A DESFORRA DE BARTIRA
Salete
Maria
A
mulher entrou na sala
E
o mundo estremeceu
Estarrecida
e sem fala
Logo
ela reconheceu
Toda
a gente da cidade
Que
na oportunidade
Lamentava
o que se deu
Viu
Lena de Manezim
-
sua comadre e amiga-
Marcela
de seu Quinzim
-
que adora fazer intriga -
Viu
Chico de Soledade
Que
outrora, na mocidade
Juntos
colheram espiga
Viu
os filhos e sobrinhos
O
pai, a mãe, a irmã
Avistou
uns rapazinhos
E
algumas anciãs
Olhou
e viu as vizinhas
Todas
bem arrumadinhas
Naquela
triste manhã
Viu
o padre e o pastor
O
delegado e o juiz
Viu
também um professor
E
um jovem aprendiz
Um
faxineiro e um poeta
Um
cantor e um atleta
Um
louco e uma meretriz
Viu
garçom e operário
Médico
e agricultor
Um
gay fora do armário
E
a vendedora de flor
Viu
com muita emoção
A
vó com terço na mão
“Orando
pro Redentor”
Viu
mendigo e barão
Branco,
negro e amarelo
Viu
gigante e anão
Rico
e pé de chinelo
Adulto,
velho e criança
Mas
se viu sem esperança
Quando
bateram martelo
Nesta
hora um senhor
Gritou
“justiça”- em voz alta
Ao
lado do promotor
-
que vestia negra bata-
O
juiz pediu silêncio
E
convidou Inocêncio
Para
então ler a ata
Jurados
se levantaram
Com
o semblante medonho
Todos
ali se calaram
Ante
o ritual tristonho
Da
leitura da sentença
Onde
quem tinha uma crença
Pedia
que fosse sonho
O
oficial tremia
E
mal podia falar
Uma
palavra dizia
Para
depois se calar
Não
conseguiu ler o texto
Pois
conhecia o contexto
E
começou a chorar
O
juiz então chamou
O
assistente mais novo
E
este assim começou
-
olhando bem para o povo:
Nesta
pátria mãe gentil
Aos
cinco dias de abril
Condeno
a ladra dum ovo!
O
veredito dizia
Em
linguagem empolada
Que
Bartira cumpriria
Uma
pena delongada
Num
tal regime fechado
Onde
o sol nasce quadrado
E
a pessoa sai mudada
O
povo se entreolhou
E
começou a vaiar
Então
Bartira falou:
Seu
juiz vá se lascar
Aqui
ninguém é palhaço
O
senhor solta o ricaço
E
me prende em seu lugar?
Não
pratiquei nenhum crime
Quando
‘um’ ovo peguei
Pois
a dona faz regime
E
eu apenas tomei
O
tal ovo emprestado
Mas
vi que tava galado
Na
hora que o fritei
Eu
sequer usufruí
Do
ovo a que tive acesso
Pois
logo que o comi
Fiquei
cheia de abcesso
Saiba
que não sou bandida
Pois
o que tenho é ferida
E
isto não dá processo
A
senhora está dizendo
Que
o ovo estava gerado?
-
interveio o promotor
num
tom muito injuriado -
Pois
agora complicou
Pois
aborto praticou
Contra
um feto malformado
Vejam
isto, meus senhores,
E
ilustres autoridades
Excelências
e doutores
Habitantes
da cidade
Este
é o julgamento
De
Bartira Sacramento
Este
exemplo de bondade!
Ela,
aqui, foi acusada
De
furto qualificado
E
consta que foi flagrada
Comendo
o ovo afanado
Mas
agora confessou
Que
aborto praticou
Contra
o pintinho esperado
Portanto
ficou pior
A
sua situação
E
não podemos ter dó
Deste
ser sem coração
Esta
assassina cruel
Será
julgada no céu
E
lá não terá perdão
Impediu
que um nascituro
Enxergasse
a luz do dia
Um
neonato futuro
Que
só traria alegria
Como
galeto de sorte
Teria
uma boa morte
E
nos alimentaria
Justiça
tem que ser feita
E
a sociedade clama
Quero
a prisão da sujeita
Quero
seu nome na lama
Pois
além de ser ladrona
Ela
é também comelona
E
ainda mais se ufana
Meritíssimo
juiz
Fiel
cumpridor da lei
A
Carta Magna diz
Que
nosso povo é rei
Nós
ouvimos a comarca
Onde
deixo a minha marca
E
por quem me empenhei
Ao
longo de vinte anos
Me
dediquei ao mister
Mas
estou fazendo planos
De
voltar pra Jequié
E
como fui democrata
Sei
que esta gente é grata
E
vai me aplaudir de pé
De
repente uma velha
Que
sentava ao fim da sala
Chamada
Dona Amélia
-
a vendedora de bala -
Disse:
eu quero falar
Pois
Bartira não é má
Mas
o senhor é um mala
Tá
pensando que a gente
É
um bando de otário?
