quarta-feira, 15 de junho de 2011

O judiciário como empresa e cliente de TI: alimentando monstro?

 Chaplin, em Tempos Modernos
O judiciário como empresa e cliente de TI[1]: alimentando monstro?

Gerivaldo Neiva, Juiz de Direito, membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD), 15.06.2011.

O Tribunal de Justiça apresentou aos juízes baianos, na última sexta-feira (10/06), o Sistema de Automação da Justiça (SAJ). Trata-se de um sistema desenvolvido pela empresa Softplan e adquirido pelo TJBa, com dispensa de licitação (Declaração de Inexigibilidade de Licitação nº. 18/11, publicada no Diário do Poder Judiciário de 18 de março de 2011), pelo “valor global estimado de R$ 39.082.000,00”, incluindo a implantação e suporte, conforme Instrumento de Contrato n° 17/11-S, publicado no Diário do Poder Judiciário de 06 de abril de 2011.
Segundo informações da Softplan, este sistema já está implantado em oito estados do país, representando mais de 60% dos processos que tramitam na justiça comum, em mais de 500 comarcas. Garante ainda a Softplan: 70% mais agilidade na tramitação de processos digitais em relação aos tradicionais, 90% de redução no tempo de atendimento a advogados e partes e 98% de redução no tempo de ajuizamento de processos de execução fiscal em meio eletrônico. Clique aqui para visitar o site da Softplan e conhecer mais sobre o SAJ.
Além do SAJ, a Softplan também oferece soluções para outros ramos, a saber: Solar – solução integrada para gestão pública; Sienge – o software para a indústria de construção; Sider – solução integrada para gestão de departamentos de infraestrutura, transportes e obras; SAFF – solução para administração física, financeira e contábil de programas cofinanciados por organismos internacionais. Assim, para a Softplan, as soluções se misturam (justiça, gestão pública, construção civil, transportes, obras, administração, contabilidade...) e o Poder Judiciário é apenas mais um cliente em TI.
Não tenho a menor dúvida da necessidade modernização do Poder Judiciário e informatização do sistema de gerenciamento e acompanhamento dos processos. Em que pese esta certeza, tenho comigo ainda algumas questões não resolvidas sobre isto.
- O judiciário baiano, sem licitação e por mais de 39 milhões de reais, tornou-se cliente de uma empresa que já “gerencia” mais de 60% dos processos judiciais do país;
- O sistema prevê a eficiência e rapidez na solução dos litígios como se este “meio” (eficiência e rapidez) fosse o “fim” da justiça;
- Por ser tão eficiente e rápido, o sistema necessita cada vez mais de litígios para serem “operacionalizados”, sob pena de inviabilizar a aferição de sua eficiência;
- De tão eficiente, o sistema é o protagonista do andamento do processo, sujeitando aos seus caprichos o Juiz e o Processo Civil;
- Definitivamente, o Juiz e os servidores do Poder passam da condição de “operadores” do Direito (nomenclatura já questionada) para operadores do sistema de automação judicial. (uma sugestão de sigla: OSAJ);
- Mediação de conflitos e Justiça Restaurativa não interessam ao sistema, pois seu alimento principal é o litígio;
- Para o sistema, portanto, interessa maior número de litígios resolvidos (?) e o surgimento de outros litígios de decorrentes da resolução (?) do primeiro;
- Para se adequarem, os escritórios de advocacia necessitam também de investimentos em TI, equipamentos e qualificação de seus funcionários. Neste caminhar, não vai demorar e também as faculdades de Direito terão disciplina específica em TI e Judiciário ou como se tornar um bom OSAJ;
- Por fim, a quem interessa transformar o judiciário em máquina de operacionalizar litígios e quanto custa mediar conflitos e quanto custa solucionar litígios decorrentes desses conflitos não mediados?
Com tenho dito, o normativismo tomou as ruas e engoliu o Direito, sobrevivendo da crescente judicialização dos conflitos e sua transformação em litígios. Este fato, de sua vez, tem agravado sobremaneira as relações pessoais, sociais e institucionais com a falta de espaços de medição desses conflitos. Assim, não se dialoga mais em família ou com vizinhos, pois tudo será remetido à apreciação do Juiz, cuja mesa está se transformando em um imenso divã dos conflitos da sociedade em crise.
Ora, pensar em solução que possibilite cada vez mais a absorção dos litígios pelo judiciário, sem risco de implodir, ao invés de favorecer a mediação do conflito que o antecede, interessa a quem? Será que não estamos alimentando um monstro que necessita exatamente de litígios para sobreviver? E, por fim, até quando a sociedade, antes de se autodestruir, terá condições de gerar litígios para este monstro?
Sendo otimista e acreditando apenas na otimização do trabalho com os recursos tecnológicos, lembrando do “Direito à Preguiça”, de Paul Lafargue, se este sistema não me tornar seu escravo e OSAJ, talvez sobre um tempo, depois de “operacionalizar” os processos da Vara, para ser Magistrado de verdade.


