quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Nóias, futuros nóias e ex-futuros nóias


Foto: Maria Fernanda Sampaio (a mão é minha!)

Nóias, futuros nóias e ex-futuros nóias

Gerivaldo Neiva *

Já vi de perto e até já conversei com um “nóia”, mas não conheço nenhum “ex-nóia”. 
Talvez até existam...
Também conheço muitas pessoas que se embriagam de sexta a domingo, mas trabalham normalmente na segunda.
Conheço também muitas pessoas que fumam baseados de maconha, outros que cheiram cocaína, mas que também trabalham, pagam impostos ou estudam.
Pode até ser que exista, mas não conheço nenhum “nóia” que trabalhe, estude ou pague imposto.
E “ex-nóia”, será que existe mesmo?

Apesar disso, conheço dezenas de “futuros-nóias”, que serão ou não “futuros-nóias.”
Depende...
Muitos deles terão as oportunidades e não serão “nóias”.
Outros já tem o destino traçado: são personagens de crônicas de mortes anunciadas.

Assim, como é muito raro encontrar um “ex-nóia”, pode também não ser muito efetivo criar fórmulas somente para salvar os “nóias”, visto que é muito difícil – não impossível – que se torne um ex.
Não tenho dúvidas, portanto, de que é muito mais importante uma criança não se tornar um “nóia” do que revertê-la em “ex-nóia”.
Enquanto isso, no presente, tendo fracassado o discurso piedoso de salvação aos “nóias”, bem como fracassada a “guerra ao tráfico” e os cassetetes da polícia, o braço impiedoso do sistema passa a cometer outros verbos sobre os pobres “nóias.”
Primeiro se comete verbos da terceira conjugação: reprimir.
Depois, da segunda conjugação: esconder.
Depois, da primeira: matar.

Por fim, penso que há um único verbo – da primeira conjugação – que se conjuga e se comunga com todos eles: cuidar! De forma transdisciplinar, cuidar de forma integral!
Cuidar:
Dos “nóias”, para que tenham um mínimo de dignidade humana.
Dos “futuros-nóias”, para que se tornem “ex-futuros-nóias.”
Dos “ex-futuros nóias”, para que tenham vida plena e abundante.
Cuidar, por seus semelhantes e pelo poder público, para que não seja necessário cometer tantos verbos: reprimir, esconder e, sobretudo, matar.

(sobre a fotografia que ilustra este texto, encontrei o filhote de periquito com um problema e cuidei dele. Depois de uns dias, transformou-se num belo periquito de penas amarelas. A mão é minha e a fotografia é de Maria Fernanda Sampaio)

* Juiz de Direito (Ba), membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD), 26.01.2012.


2 comentários:

Dora Martins disse...

Ao ver a foto,antes mesmo de ler o texto, tive certeza de que a mão era sua, que o pássaro era de seu jardim e que vocÊ o fez viver!!! bjs
dora

Anônimo disse...

Acabei de descobrir o blog. Ministro Celso Amorim postou o Clamor por justiça diante dos acontecimentos em Pinheirinho.
Quero dizer que vim para ler apenas a mencionada publicação. Vou comentar no devido local.
No momento basta dizer que já li, de cara, a primeira. Convencido estou de que voltarei ao blog usualmente.
Obrigado por colocar de forma tão clara, simples e ao mesmo tempo, profunda, esclarecedora.
Creio ter chegado o momento de caminharmos para uma discussão mais profunda sobre a política de drogas no país.
Um absurdo permitirmos propaganda em concessão pública de drogas (álcool, farmacêuticas, etc.).
A campanha antitabagista mostra a importância da educação e esclarecimento. Uma droga que se propagava através da associação com saúde, glamour, até pouco tempo. Minha adolescência e juventude foi marcada pelos anúncios da marca se pronunciava o sucesso.
Por uma política de redução de danos. Pela descriminalização do uso de drogas. Pela descriminalização, regulamentação do auto-cultivo, compra e venda da cannabis. Pela educação, esclarecimento e proibição de 'comerciais' de qualquer droga.

Abraços.
Guilherme Costa (meicobr)