Juiz Gerivaldo Neiva (2012)
O
judiciário brasileiro: com band-aid não se cura gangrena
Comentam-se
de todos os lados que o judiciário brasileiro atravessa a maior crise de sua
história e que 2012 será um ano crucial para sua reestruturação e
reorganização. Não questiono a existência da crise, mas fico a me perguntar se,
de fato, a crise é esta mesma que anda alimentando a vaidade de alguns figurões
do judiciário brasileiro. Evidente que existem casos de corrupção, malfeitos e
malversação do dinheiro público no judiciário brasileiro. Fato este,
lamentavelmente, presente em quase todos os setores públicos deste país. De
outro lado, como pensam alguns, não é só este o problema do judiciário
brasileiro e o debate sobre a crise precisam ser ampliado, sob pena de cairmos
na ilusão de soluções fáceis ou milagrosas.
Na
verdade, a estrutura do judiciário brasileiro é autoritária, arcaica e
absolutamente alheia às melhores práticas democráticas que devem alimentar a
modernização das instituições públicas deste país. Repito que casos de
corrupção existem, mas sem a modernização e democratização do poder é como se
estivéssemos tentando tapar o sol com uma peneira ou iludidos na cura de uma
gangrena como um simples band-aid. Enquanto a escolha das cúpulas dos
tribunais, por exemplo, for privativa de uns poucos cardeais, como se
estivessem elegendo o papa, haverá sempre espaço para o jogo de interesses e permanecerá
o distanciamento dos demais integrantes do poder em relação aos seus
dirigentes. Em consequência, juízes, desembargadores e ministros continuarão
pensando que são administradores de sistemas complexos de pessoal e orçamento e
chefes dos demais integrantes do poder. Para concluir, o CNJ continuará se imaginando
um grande ministério de ações sociais e, de outro lado, julgador impiedoso e
midiático dos casos que lhe interessa.
Precisamos
enfrentar este debate em 2012. Não podemos perder a chance de questionar esta
estrutura ultrapassada e defender com energia a democratização do poder
judiciário e idealizar novas formas da realização da justiça. A sociedade está normatizada
ao extremo (a lei, seja qual for, virou tábua de salvação para todos os males)
e, por consequência, desesperadamente judicializada (todas as espécies de conflitos
são transferidos para o judiciário). Esta situação precisa ser repensada com
urgência, sob pena de tornar-se necessário, não muito distante no tempo,
implantar uma estrutura de poder judiciário em cada esquina para solucionar
toda sorte de conflitos que poderiam ser mediados em outras instâncias. Assim,
não há poder que resista!
Começo
2012 com a mesma crítica e indignação de sempre, mas com a esperança viva de
que este país (seu povo e suas instituições) terá a força necessária para
construir uma sociedade livre, justa e solidária. O olhar é sereno, mas firme e
para frente. Fazendo a hora e não esperando acontecer. As redes sociais terão
um papel muito mais forte neste processo em 2012. Desde já, agradeço a tod@s
pela companhia nesta caminhada.
9 comentários:
Olá Dr. Gerivaldo,
A impressão que tenho é a de que os últimos acontecimentos do judiciário que escandalizaram a opinião pública, parece ter acordado um gigante adormecido, que é este judiciário inerte em sua grandeza.
Já comecei a ouvir nos meios de comunicação que o Poder Judiciário é o pior dos três, achei isso imprecionante, como foi rápido desbancar os nosso políticos do pior lugar na opinião pública!!
2012 promete ser um ano de muitos debates e, espero eu, de mudanças para melhores neste nosso sistema jurídico, pelo menos que tenhamos um bom início de transformações!
Feliz Ano Novo!
Carolina M. Rios
Gerivaldo sem barba tá parecendo Lula sem barba...
Eu acredito que só elegendo os membros dos Tribunais Superiores, com juristas ilibados, com fichas limpas, sem o crivo de ser indicado pelo Executivo, pode-se dar um passo para melhorar o Judiciário.
Oi, Gerivaldo! Estava aguardando a "chegada" desse seu texto desde dez/2011: bem-vindo à (mais nova) crise do Judiciário!
Eu defendo a democratização do Judiciário: Nova Lei da Magistratura JÁ!
No Brasil, os privilégios dos magistrados escondem-se sob a alcunha de “prerrogativas”. E, obviamente, eu não estou falando das garantias do art. 95 da CF.
Refiro-me, por exemplo, ao uso e abuso de carro oficial nos finais de semana e feriados, férias de 60 dias e o trabalho de meio expediente justificado pelo “excesso de calor dos trópicos”. Isso sem mencionar as penas levíssimas, previstas na LOMAN - que vale lembrar é de 1979; resquício de ditadura! - para infrações cometidas pelos magistrados. O máximo que pode ocorrer, a aposentadoria compulsória, é um prêmio e não uma condenação! A mudança do processo eleitoral dos tribunais é outro ponto nevrálgico.
Mas mexer na lei da magistratura, eliminando privilégios, é enfrentar forte embate com as entidades de classe, principalmente, AMB, AJUFE e ANAMATRA. Como bem disse a ministra Eliana Calmon, no programa Roda Viva: “não se muda uma cultura de 200 anos de uma hora pra outra”.
Enfim. Em termos de prioridades, penso que é muito importante garantir a competência concorrente do CNJ: ou isso vai ocorrer via pleno do STF ou pelo Senado; mas que vai, vai!. Logo depois, será a vez da Nova Lei da Magistratura. E vamo que vamo!
Um grande abraço.
Caríssimo Dr. Genivaldo, parabéns pelo seu texto. Será que o judiciário vai ter coragem de se reinventar com modernidade, inclusive com o fim da vitaliciedade, instituto ultrpassado, que atualmente tem servido para lesar o patrimônio público, remunerando na forma de aposentadoria os juízes comprovadamente corruptos. Cheguei até vc por um colega seu, vou acompanhar seu blog.
Desculpe-me mais, além dos assuntos judiciários o Dr vivi uma vida normal?O seu olha é de uma pessoa que busca algo...
Oi, Exa! Eu de novo. Repliquei esse texto no Xad, mas tem um detalhe: tirei sua foto (nada contra, viu? gostei do visual 2012!) e coloquei a de Themis - com os olhos bem abertos. Acho que foi uma troca justa, beleza? Gde abraço.
Certamente falta espírito público à grande maioria dos homens que ocupam cargos públicos neste "macunaímico" país.
Considero o Judiciário o pior dos poderes constituídos, não necessariamente que os outros dois sejam melhores, mas ainda assim há alguma participação popular através do voto, apesar da desigualdade na disputa. Há pouco mais de um mês compareci a uma audiência por ocasião de um processo movido contra o plano de saúde que possuo e a mesa da juíza ficava a quase um metro de altura entre as partes envolvidas e a juíza comentava questões pessoais com sua assistente entre uma intervenção e outra, minha vontade era de virar a mesa, só não o fiz pois seria considerado um desacato à autoridade ... sic ..
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