[1] No jargão informatiquês: Tecnologia da Informação. Na enciclopédia Wikipédia: “A Tecnologia da Informação (TI) pode ser definida como um conjunto de todas as atividades e soluções providas por recursos de computação. Na verdade, as aplicações para TI são tantas - estão ligadas às mais diversas áreas - que existem várias definições e nenhuma consegue determiná-la por completo”.


4 comentários:

Carlo Giovanni Lapolli disse...

Dr. Gerivaldo,

A primeira vista, pode parecer que o sistema judicial é um fim em si próprio. Aqui em Santa Catarina, onde este mesmo sistema está implantado há mais de 10 anos (acredito que nosso TJ foi o piloto deles) as condições para advogar são facilitadas sobremaneira.
Eu sempre digo aos colegas que reclamam por aqui, que os advogados de SC estão mal acostumados. Utilizar o SAJ nos poupa tempo e ganhamos muito em agilidade. Quando advogo fora de SC, fico perplexo pelo sistemas a moda antiga que ainda rodam por ai.
Não tema o novo. Posso garantir que o senhor irá se adaptar a usar o sistema rapidamente.

Parabéns pelo blog!

Anônimo disse...

Boa tarde Dr.!

Todo sistema informatizado necessita de alguns investimentos em conhecimento em informática para que sejam, da melhor forma, operados! Visto que este investimento é inicial, ele normalmente não se propaga ao longo de toda a vida, pois a partir do momento que um usuário passa a dominar um ambiente informatizado, ele permanecerá o utilizando da melhor forma possível, com ótimos ganhos em conforto e produtividade nas operações do dia a dia, inclusive dando sugestões para possíveis, e sempre bem vindas, mudanças, que ao longo do tempo, vão melhorando cada vez mais o processo administrativo e de gestão, seja ele qual for, seja qual for a área.

Aproveito a oportunidade para dizer que a TI sempre estará trabalhando para dar mais conforto e fluidez às nossas atividades, poupando-nos muito trabalho, que a cada dia, estão mais complexos e difíceis de serem gerenciados.

Outro ponto importante a ser lembrado, é que a TI conta com a vantagem de estar sempre aberta a mudanças, melhorias, ajustes, enfim, tudo o que for necessário para melhor atender a todos nós. A tendência é que todo sistema melhore mais a cada dia, sempre buscando atender cada vez melhor aos seus usuários.

Tenho a certeza de que a TI em qualquer situação estará ansiosa para melhor lhes atender, e com o tempo, ela se adapta e se ajusta para melhor atender sempre!

Um abraço!

Edson Junio
Analista de Sistemas Sênior

APRS disse...

Ahh...Sim.

Pode ter certeza, os juízes, advogados e servidores caminham rumo à escravidão e dependência do sistema...(já pensou em caso de vírus, perder o processo digital inteiro?...ou quando esse estiver muito lerdo porque não tem mais espaço na memória?...Sei lá...)

