Em tempos de Pinheirinho, nada como relembrar
as “motivações ideológicas da sentença” do Desembargador Ruy Porta Nova (TJRS)...
MOTIVAÇÕES IDEOLÓGICAS DA SENTENÇA
O juiz que não tem valores e diz que o seu julgamento é neutro, na
verdade está assumindo os valores de conservação. O juiz sempre tem valores.
Toda sentença é marcada por valores. O juiz tem que ter a sinceridade de
reconhecer a impossibilidade de uma sentença neutra.
(Resumo do livro “Motivações ideológicas da sentença, de
Rui Portanova)
São muitas as motivações sentenciais.
Quer-se chamar a atenção neste livro para o fato de
que os juízes são profundamente afetados por sua concepção de mundo: formação familiar,
educação autoritária ou liberal, valores de sua classe social, aspirações e
tendências ideológicas de sua profissão. [...]
Enfim, todo homem, e assim também o juiz, é levado
a dar significado e alcance universal e até transcendente àquela ordem de
valores imprimida em sua consciência individual. Depois, vê tais valores nas
regras jurídicas. Contudo, estas não são postas só por si. É a motivação
ideológica da sentença. Pelo menos três ideologias resistem ao tempo e
influenciam mais ou menos o juiz: o capitalismo, o machismo e o racismo. [...]
A ideologia de que falamos não é má-fé, é um
conjunto de representações, saberes, diretrizes ou pautas de condutas. Este
complexo disperso, acumulado e pseudamente sistemático orienta, condiciona e
governa atos, decisões e atividades. Não é uma realidade sensível e concreta,
mas realidade imaginária e meramente possível, emanada de contexto
socioeconômico. Está difundida nos preconceitos, costumes, religião, família,
escola, tribunais, asilos, ciência, cultura, moral, regras gerais de conduta,
filosofia, bom-senso, tradição [...] De regra, a ideologia está a serviço da
classe no poder em determinado momento histórico, pois ao mesmo tempo em que
mantém, legitima uma dada orientação política, econômica e social.
Logo, se a igualdade jurídica assegurada pela
Constituição não corresponde à igualdade real da vida concreta do povo
brasileiro, então a ordem jurídica não esta assegurando, na prática, a
igualdade que apregoa. [...] Logo, a idéia de justiça é ideológica, pois traduz
os interesses dos grupos detentores de poder e é utilizada para manutenção
dessa relação de poder. [...] Nestas condições, é plantada a falsa idéia de
ordem, segurança, desenvolvimento e progresso. Na verdade, o Direito é usado
como instrumento da conservação. [...]
A visão tradicional, ordem legal, centrada na
obrigatoriedade, generalidade e neutralidade, está, em verdade, a serviço de
ideologias como: o capitalismo que privilegia economicamente uma minoria; o
machismo, que relega a mulher a uma posição subalterna ao homem; o racismo, que
promove a exclusão da grande maioria dos negros brasileiros [...] Logo, a lei
nem sempre revela o Direito. Pelo contrário, muitas vezes consagra privilégios.
O juiz que não tem valores e diz que o seu
julgamento é neutro, na verdade está assumindo os valores de conservação. O
juiz sempre tem valores. Toda sentença é marcada por valores. O juiz tem que
ter a sinceridade de reconhecer a impossibilidade de uma sentença neutra.
O juiz não é escravo da lei. Pelo contrário, o juiz
deve ser livre, deve ser responsável. Enfim, dotado de inteligência e vontade,
o juiz não pode ser escravo nem da lei. A sentença, provindo de sentir, tal
como sentimento, deve expressar o que o juiz sente, diante desse sentimento
definir a situação. Não há como afastar, assim, o subjetivismo do julgador no
ato de julgar. [...]
Na busca de uma decisão justa, o juiz deve ter
presente que o Direito é fenômeno social, intimamente relacionado a todos os
outros aspectos da vida humana, não podendo, por isso mesmo, ficar estranho às
contribuições das outras ciências. [...]
No Brasil, atualmente, o Direito existe e tem razão
de ser quando se projeta na proteção dos mais fracos. Os mais fortes já tem seu
lobbies, suas seguranças e seu poder econômico. O poder econômico já compra
opiniões, induz decisões e até faz leis. Logo, não precisa do Poder Judiciário.
Os pobres sim, estão precisando da justiça estatal para viver com um mínimo de
dignidade. Para eles deve voltar-se preferencialmente o judiciário. [...]
É direito dos ricos de ficar ricos.
Contudo, é injusto que tal riqueza seja a causa da
miséria e da morte de milhões de brasileiros. A transformação social é feita de
muitas tarefas pequenas e grandes, grandiosas e humildes. (Paulo Freire, Medo e
Ousadia).
O juiz está incumbido de uma dessas tarefas. Ele
também é um agente global de transformação.
Assim agindo, as sentenças, por certo, não farão
revolução, mas não a impedirão.
PORTANOVA, Rui. Motivações ideológicas da
sentença. 4 ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2000.
(Resumo elaborado por Gerivaldo Alves Neiva)

4 comentários:
Um juiz pode até ter valores. Principalmente se for criticar o CNJ.
Só não pode se dizer pela democracia, pois isto é coisa de comunista e anarquista. O comunismo é o mau, todos sabem.
Se resolver escrever poemas, então, aí, pronto! Ódio eterno!Queima na fogueira esse subversivo e irresponsável!
Esse livro é esplêndido. Cabem, no entanto, dois pequenos comentários.
Riqueza é um conceito relativo, pois só se entende a riqueza quando comparada com a pobreza. O mesmo ocorre com beleza x feiúra, grandeza x pequenez etc..
Só há ricos em comparação com pobres. Ao se afirmar que os ricos têm direito de ficar ricos, está-se dizendo que eles têm o direito subjetivo a explorar os pobres.
É exatamente para isso que serve o direito. Para conservar essa situação de iniquidade e dar a impressão de que, se tudo ficar ruim, o pobre poderá se socorrer ao judiciário.
Desde que encontre um advogado 'pro bono' ou perca dia de serviço para ficar na fila da defensoria...
Abraços e parabéns pelo blog.
Josué Mastrodi
Muita gente não acredita que mulheres muito bonitas e juizes de direito façam o prosaico cocô, como os demais mortais.
Como é possível que debaixo daquela toga imponente exista apenas um ser humano imperfeito?
Mas o pior é que tem muito juiz que age, julga e sentencia como se não fosse jamais ao banheiro.
E fazem isso empinando o nariz.
Lembro-me, como estudante, de quando lia o livro: "O que é justiça" De Roberno Aguiar..
Siga em frente companheiro!
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