Massacre de São Bartolomeu - François Dubois
Sobre
a intolerância da elite brasileira e o papel dos juízes para a democracia
Gerivaldo Neiva
*
Em
1572, no episódio que a história oficial denomina “A Noite de São Bartolomeu”, os católicos franceses, apoiados pela
nobreza também católica, mataram milhares de protestantes Huguenotes por que
não concordavam com suas ideias reformistas. A história relata entre 30 e 100
mil protestantes mortos pelos católicos pelas ruas de Paris e de toda a França.
Assim, em nome da fé, de Deus e de Jesus Cristo, a intolerância religiosa,
contraditoriamente, causou um dos maiores massacres de inocentes da história da
humanidade.
Mais
de 100 anos depois da “Noite de São
Bartolomeu”, John Locke, um dos maiores filósofos da modernidade, o maior
para os ingleses, durante o exílio na Holanda, imposto pela intolerância
política, escreveu uma pequena obra que deveria ser obrigatória para todos os
estudiosos de todos os ramos do conhecimento: “Carta sobre a tolerância”. É certo que Locke escreveu sua Carta
contra os abusos religiosos do absolutismo, mas sua ideia sobre a possibilidade
da convivência entre pessoas com ideias divergentes influenciaram e
fundamentaram a discussão sobre a concepção de democracia, nos moldes que hoje
defendemos.
Além
desses, os casos de intolerância são vastos na história da humanidade. Da mesma
forma, além de Locke, desde Jesus Cristo a Mandela, são vastos os casos de luta
pela igualdade e tolerância entre as pessoas com ideias diferentes. Lutas
estas, aliás, que têm valido a pena. O mundo seria outro, para pior, sem as
lutas da humanidade e de seus mártires por liberdade, igualdade e solidariedade.
Pois
bem, para relembrar os antigos, no ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de
Dois Mil e Onze, o jornalista Reinaldo Azevedo (Abril – Veja), em um blog
na Internet, ao criticar uma nota pública da Associação Juízes para a
Democracia (AJD) manifestando seu apoio aos estudantes da USP-SP, elencou os
membros da direção da AJD e observou aos seus leitores para que tivessem cuidado
com eles quando fossem os julgadores do seu caso na justiça. Isso mesmo: cuidado com os juízes da AJD! Meu nome
aparece duas vezes na relação. Como representante regional (Bahia) e coordenação
editorial. Os demais nomes “dedurados” estão publicados, sem segredos, no site da AJD.
Antes
de continuar, tenho a honra de apresentar a todos a Associação Juízes Para a Democracia
(AJD): “entidade civil sem fins lucrativos ou interesses
corporativistas, tem objetivos estatutários que se concretizam na defesa
intransigente dos valores próprios do Estado Democrático de Direito, na defesa
abrangente da dignidade da pessoa humana, na democratização interna do
Judiciário (na organização e atuação jurisdicional) e no resgate do serviço
público (como serviço ao público) inerente ao exercício do poder, que deve se
pautar pela total transparência, permitindo sempre o controle do cidadão”.
Quanto a mim, pouco tenho
a dizer: Juiz de Direito da Comarca de Conceição do Coité, semi-árido baiano, nascido
no sertão da Bahia, filho de agricultores, cumpridor de seus deveres, pagador
de impostos, admirador de São Francisco de Assis, menos católico do que cristão
e, sobretudo, alimenta o sonho de um dia ainda viver em uma sociedade “livre,
justa e solidária”, conforme escrito na Constituição Federal de 1988.
Dito isto, fico a me
perguntar, sem respostas rápidas e consistentes, sobre as razões do ódio
desferido à AJD e aos seus membros. Da mesma forma, fico a me perguntar,
olhando minha trajetória como Juiz de Direito, que mal poderia eu causar,
propositadamente, a qualquer pessoa em meus julgamentos? Ora, se nosso propósito
consiste exatamente “na defesa
intransigente dos valores próprios do Estado Democrático de Direito e dignidade
da pessoa humana”, por que agora somos apontados como perigosos aos nossos
jurisdicionados?
Poderia até buscar
respostas em experts sobre a
personalidade humana, sobre a organização da sociedade, sobre o papel da
ideologia em uma sociedade de classes etc etc. No entanto, não creio que valha a
pena esta busca. Da mesma forma, não creio que valha a pena destilar o mesmo
ódio de quem nos ataca. A igualdade de comportamento, ódio por ódio, seria a
vitória deles. Então, pensando assim, também não defendo que lhe seja cassado o
direito de se expressar ou criticar, pois novamente seríamos iguais e não quero
ser igual a ele, jamais. Que continue, portanto!
