Mutirão Carcerário libertou mais de 21 mil pessoas em dois anos
Em 2010 e 2011, o programa Mutirão
Carcerário, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), permitiu a libertação de 21
mil pessoas que estavam presas irregularmente no sistema prisional brasileiro.
Nesse período, as equipes do programa revisaram 279 mil processos criminais e
inspecionaram presídios, cadeias públicas e delegacias de 24 estados e do
Distrito Federal. Atualmente, estão em curso mutirões carcerários em três
estados: São Paulo, onde foram analisados até agora 60,5 mil processos; Rio de
Janeiro, com análise de 13,9 mil processos; e Bahia, com pouco mais de 7 mil
processos revistos. (Veja aqui relatórios dos mutirões nos estados).
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Além das libertações, as equipes dos
mutirões do CNJ concederam nos dois últimos anos 41,1 mil benefícios, como
progressões de penas e de regimes prisionais e também livramentos condicionais.
“Não conheço nada análogo no mundo, como esse programa, que tenha resultado na
reparação de tantas situações ilegais”, afirmou, em entrevista coletiva, o
presidente do CNJ e do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Cezar Peluso.
Criado em 2008, o programa Mutirão
Carcerário do CNJ realiza diagnósticos do sistema de justiça criminal
brasileiro e hoje é reconhecido não só como uma política de segurança pública,
mas também como um programa de direitos humanos. Os mutirões identificam
problemas que vão além da falta de controle das penas, tais como superlotação
das estruturas prisionais, situações de tortura, péssimas condições de higiene
e precariedade física das instalações. Outra questão é a falta de acesso dos
presos ao trabalho ou aos estudos, fatores fundamentais para a ressocialização
dos apenados. Em toda a população carcerária menos de 14% trabalham e apenas 8%
estudam. (Clique aqui para ver resultados por estados)
Nesses dois anos, o programa
mobilizou 246 servidores e magistrados que realizaram aproximadamente 900
viagens pelos estados brasileiros. O total de despesas com os deslocamentos,
nesse período, foi de R$ 3,2 milhões.
Situações críticas – Do total de quase 475 mil detentos
existentes em todo o País, 43% são presos provisórios, sem condenação pela
Justiça. O déficit estimado de vagas nos estabelecimentos prisionais é de 147
mil. Em decorrência da superlotação, as equipes dos mutirões encontraram
situações críticas. No Mato Grosso, por exemplo, que teve o último mutirão realizado
entre novembro e dezembro de 2010, há estabelecimentos prisionais em que chegam
a existir mais de três presos por vaga. Em Cuiabá, na Penitenciária Central do
Estado e no Centro de Ressocialização, ainda existem “unidades contêineres”:
celas prisionais feitas em aço adaptadas para acomodar detentos. Presos
relataram as horríveis condições a que foram submetidos, pois toda a iluminação
interna é artificial e a ventilação ocorre por meio de gradeados na parte
superior da estrutura. Durante o verão, o calor nos locais é insuportável e, no
inverno, a situação se inverte, com frio intolerável.
Na Paraíba, onde as prisões foram
inspecionadas entre janeiro e fevereiro de 2011, falhas graves das Varas de
Execução Penal na verificação do cumprimento de penas fizeram inúmeros presos
superarem seus períodos de condenação. No município de Pitões, por exemplo, uma
pessoa condenada a três anos e dez meses foi libertada pelo mutirão depois de
passar mais de sete anos na cadeia. Constatou-se também que na Paraíba o
controle final das penas fica, muitas vezes, a cargo dos familiares dos presos.
Os mutirões também se deparam com
casos de torturas nos presídios visitados, como ocorreu na Bahia, em que os
relatórios foram encaminhados ao Ministério público estadual para que sejam
apresentadas denúncias formais. Ainda na Bahia, onde segue em andamento o
mutirão, as primeiras inspeções revelaram total falta de atendimento médico aos
apenados, problemas sérios de falta de higiene e de espaço. Na Penitenciária
Lemos de Brito, em Salvador, foi encontrado um preso com perna gangrenada por
causa de uma ferida aberta e sem tratamento.
No sistema de carcerário de
Pernambuco, que recebeu o mutirão de agosto a novembro deste ano, situações
absurdas foram identificadas. No Presídio Aníbal Bruno, em Recife, detentos
mantêm as chaves das celas e controlam a circulação das pessoas entre os
recintos. As instalações do Presídio foram comparadas a uma “cidade medieval”
por um dos magistrados que inspecionou o local devido ao ambiente fétido, úmido
e insalubre. O Aníbal Bruno tem cerca de 4,9 mil presidiários, mas sua
capacidade é de apenas 1,4 mil.
De fevereiro a março deste ano, as
visitas ao Ceará levaram o CNJ acionar a Corregedoria Nacional de Justiça para
a realização de inspeção mais detalhada nas Varas de Execução Penal de
Fortaleza. A medida decorreu do percentual elevado – quase 20% – de solturas
realizadas no mutirão frente ao número de processos analisados. Situações
igualmente críticas, do ponto de vista do sistema processual, foram constatadas
em estados como Paraná, Santa Catarina e Goiás, em que não funcionam a contento
as defensorias públicas.
Medidas – O trabalho dos mutirões é
concluído com a elaboração de relatórios detalhados sobre o que foi visto, com
sugestões de medidas para o aperfeiçoamento do sistema e alertas aos Poderes
Executivo e Legislativo estaduais. Em 2009, as inspeções do CNJ constataram
péssimas condições do sistema prisional no Espírito Santo, inclusive a
utilização de celas metálicas (contêineres) para abrigar detentos. Após assinar
termo de cooperação com o Conselho naquele ano, o governo capixaba iniciou a
desativação desses pavilhões metálicos, realizou concurso para contratação de
agentes e investiu na criação de novas vagas em centros de detenção do estado.
Em complemento às ações do programa
Mutirão Carcerário, cujo propósito é fiscalizar o funcionamento integral do
sistema carcerário, a partir de janeiro de 2012 estará disponível na internet o
Banco Nacional de Mandados de Prisão, que vai uniformizar as informações
nacionais sobre mandados de prisão emitidos e não cumpridos, permitindo maior
controle sobre quem deveria estar cumprindo pena e não está. O banco, que será
alimentado pelos juízes que expediram os documentos, conterá o número dos mandados,
o nome, a qualificação do procurado e sua fotografia, entre outros dados. O
instrumento foi criado pela Resolução 137 do CNJ, em julho deste ano, em
atendimento à lei 12.403, de maio de 2011, que alterou o Código de Processo
Penal.
Isabel Sobral
Agência CNJ de Notícias, 25.11.2011

1 comentários:
Eu e minha mãe assistimos chocados as fotografias das situações desumanas do sistema carcerário brasileiro. É muito triste.
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