domingo, 20 de novembro de 2011

Também por isso preciso continuar


A Fênix preparando sua pira funerária (Hartmann Schedel, 1493)

Também por isso preciso continuar

Cláudia Gil Braz, 14.11.2011 *

Palavras que voam. Este foi o meu primeiro contato com o seu trabalho. Palavras que voam... Realmente voaram muito alto em minha imaginação as tuas palavras. Sou estudante de direito da UNEB, mas antes disso sou servidora pública há cinco anos... pouco tempo, mas suficiente para acabar com muitas das ilusões pueris que ainda possuem os meus amigos universitários acerca da justiça e de seus mecanismos.
Eu presencio diariamente a omissão estatal e a tristeza dos mais necessitados perante o balcão do cartório ao perguntarem “Ó minha fia, quando é que vai ter argum resultado aí da minha questão? Sabe o que é ...é que eu moro tão longe, não tenho a passagem pra vim aqui de novo não... me diga um dia certo pra eu resorver tudo...” Minha resposta, a mais educada que uma resposta desalentadora pode ser é.. “Bem senhora, lamentavelmente a Justiça (na verdade a estrutura judiciária bem distante da justiça!) tem prazos de lei que precisam correr... (cenho franzido da minha interlocutora!) explico melhor: temos que esperar quinze dias porque a lei diz assim, depois destes quinze dias, se o réu contestar ou não (novo cenho franzido!), se essa pessoa aqui, o José de Tal, não disser nada aqui no processo, o processo da senhora volta para o gabinete da Juíza.” “Ta minha fia, aí resorve né?” Depende do que o seu José de Tal disser... (Olhos cabisbaixos e a frase recorrente das pessoas idosas da zona rural que aqui passam diariamente): “É minha fia, capaz de eu morrer e não resorvê isso... tantos anos...” Tento consolá-la dizendo: “Tenha um pouquinho mais de paciência, a senhora já esperou tanto...” (palavras idiotas! Esse é exatamente o problema! – penso.) Já colocamos aqui a “etiquetinha” de prioridade na tramitação, pois a senhora é idosa e a lei determina que seu processo deve andar mais rápido... “É minha fia... ser veia serve pra arguma coisa... Se eu vim falar com a Juíza será que ela num adianta um pouquinho o meu caso?” Bem, a senhora pode vir sim, mas só depois dos quinze dias, porque aí a Juíza já pode fazer alguma coisa. “Tá bom intão... Deus lhe abençoe, pelo menos você me tratou bem... outro dia eu tive aqui no fóru e a mulher nem quis olhar nada e disse que não tinha nada pra mim porque eu já tinha vindo na semana passada... mas minha fia eu não tenho ninguém por mim, só Deus e Nossa Senhora, eu que tenho que vim, mesmo cansada e doente como eu tô. Não vou mais lhe impatá não. Segunda eu venho...”.
Paro e penso em dizer-lhe que na próxima segunda-feira ainda não estará fechado o dito prazo legal, mas reflito que na próxima segunda talvez seja uma segunda a menos na vida dela. Penso que seja melhor que ela venha, e até fale com a Juíza, quem sabe um tratamento digno e humano, uma palavra de esperança da autoridade competente, quem sabe isso sirva de alento e dê àquela senhora um novo sopro de vida, a esperança de uma resolução antes do inevitável de todos nós.
Foi essa realidade do meu dia a dia que veio ser atormentada por tuas palavras que voam. Depois foi “o celular do carpinteiro”, que “plagiando Herkenhoff” me mostrou as inúmeras possibilidades da “crônica de um crime anunciado”. Suas palavras me fizeram refletir. Refletir que estás fazendo a tua parte, “a parte que te cabe neste latifúndio” e eu me perguntei se tenho feito a minha... Apesar da pressão, apesar da desestruturação do judiciário baiano, apesar de todos os percalços (pessoais e profissionais).
Tuas palavras me fizeram enxergar que posso fazer mais no meu dia a dia. Que posso, por alguns minutos, esquecer os dissabores, a falta de estrutura. Eu posso... é injusta a sobrecarga de trabalho, eu sei, eu sinto... mas é muito menos injusto do que o tempo que o processo daquela pobre senhora se encontra parado no cartório aguardando a confecção de um mandado de citação... as palavras voam... aquela senhora já esperou muito, já foi até maltratada no balcão deste fórum por alguma outra servidora descontente e cansada da sobrecarga de trabalho, que não teve a menor paciência de explicar-lhe o rito processual de uma forma simples e direta. “O povo vem pra cá, sem saber de nada, a gente explica e eles entendem tudo errado. Pra isso é que tem advogado, tem que procurar o advogado.” Já ouvi uma servidora, com mais de vinte anos de casa, dizer a plenos pulmões a uma parte no cartório.
Não sei muito da vida... Mas já vivi algumas coisas e do que já vivi pude abstrair exatamente o que significam “as palavras que voam”. O que se apregoa por aí é que “o sistema é bruto”, mas não podemos deixar que a brutalidade nos atinja.
(Cláudia Gil Braz. Homenagem a  Gerivaldo Alves Neiva. Relembrando-nos. Abraços.

* Copiado do perfil da autora no Face Book.




4 comentários:

Educandario Divino Mestre disse...

O texto, certamente, retrata o sentimento de muitos servidores, que como eu, não se deixam dobrar pelo "sistema" e lutam pela humanização do atendimento e contaram com a generosidade e a sabedoria de magistrados como Dr. Gerivaldo, puderam ensinar a diferença entre o Direito e a Justiça.
Grande Abraço.

Luciano Almeida
Digitador do JEC Conceição do Coité

Livia disse...

Estas palavras e as de Luciano Almeida me fazem ter fé que amanhã será melhor. Felizmente existem pessoas capazes de atender ao outro de forma digna e respeitosa ainda que, talvez, não lhes possa solucionar o problema. Basta o compromisso e o respeito pela situação do outro. E isso também vem do lar.

Rogério Lima disse...

Prezados Gerivaldo e Cláudia Gil.


Peço licença para reproduzir o profundo texto da servidora Cláudia Gil, no programa de rádio Conexão Verdade da Diamantina fm 95.5, de Itaberaba. Informativo do qual sou editorialista. Requeiro autorização para a reprodução IPSI LITERIS, mas, na interpretação de pessoa do teatro de nossa cidade. Caso recebamos por esta via ou pelo e-mail: rg2109@bol.com.br, autorização da autora e postador deste importante testemunho, levaremos ao ar nesta próxima quarta feira, em nosso quadro semanal DIREITO EM FOCO, com o advogado José Antonio Sampaio.

Oportono reiterar forças provenientes do céu para o obre educador e magistrado, Gerivaldo Neiva.

Rogério Lima. 09/11/2011

Joao Sérgio disse...

Dr. Gerivaldo, que bom tê-lo de volta ao blog. Os homens de bem que se preocupam e dão celeridade à Justiça, como o Senhor, precisam "sempre continuar".
Muita Paz.

João Sérgio
Oficial de justiça