Minha esperança reside na
história da luta incansável pela liberdade. Não a história dos vencedores, mas
a história da construção de um novo homem para um novo mundo. É esta a história
que nos julgará, condenará ou absolverá. Assim tem sido por séculos e séculos.
Uns serão esquecidos, outros irão para o lixo e outros serão lembrados como defensores
da possibilidade de uma vida com tolerância, plural, igual, solidária e feliz. Nesta
perspectiva de um mundo melhor para todos, então, pergunto: em que “lata” da
história foram defenestrados os facínoras e em que “lata” da história são
relembrados e celebrados os defensores da vida?
Tenho certo comigo,
embasado nesta forma de compreender a história, que precisamos, ao lado do povo
oprimido, continuar fazendo nossa revolução todos os dias e que a AJD será
lembrada, em futuro não muito distante, como o embrião para o nascimento do
Juiz Novo, do verdadeiro Magistrado, comprometido e envolvido com os direitos humanos,
com a ética, com a dignidade humana e com a construção de uma nova forma de
convivência humana e dos humanos com o planeta. Logo, o julgamento desta nossa
proposta e prática de magistratura, é tarefa para a história do povo oprimido.
Não é, e jamais será, portanto, tarefa para a elite dominante ou para seus bajuladores
de plantão em redações de jornais e revistas comprometidos com a mentira e
venda de ilusões.
De todos esses, exploradores
e bajuladores, a história também se incumbirá e lhes destinará a “lata” que
merecem. Como disse, não é a história morta e finda como eles apregoam, a
história dos vencedores, mas a história das ruas, das praças, favelas, do povo
oprimido, das lutas e das revoluções que acontecem a cada instante. Esta
história, como serve de testemunha o tempo, não para jamais e continuará
julgando, condenando e absolvendo. Quem viver, verá!
* Juiz de Direito (Ba),
membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD), 08.12.2011.

9 comentários:
"Bobeira é não viver a realidade": Vida longa à AJD e aos magistrados que honram a sua Toga!
@Cabe_Monteiro:
"...Vida longa a AJD..."
Abraços!
Querido Gerivaldo,
em um ano eu termino minha graduação em direito e gostaria de agradecer a você, agradecer pela demonstração de que ao contrário do que tudo nos leva a pensar o jurista pode lutar por um mundo melhor. Se eu não tivesse adentrado no movimento estudantil, no movimento social e no direito crítico posso te dizer que com certeza já teria desistido do curso. Quero agradecer a você e a todos que pensam assim por tornar o tecnicismo da faculdade algo passageiro, por terem tornado a realidade injusta do direito algo que pode ser mudado, por terem dado uma esperança a quem pensa diferente. A AJD foi pra mim um exemplo, me sinto orgulhoso ao ver juízes lutando por direitos de seu povo. O meu mais sincero agradecimento pelo exemplo e pelo acalanto. Houve um evento na minha cidade, um julgamento do Tribunal Popular, em que nós tentamos te trazer pra ser o juiz, o sr. seria padrinho dum casamento ou de um batizado na época e a sua vinda não foi possível. Espero algum dia lhe conhecer, se isso não for possível não importa, pois o exemplo já está construído! Obrigado pelo exemplo que você é pra mim e pra tantos outros!
Prezado Sr. Gerivaldo Neiva. Sou leitor tanto de seu blog, quanto do Reinaldo Azevedo. Conquanto eu tenha bons olhos para com o a AJD, entendo que o fato de ter colocado que há pessoas acima da lei, como ressaltou o próprio R. Azevedo, isto motivou o "ódio". Na verdade, nem considero ódio; considerei uma crítica ao conteúdo exposto pela AJD. Curiosamente, assim como o seu texto, o texto do Sr. Marcelo Semer, também participante da AJD, não critica o conteúdo do texto do jornalista, preferindo conjecturar acerca das razões das críticas de cunho pessoal. De qualquer sorte, talvez fosse mais interessante rebater o conteúdo do texto. Respeitosamente,
Sou ex-serventuário da justiça que foi julgado e condenado por um processo administrativo disciplinar, onde o próprio juiz fez a acusação e "pasmem" ele próprio, unilateralmente, instaurou, instruiu e julgou o processo contra a minha pesso. Pergunto - ISSO É JUSTIÇA?