Quer
prender a inocente
Com
esse conto do vigário?
Bartira
é desempregada
E
só deu essa mancada
Porque
não teve salário
Não
teve estudo na vida
Nem
teve oportunidade
Nem
quem lhe desse guarida
Nesta
tal “sociedade”
Que
lhe nega um trabalho
E
só lhe dá quebra galho
Pra
lhe acusar de maldade
Eu
não sou advogada
E
nem conheço das leis
Mas
foi grande a burrada
Que
sua justiça fez
Condenando
essa mulher
Por
um ovinho qualquer
Pra
ser a bola da vez
O
juiz interrompeu
A
fala da tal senhora
E
o delegado a prendeu
Dando
o flagrante na hora
Dizendo:
foi desacato!
Ela
fez espalhafato
E
isso não se ignora
O
doutor solicitou
Que
a força policial
Evacuasse
o setor
Interno
do tribunal
E
dali logo saiu:
“Pois
se o júri decidiu,
Que
se cumpra, afinal”
Bartira
se levantou
E
foi rodando à baiana
Olhando
pro promotor
Como
quem não se engana
Falou
em alto e bom som
Como
quem já tinha o dom
De
desmascarar sacana:
Deixe
de ser demagogo
E
denuncie os prefeitos
Governadores
e sogros
Que
só vivem de mal feitos
Vá
prender estes ministros
Que
com seu jogo sinistro
Roubam
o cidadão direito
Vá
enquadrar os pilantras
Que
usurpam o Erário
E
ficam cantando mantras
Chamando
o povo de otário
Em
gabinetes de luxo
Bebendo
e forrando o bucho
Com
altíssimos salários
Porque
o senhor não lê
O
que diz minha defesa
Pra
todo mundo saber
O
grau da minha pobreza
Por
que a sua justiça
Não
prende essa mundiça
Que
destrói a natureza?
Que
desmata a floresta
E
saqueia o que é do povo
Que
vive fazendo festa
E
se elegendo de novo
Enganando
a nação
Com
tanta corrupção
Só
porque não roubam ovo?
Eu
pergunto: e esta gente
Quando
irá para a cadeia?
O
senhor acha decente
O
povo viver na peia?
Se
oriente, meu chapa
Se
não você sai do mapa
Ou
se enrosca na teia
Você
se acha o gigante
Porque
sempre ganha a briga
Mas
seu grito retumbante
Só
soa contra a formiga
Vá
lutar contra o elefante
Tire
essa roupa elegante
E
mostre sua barriga
Tô
indo para a cadeia
Porque
furtei um ovinho
E
porque tenho na veia
O
sangue do zé povinho
Mas
se eu fosse uma ministra
Que
roubasse em sua vista
Você
daria um jeitinho
Me
enoja o seu direito
Suas
leis e seu poder
O
seu discurso perfeito
Para
quem não sabe ler
A
sua visão de mundo
Seu
cérebro sujismundo
Quero
é cuspir em você
Sou
mais uma brasileira
Que
está cansada de ver
Vocês
falarem asneiras
Pensando
que a gente crê
Na
lábia que vocês tem
E
não convence ninguém
Chega
de teretetê
E
já que estarei privada
Desta
minha “liberdade”
Pois
serei encarcerada
No
auge da mocidade
Quero
mais que vá pra porra
Essa
Justiça de zorra
E
sua podre verdade!
Que
se danem os bacharéis
-
os tais donos do poder-
Com
reluzentes anéis
E
terninhos demodê
Falando
em juridiquês
A
serviço do burguês
Botando
pra nos foder
Mas
eu hei de ver o dia
Que
o povo vai acordar
E
lutar por alforria
Contra
essa justiça má
Que
faz distinção de classe
Mas
que vive de disfarce
Pra
poder nos enganar
Tô
indo, pois tô detida
Sob
o poder do Estado
Eis
agora a minha vida
Será
fato consumado?
Nos
vemos lá na masmorra
Ou
na próxima desforra
Quando
houver outro julgado!
Copiado e colado do blog
Cordelirando, da cordelista, professora e advogada Salete Maria.

Um comentário:
Brilhante, só isso.
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