Dr. Gerivaldo
Toda essa situação tem nos mostrado o quão importante é a união dentro da nossa família.
Fico tão triste em pensar que meu irmão foi julgado e condenado. Condenado por pessoas que infelizmente não o conhecem como eu conheço.
Lembro dele pequeno chegando em casa esbaforido com alguma novidade.
Lembro dele voltando dos acampamentos quando ele era escoteiro. E, lembro principalmente da vez em que ele foi acampar e fez tantoooo frio que nosso pai ficou tão apreensivo que quis ir atrás.
Lembro de quando ele quebrou o braço na escola por que queria contar uma piada e quando o professor chegou na sala ele quis descer da cadeira e caiu.
Lembro do dia da morte do nosso pai, quando jurei na frente do caixão que iria cuidar dele e fazer tudo o que pudesse para vê-lo sempre bem.
Lembro do dia do meu casamento quando ele me levou pro altar e de como ele chorava de emoção.
Lembro do dia da minha formatura, como seus olhos marejavam pensando que nosso pai não estava presente.
Tenho tanta coisa boa pra lembrar.... mas também não consigo esquecer do dia em que ele foi preso.
Preso por um erro que poderia ter sido corrigido de outra forma, mas que acarretou em quase 4 meses de detenção.
Foram meses terríveis em que eu tinha até medo de olhar pra minha mãe. Medo porque eu não aguentava o seu sofrimento. Medo porque me doía tanto vê-la com esperança enquanto todos os nossos pedidos de HC eram negados.
Além dela, outras três mães também estavam sofrendo, assim como outras irmãs, pais, avós e avôs.
As nossas vidas pararam por aqueles quase quatro meses, e nossa família mais uma vez se mostrou unida para tentar superar.
Quantas ligações dos tios, tias, primos e primas nós recebemos naqueles dias. Quantos amigos nos foram fiéis.
Até que em 07.07.2009 após a audiência de instrução e julgamento eles foram soltos. Achei que tudo aquilo tinha ficado pra trás.
Vida normal!!!!!!
Ele voltou pro mesmo emprego, voltou a fazer faculdade. Enfim, voltou a viver uma vida que tinha ficado estacionada por longos meses.
Em setembro/2009 a sentença: Condenação de 5 anos e 4 meses para o meu irmão e mais dois dos meninos, e 6 anos para o outro.
Meu chão caiu, mas ainda tínhamos como apelar, e ele poderia ficar em liberdade. Ufa, menos mal.
Tínhamos todas as chances de reverter, afinal a reprimenda era dura pra quatro jovens que tinham errado, mas que poderiam se redimir de outras formas.
Não era justo que eles voltassem para a cadeia.
Passei todo esse tempo com fé de que tudo daria certo, afinal pensava que quem lesse a sentença poderia entender o que realmente havia acontecido, e o quão eles mereciam levar suas vidas adiante.
Não achava justo que eles pudessem ficar presos, e tinha esperança que os desembargadores também não.
Nesse tempo tive um filho, e pude ver o quanto meu irmão é apaixonado por ele. Ele pergunta por ele o tempo todo.
Em dezembro passado, como que pra provar seu valor ele decidiu prestar vestibular na Universidade de São Paulo (USP) e prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para conseguir bolsa de estudos.
Conseguiu os dois... Era uma forma de dizer que aquele era ele.
A pessoa inteligente que sempre foi.
Até que em 30.06 a apelação foi julgada e confirmada a sentença de 1 grau.
"Assim, expeça-se os mandados de prisão". Quanta dor senti naquele momento.
Como iria contar para ele e para a minha mãe?
Foram momentos de tanta dor.
Hoje, passados alguns dias, vejo meu irmão acordando muito cedo pra trabalhar, pensando em como será seu futuro daqui pra frente.
Ainda temos um prazo pra apelar, mas como dói.....
Vejo ele sonhando com um novo semestre na faculdade, mas vejo em seus olhos o medo e a dor que jamais queria ter visto.
Penso na minha mãe e no seu sofrimento.
Penso na promessa que fiz ao meu pai, e penso se estou conseguindo cumpri-la.
J.