COM A PALAVRA OS LEITORES.
GOSTARIA, SE POSSÍVEL, SABER A LISTA DOS ASSOCIADOS DA AJD
" e observou aos seus leitores para que tivessem cuidado com eles quando fossem os julgadores do seu caso na justiça."
O que move Reinaldo Azevedo (Abril – Veja)?
Excelência esse é o PIG (Partido da Imprensa Golpista).
Não sei se alguém se lembra dos sequestradores do Abílio Diniz, que quando presos, na noite anterior ao domingo das eleições presidenciais, foram vestidos com camisetas de um dos candidatos?
Prezado Dr. Gerivaldo Neiva. Como advogado tenho acompanhado as manifestações populares sobre o judiciário (motivadas por uma imprensa que julga sem provas). Todos sabemos que em todas as organizações humanas há mais gente séria que calhordas e com o judiciário não poderia ser diferente. Com a isenção de quem somente o conhece pelos seus textos e pela pouquíssima possibilidade de algum dia ter um caso que patrocino em suas mãos, posso dizer que o senhor é sem sombra de dúvida um exemplo de decência e caráter que honra o judiciário e que honraria qualquer outro ramo laboral deste país. Ao ler seu texto fica claro o ponto em que os detratores do judiciário encontram encontram fôlego. Assim como o presidente da associação defendida o senhor também sequer citou o texto comentado. Divagou, falou do quão lutador é pela moralidade (fato inconteste) mas fugiu de explicar o que quis dizer a AJD quando coloca juízes como seres acima da lei. Como advogado sério que sou, critico e muito uma série de atitudes do Órgão a que sou vinculado e eu poderia citar inúmeras posturas da OAB que de fato chegam a me envergonhar, por exemplo a postura da OAB no imbróglio envolvendo o CNJ e os demais Órgãos da magistratura estadual. Pirotecnia e politicalha sórdida à custa de nosso dinheiro. Por acompanhar seu blog há algum tempo, tenho para mim que o senhor também não concorda que os juízes estão acima da lei e neste ponto eu e o senhor também temos a mesma ideia, se a AJD e todos os seus membros acreditam que estão acima da lei, eu também tenho medo de ver um processo em que atue sendo conduzido por seres "especiais". Como o senhor, nem o Presidente da AJD criticaram o texto e de uma forma ou de outra tentaram desacreditar o escritor, me parece um comportamento com todo o respeito, desleal.
Vida longa ao senhor e que sua retidão de caráter possa seguir influenciando a milhares de pessoas que acreditam sim em um áis mais justo.
Prezado Dr. Gerivaldo Neiva. Como advogado tenho acompanhado as manifestações populares sobre o judiciário (motivadas por uma imprensa que julga sem provas). Todos sabemos que em todas as organizações humanas há mais gente séria que calhordas e com o judiciário não poderia ser diferente. Com a isenção de quem somente o conhece pelos seus textos e pela pouquíssima possibilidade de algum dia ter um caso que patrocino em suas mãos, posso dizer que o senhor é sem sombra de dúvida um exemplo de decência e caráter que honra o judiciário e que honraria qualquer outro ramo laboral deste país. Ao ler seu texto fica claro o ponto em que os detratores do judiciário encontram encontram fôlego. Assim como o presidente da associação defendida o senhor também sequer citou o texto comentado. Divagou, falou do quão lutador é pela moralidade (fato inconteste) mas fugiu de explicar o que quis dizer a AJD quando coloca juízes como seres acima da lei. Como advogado sério que sou, critico e muito uma série de atitudes do Órgão a que sou vinculado e eu poderia citar inúmeras posturas da OAB que de fato chegam a me envergonhar, por exemplo a postura da OAB no imbróglio envolvendo o CNJ e os demais Órgãos da magistratura estadual. Pirotecnia e politicalha sórdida à custa de nosso dinheiro. Por acompanhar seu blog há algum tempo, tenho para mim que o senhor também não concorda que os juízes estão acima da lei e neste ponto eu e o senhor também temos a mesma ideia, se a AJD e todos os seus membros acreditam que estão acima da lei, eu também tenho medo de ver um processo em que atue sendo conduzido por seres "especiais". Como o senhor, nem o Presidente da AJD criticaram o texto e de uma forma ou de outra tentaram desacreditar o escritor, me parece um comportamento com todo o respeito, desleal.
Vida longa ao senhor e que sua retidão de caráter possa seguir influenciando a milhares de pessoas que acreditam sim em um áis mais justo.
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