de Minas Gerais, em
particular, o Cartão Aliança pela Vida e o Território Aliança. Todas são
estratégias centradas na lógica da exclusão e da segregação e favorecem e
defendem os interesses privados em detrimento do bem público. Uma relação
histórica, questionável por parte do Governo do Estado que reduz a saúde a um
bem de mercado e não de cidadania, e o cuidado a um ato de vigilância, controle
e repressão;
- repudiamos aquelas comunidades terapêuticas que violam os direitos
humanos e propomos que a possível inserção desse setor na rede poderá ser feita
como serviço de atenção em regime residencial ou projetos de inclusão
produtiva, respeitando as exigências da Portaria Ministerial nº 131, de 26 de
janeiro de 2012;
- repudiamos as intervenções do Judiciário, Ministério Público e
Defensoria Pública que, ao contrário da proteção aos direitos do cidadão, tem
repercutido o alarme e desencadeado ações que fragilizam os usuários, os
inscrevem como classe perigosa e perpetuam o preconceito e o estigma em relação
aos mesmos;
- repudiamos a opção por um modelo de saúde privatizado, com
transferência de responsabilidade estatal na gestão dos serviços, que além de
não permitir a estruturação de uma política de estado sobre drogas, também
precariza as relações de trabalho, impondo a redução de direitos a usuários e
trabalhadores;
- lamentamos a opção e posição do
governo federal em acolher e dialogar apenas com representantes do discurso
repressivo e moral, ignorando as posições e propostas dos movimentos sociais
comprometidos com a construção de políticas públicas e com a defesa dos
direitos sociais e humanos e da IV Conferência Nacional de Saúde Mental e XIV
Conferência Nacional de Saúde. Tal escolha conduziu à formatação de uma
política que incluiu no SUS espaços de reclusão além de estimular a
privatização da assistência em saúde;
- que a chamada “guerra às drogas” além de ineficaz é danosa, produz
mais mortes do que o seu uso, intensifica a violência e desperdiça recursos
públicos, além de sustentar a ilusória crença na possibilidade de um mundo sem
drogas;
- defendemos para Belo Horizonte, em razão e coerência com a história da
Luta Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica aqui implantada, assim como para
todo município brasileiro, uma política de atenção aos usuários de álcool e
outras drogas ousada, corajosa e inovadora e não a repetição de velhas fórmulas
e respostas apressadas, mágicas, a uma questão tão delicada e complexa e intrinsecamente
associada aos valores contemporâneos, cujas marcas podemos ler nos novos modos
de relação dos sujeitos com as drogas;
- defendemos, no caso específico para esta cidade, a criação de mais
CERSAM-ad III conforme decisão da III Conferência Municipal de Saúde Mental e
afirmamos ser inaceitável a existência de apenas uma unidade deste tipo. Não há
como fazer frente ao alarme e busca de soluções mágicas, sem apresentar
respostas públicas de qualidade e potentes;
- defendemos, para as crianças e adolescentes, em especial as que se
encontram em situação de rua, a implantação de políticas que as conduzam e
insiram na cidadania e rompam com a exclusão e o encarceramento precoce a que
têm sido submetidas;
- defendemos a implantação de leitos em hospital geral para cuidado às
urgências e necessidades clínicas dos usuários, superando a resposta inadequada
dada pelos hospitais psiquiátricos e comunidades terapêuticas, ambos,
destituídos de condições e estrutura para realização deste cuidado;
- defendemos Consultórios de Rua públicos, invenção recente, audaciosa e
criativa, que levou a saúde mental ao encontro de uma realidade até então
desconhecida pelas políticas públicas, fazendo chegar às redes histórias de
vida nas quais a droga é um dos elementos, e o elemento, da desfiliação e
fragilidade, cuja implantação exigiu coragem e decisão de fazê-lo e orientou-se
pelos pressupostos da redução de danos e da reforma psiquiátrica para desvelar
aquilo que a exclusão encobria: a vida presente nas cenas de uso. Por isto,
repudiamos, mais uma vez, o arremedo de consultório proposto pelo Governo de
Minas Gerais, através do Território Aliança, cuja capacidade de atuar em
coerência com tais princípios está comprometida de saída, na medida em que
serão executados por instituições que operam com a estratégia da abstinência,
de captação de usuários para seu serviço e a lógica do lucro;
- defendemos que as políticas públicas, de forma ampla, e os serviços de
saúde mental e seus trabalhadores, em particular, adotem e operem com os
pressupostos da redução de danos, fomentando a construção de outra cultura
clínica, mas, sobretudo, cuidando solidariamente dos usuários;
- defendemos ainda, que a resposta urgente e necessária do poder público
não se restrinja à saúde, mas incorpore todas as áreas públicas: trabalho,
habitação, educação, cultura, arte, esporte, justiça, segurança pública e
assistência social, sendo, portanto e efetivamente, intersetorial para dar
acesso à cidadania e fazer valer o direito à vida;
- defendemos a criação de espaços de interlocução entre a saúde e o
judiciário, favorecendo, além da aproximação entre as instituições, a defesa e
o fortalecimento dos direitos de cidadania dos que usam e abusam de drogas;
- repudiamos o PL 7663/2010 e seu substitutivo em função do retrocesso a
que os mesmos podem conduzir a política de drogas e das ameaças aos direitos
sociais que tais propostas podem acarretar;
- repudiamos a escolha e a permanência do deputado federal Marcos
Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara
e, assim como os milhares de manifestações, afirmamos que o mesmo não nos
representa;
- denunciamos e repudiamos as ofensas e acusações feitas pelo deputado
federal Givaldo Carimbão (PSB/AL) ao Conselho Federal de Psicologia e, como
cidadãos, exigimos que o parlamentar seja responsabilizado por tais atos.
Uma cidade somente será o oposto do deserto que a limita, quando criar
em si, em seu solo as condições para incluir a todos, para fazer valer a vida e
não o lucro ou o capital, o homem e seus sonhos e capacidades, tristezas e
realizações, tecendo, dia a dia, ponto a ponto, os invisíveis fios que unem uns
aos outros na construção da história. Desejamos a Belo Horizonte a
possibilidade de cumprir seu desígnio: ser um horizonte aberto, convidativo
para todos e em especial para seus cidadãos. Uma referência no atlas ancorado
no respeito à dignidade humana.
Belo Horizonte, 16 de Março de 2013
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