Ou não. Pode ser que melhore mesmo. Até se adaptar, vai ter uns transtornos.

Por exemplo, qdo vc querer ver melhor uns documentos na audiência...O seu auxiliar vai abrir o documento na tela do pc de ponta cabeça, vc vai dizer...tente ajustar a imagem...Ele vai tentar, não vai conseguir...Aí vc vai pedir para imprimir os documentos...Aí nessa lá se foram 15 minutos...rsrsrsrsrsrs...

Coisas assim vão acontecer no início.

Gosto muito mais do processo de papel...

Até + e boa sorte!

Proto-Jurista Jundiaiense disse...

Olha Doutor, sou frequentador assíduo deste blog e fã de suas posições sempre bem fundamentadas e justas mas, desta vez, ouso discrepar, pelo menos neste sentido, pois acredito que finalmente o judiciário brasileiro está se modernizando.

Em tese, ou seja, "no papel" (trocadilhos à parte), os magistrados e servidores dos fóruns seriam suficientes a dar conta e promover um andamento de velocidade razoável nos processos. Todavia, isto verificou-se impraticável, pois como tu mesmo disse: "O Judiciário está se tornando um divã da Sociedade", e isto não se discute. Todo e qualquer problema é levado ao juiz, congestionando a máquina (isto sem falar nas milhões de ações imoderadas movidas pelo próprio Estado, maior cliente do psicólogo-público, nas outras milhões de ações por culpa da telefonia e serviços bancários, etc).

Esta sobrecarga processual não era prevista e fez com que os servidores não dessem mais conta dos trabalhos, o que fazer então? A solução é lógica: Abrir mais vagas, mais varas, mais concursos, mais funcionários públicos. Com que dinheiro?! Não há como.

Neste momento, surge a indagação acerca da tecnologia. Ora, se o próprio juiz já se adequou às modernidades da sociedade, deixando de escrever colunas em jornais para escrever blogs na internet, que são mais práticos e eficazes, diga-se de passagem, porque insistir no método milenar de processo-papelada? Como admitir e respeitar método de processo que encerra uma prateleira inteira com os 30 volumes de papéis velhos e podres de uma única ação penal ou falência?!

Hoje, não ter um email é igual não ter endereço físico: Você acaba sendo isolado do restante da sociedade.

O processo-papel, além de contribuir com gastos ambientais gigantescos (papel = árvore - lembrando que muitos estados, por suas corregedorias, proíbem, via norma interna, a utilização de papel reciclado nas repartições públicas, devendo toda folha ser branca, a4, sulfite, etc - é o caso do Estado de SP), contribui também com a lotação do espaço físico das repartições, atrai pestes, origina gastos infinitos (pois sempre o órgão precisará comprar mais papel, mais clipes, mais grampos, mais cordas, mais carimbos, mais canetas, caixas, arquivos, impressoras, tinta, etc).

Os juízes e os servidores, hoje em dia, além dos advogados, JÁ SÃO OPERADORES DA PAPELADA, infelizmente. Devem saber como autuar, como manejar o processo, como e onde escrever, como fazer carga (diga-se, inclusive, que a própria "carga" do processo é uma ofensa ao princípio da publicidade, pois enquanto fora do cartório, os autos dos processos não são apreciáveis ao público), etc...

Enfim, há um sem-número de problemas que são consequentes do processo-papel, mas com o passar dos séculos, acabamos acostumando com eles e nos adaptando, ao ponto de ignorar os detalhes que apontei, dentre outros.

Agora cabe a nós desenvolver esta evolução, que vai sim agilizar o trâmite (mesmo com os inúmeros problemas que surgirão no início). Talvez após a implantação nacional do processo eletrônico o princípio da celeridade processual possa depender dos seus verdadeiros responsáveis, os serventuários da justiça e sua vontade de trabalhar, e não mais de sua capacidade de dar conta das toneladas físicas de informações, de achar processos perdidos em meio à selva de papel, de furar folhas e autuá-las o mais rápido que puderem, etc.