Presídios
da Bahia: não há vagas!
Gerivaldo
Neiva *
Se
um dia os juízes da Bahia decidirem não encaminhar os condenados para
cumprimento de pena em regime fechado sem a garantia da existência de vaga no
presídio, apenas seriam encaminhados mais 09 (nove) presos para o presídio de
Serrinha.
Depois,
se os juízes da Bahia resolvessem determinar a soltura dos presos em excesso
nos presídios da Bahia, seriam postos em liberdade 3.040, pois o sistema
comporta 6.919 presos e conta com 9.959 presos.
Apenas
para ilustrar o caos que se transformou o sistema penitenciário na Bahia,
existem presídios com o dobro da capacidade. Por exemplo, o presídio de Jequié
tem capacidade para 416 presos e tem excesso de 428 presos. Bem perto de
alcançar esta meta absurda, o presídio de Feira de Santana tem capacidade para
340 presos e tem excesso de 334; o presídio de Teixeira de Freitas tem
capacidade para 316 presos e tem excesso de 304 presos; o presídio de Itabuna
tem capacidade para 478 presos e tem excesso de 459 presos e, por fim, o
presídio de Paulo Afonso tem capacidade para 122 presos e tem excesso de 115
presos. Em síntese:
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Presídio
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Total
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Capacidade
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Excedente
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Jequié
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844
|
416
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428
|
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Teixeira de Freitas
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620
|
316
|
304
|
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Itabuna
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937
|
478
|
459
|
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Paulo Afonso
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237
|
122
|
115
|
|
Bahia
|
9.959
|
6.919
|
3.040
|
Fonte:
SEAP – Ba.
Se tudo isso é um grande absurdo,
imagine ainda que dos presos do Sistema Penitenciário, segundo dados do Infopen
de dezembro de 2011 (Ministério da Justiça), 4264 são presos provisórios, ou
seja, ainda aguardando o julgamento. Além disso, existem na Bahia mais 4.412
presos sob custódia da Secretaria de
Segurança Pública, totalizando 13.867 presos.
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Total de Presos
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13.867
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Secretaria de Segurança Pública
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4.412
|
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Sistema Penitenciário
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9.455
|
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Provisórios no sistema penitenciário
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4.264
|
E você sabe quem são esses presos?
Eis um breve perfil, segundo dados do sistema Infopen, do Ministério da
Justiça: Por escolaridade, 85,35% deles tem até o ensino fundamental; 43,26%
cometeram crimes contra o patrimônio (roubo, furto...); 27,16% cometeram crime
de tráfico; 16,4% cometeram crime contra a pessoa; 7,72% cometeram crime contra
os costumes (estupro, atentado ao pudor...) e 0,0% deles cometeram crimes
contra a Administração Pública (peculato, corrupção passiva...). Em síntese, os
presos da Bahia são pobres, negros, periféricos, analfabetos, delinquentes comuns
ou envolvidos com o tráfico e amontoados em presídios.
Por fim, para tornar mais dantesco
este quadro, apenas 5,8 % desses presos estão estudando; 11,9% estão no
trabalho interno e apenas 2,74% no trabalho externo. O certo, no entanto, é que
todos eles, mais cedo ou mais tarde, vão cumprir a pena ou adquirirem o direito
à progressão do regime. Sendo assim, retornarão para casa e para o convívio
social. Pergunto: melhores ou piores?
Antes
que alguém me pergunte o que faço com os acusados que condeno ao regime fechado,
aviso que minha Comarca fica na região do presídio de Serrinha, que conta ainda
com 09 vagas. Quando faltar vagas neste presídio, irei oficiar ao Diretor e
aguardar a declaração da existência de vagas. Enquanto isso, o condenado vai
permanecer em regime aberto aguardando sua vaga no presídio para cumprimento da
pena em regime fechado.
Finalmente,
não quero ser cúmplice, pois jurei cumprir a Constituição, com a violação dos
Direitos Humanos, dos direitos do condenado e, muito menos, transgredir o
princípio da dignidade da pessoa humana, pois estabelece nossa Constituição que
o fundamento da República é a cidadania e dignidade da pessoa humana e o
objetivo da República é erradicar a pobreza e a marginalização e construir uma
sociedade livre, justa e solidária.
* Juiz de
Direito (Ba), membro da Associação Juízes para
a Democracia (AJD) e do movimento Law
Enforcement Against Prohibition – Leap Brasil.

4 comentários:
Por mais que estas pessoas tenham praticado condutas reprováveis, são seres humanos como nós, merecem o mínimo de dignidade, o que um sistema prisional como o do nosso país está longe de oferecer. Seu Blog é ótimo, tenho acompanhado diariamente, e posso dizer que agrega muito em minha formação!
Grande humanista, obrigado por nos proporcionar tão belas leituras, tão belas atitudes e exemplos num mundo tão carente disso.
Com um cunho totalmente humanista, seu artigo nos faz entender que o Juiz não é um mero aplicador da lei, mas um cidadão preocupado com os direitos humanos.
Entristece-me muito saber que o governador Jacques Wagner investe milhões em propaganda enquanto politicas de ressocialização são descartadas.
Gostaria de parabenizar ao Juiz Gerivaldo Neiva e ao Promotor Geder Luiz Rocha Gomes por Acreditarem na dignidade da pessoa e na ressocialização dos presos.
Belíssimo Artigo, Admirável Homem.
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