domingo, 21 de agosto de 2011

Uma tragédia no domingo no parque



O Direito destrói o lirismo das tragédias

Gerivaldo Neiva, 28.09.2010

Em um parque de diversões, o feirante José matou a facadas seu amigo João, pedreiro, e sua própria namorada, Juliana, movido pelo ciúme. Teria cometido, portanto, homicídio duplamente qualificado (motivo fútil e recurso que impossibilitou ou dificultou a defesa) e deverá submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri.
Para as manchetes dos jornais populares, inquéritos policiais e Ações Penais, a notícia seria assim mesmo. Um homicídio, apenas. José, até então um feirante “rei da brincadeira”, tornou-se um assassino frio e calculista e deve “apodrecer” na cadeia. As famílias das vítimas concedem entrevistas clamando por “justiça” e confeccionam cartazes e camisas com as fotografias das vítimas.
Para o lirismo da poesia de Gilberto Gil, no entanto, o “rei da brincadeira”, José, depois de trabalhar durante a semana, guardou a barraca de feirante e, como sempre o fazia aos domingos, foi passear no parque. De outro lado, o amigo João, o “rei da confusão”, trabalhador da construção, resolveu não jogar capoeira naquele final de semana e também foi ao parque.
A decepção de José ao avistar Juliana, sua namorada, com João, só poderia mesmo ser descrita por um poeta. Juliana na roda gigante com João tinha um sorvete e uma rosa na mão. O espinho da rosa feriu José e o sorvete gelou seu coração, ou seja, sangrava o corpo tinha o coração gelado. Agora não existia mais razão. Impossível raciocinar, pensar. A roda continuava girando e José agora é parte deste turbilhão. O morango do sorvete se transforma em sangue e a cabeça de José é uma roda gigante por onde se desfaz seu sonho de uma família com Juliana. Seu sonho, agora uma ilusão.
José não se lembra de nada e nem poderia lembrar. Estava sem razão. Era pura emoção, revolta e decepção. O corte brusco na narrativa poética quer dizer exatamente isto. José só se lembra da roda gigante rodando e Juliana com João. Não se lembra mais de nada. De repente, a faca, o sangue e dois corpos no chão.
Por fim, amanhã não tem mais feira para José armar sua barraca, nem a capoeira de João e nem a beleza de Juliana. A tragédia destruiu três vidas. Não tem mais a alegria e balbúrdia da feira e nem o progresso representado pela construção. Nem brincadeira e nem confusão.
O lirismo da tragédia, porém, não tem qualquer importância quando o Direito é entendido apenas como a Lei Penal. Um homicídio é apenas um homicídio. Pode ser simples, privilegiado, qualificado, culposo, doloso... mas será sempre um homicídio e basta.
Haverá um tempo, no entanto, que o lirismo das tragédias deverá ser mais importante do que o Direito. Não sei quando ainda. Talvez, quando o Direito estiver mais nas ruas e nos fatos sociais do que nos velhos manuais, nos códigos e nas leis.
 
Domingo no Parque
Gilberto Gil

O rei da brincadeira
Ê, José!
O rei da confusão
Ê, João!
Um trabalhava na feira
Ê, José!
Outro na construção
Ê, João!...

A semana passada
No fim da semana
João resolveu não brigar
No domingo de tarde
Saiu apressado
E não foi prá Ribeira jogar
Capoeira!
Não foi prá lá
Pra Ribeira, foi namorar...

O José como sempre
No fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo
Um passeio no parque
Lá perto da Boca do Rio...

Foi no parque
Que ele avistou
Juliana
Foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
Juliana seu sonho, uma ilusão
Juliana e o amigo João...

O espinho da rosa feriu Zé
(Feriu Zé!) (Feriu Zé!)
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa
Ô, José!
A rosa e o sorvete
Ô, José!
Foi dançando no peito
Ô, José!
Do José brincalhão
Ô, José!...

O sorvete e a rosa
Ô, José!
A rosa e o sorvete
Ô, José!
Oi girando na mente
Ô, José!
Do José brincalhão
Ô, José!...

Juliana girando
Oi girando!
Oi, na roda gigante
Oi, girando!
Oi, na roda gigante
Oi, girando!
O amigo João (João)...

O sorvete é morango
É vermelho!
Oi, girando e a rosa
É vermelha!
Oi girando, girando
É vermelha!
Oi, girando, girando...

Olha a faca! (Olha a faca!)
Olha o sangue na mão
Ê, José!
Juliana no chão
Ê, José!
Outro corpo caído
Ê, José!
Seu amigo João
Ê, José!...

Amanhã não tem feira
Ê, José!
Não tem mais construção
Ê, João!
Não tem mais brincadeira
Ê, José!
Não tem mais confusão
Ê, João!...

Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!
Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!
Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!
Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!
Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!...


2 comentários:

Helio disse...

Enquanto isso...
O fim... de semana

Somente este ano, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), usou duas vezes um helicóptero da Polícia Militar do Maranhão para passear em sua ilha. A aeronave foi adquirida no ano passado para combater o crime e socorrer emergências médicas. Foi paga com recursos do governo estadual e do Ministério da Justiça e custou R$ 16,5 milhões. Numa das viagens até a ilha de Curupu, onde tem uma casa, o senador foi acompanhado de um empresário com contratos milionários no Maranhão, Estado governado por sua filha Roseana Sarney (PMDB).No fim do passeio, o desembarque das bagagens de Sarney atrasou o atendimento de um homem com traumatismo craniano e clavícula quebrada que fora socorrido pela PM e chegara em outro helicóptero antes de Sarney. O deputado federal José Vieira (PR-MA) repassou R$ 560 mil da verba de custeio de atividade parlamentar a uma empresa-fantasma. Durante dois anos, Vieira, que tem avião próprio, simulou despesas com afretamento de aeronaves para seus deslocamentos no Maranhão.Os pagamentos foram feitos à Discovery Transporte e Logística, uma suposta empresa de táxi aéreo que só existe no papel. Seis meses depois de mudar sua destinação, o Instituto para a Preservação do Meio Ambiente e Promoção do Desenvolvimento Sustentável, uma ONG de Sergipe especializada em assuntos rurais, obteve contrato de R$ 8 milhões do Ministério do Turismo para qualificar 18 mil cozinheiros, garçons, taxistas e outros profissionais do turismo. O projeto foi aprovado menos de sete horas após o início da sua análise. Sem matricular ninguém, a ONG já recebeu R$ 3 milhões. A situação dos irmãos Paulo Sérgio Costa Pinto Cavalcanti e Ismael César Cavalcanti Neto, donos da Sasil e da Triflex, complicou-se ainda mais depois da série de depoimentos colhidos pela Polícia Federal desde o início da Operação Alquimia. Pelo menos 12 investigados confessaram ter participado de fraudes fiscais em empresas dos dois irmãos. O grupo é acusado de sonegar pouco mais de R$ 1 bilhão.

Imeicosan Verdf disse...

Bravo!