Em uma das minhas visitas ao Projeto Santo Antônio de Música
As pessoas que acompanham este blog já sabem da minha paixão pela Orquestra do Projeto Santo Antônio de Música, inclusive com a promoção de um concerto no Salão do Júri do Fórum de Coité. (clique aqui para relembrar).
Em 05 de agosto de 2009, publiquei aqui no blog (clique aqui para relembrar) sobre o Projeto: “Um dia, quem sabe, as crianças do Alto da Colina estarão se apresentado para o Brasil e um deles, ou vários, tocando em uma grande orquestra. Sonhar não custa nada!”
Este sonho está começando a se tornar realidade. No último domingo, o Jornal A Tarde publicou uma ampla reportagem sobre o Projeto Santo Antônio de Música.
Com esta notícia, estou me despedindo d@s amig@s para uma breve pausa e prometendo retornar depois de merecidas férias.
Eis a reportagem:
ORQUESTRA DE CRIANÇAS CARENTES TOCA CLÁSSICOS NO SEMIÁRIDO DA BAHIA
Conceição do Coité – Projeto social atende 90 meninos, mas precisa de instrumentos e mais espaço
Jornal A Tarde – 26.12.2010
Texto: Glauco Wanderley – Fotos: Reginaldo Pereira
Em pleno semiárido baiano, em Conceição do Coité, a 200 quilômetros de Salvador, os músicos tocam Asa Branca, clássico de Luiz Gonzaga. Mas no lugar de sanfona, triângulo e zabumba, o som vem de violinos, violas, violoncelos e flautas. Ao invés do costumeiro cenário com um trio de forrozeiros idosos tentando manter viva uma tradição, o palco abriga 40 crianças e adolescentes vestidos em traje de gala, obedecendo aos comandos de um maestro.
A cena que há pouco tempo seria impensável, em três anos de existência da Orquestra Santo Antônio, se tornou comum. Em meados de dezembro, o grupo superou 40 apresentações. Os meninos e meninas do projeto musical e social descobriram “ontem” a música. Hoje grande parte deles sonha tocar profissionalmente numa orquestra.
A criadora e coordenadora, Maria Valdete Santos, espera no mínimo dobrar o número de integrantes, para formar um conjunto com dimensões oficiais. A orquestra surgiu da paixão de Valdete pela música erudita e tomou forma graças a uma feijoada. O prato tipicamente brasileiro, saboreado nos Estados Unidos, é o cardápio de um almoço anual que garantiu o dinheiro para o pontapé inicial.
O irmão de Valdete, Antônio Ferreira da Silva, é padre na paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Nova York. Ele abraçou a causa e promoveu a primeira feijoada, em 2007. Os 3.500 dólares arrecadados na venda do almoço se transformaram em 15 violinos e 30 flautas doces. 20 crianças começaram as aulas.
Hoje são 90, divididas em quatro turmas, com alunos a partir de 7 anos. Apenas 90 porque não há professores, instrumentos nem espaço para abrigar o restante que também queria participar.
ENSAIOS
Aulas e ensaios ocorrem na capela particular construída no terreno da casa de Valdete, no bairro Alto da Colina. Os estudantes são do próprio bairro e dos vizinhos Mansão e Açudinho, na periferia da cidade. “Grande parte dos alunos são carentes, mas felizmente aqui não temos problemas com drogas e insegurança”, afirma a criadora do projeto.
O único professor é também o maestro, Josevaldo de Almeida Silva, autodidata em busca de uma formação profissional em música, para melhorar a qualidade do ensinamento transmitido aos meninos. “Comecei a tocar violão em grupo de jovens na igreja. Quando ouvi um violino pela primeira vez, em um casamento, tocado por um membro da Orquestra Neojibá [Núcleo de Orquestras Juvenis da Bahia, com sede em Salvador] me apaixonei. Comprei um e fui sozinho tentar aprender, porque não tinha quem ensinasse”, recorda o maestro.
SEM PROFESSORES, ALUNOS PASSAM A ATUAR COMO MONITORES
Faltam professores, mas a orquestra Santo Antônio já tem os primeiros monitores. São os próprios músicos adolescentes que avançaram mais no aprendizado. Como os violoncelistas Letícia, 12 anos e André, 13 e Isabela, 17, que se dedica à viola, comumente confundida com o violino.
André gostou de cara do violoncelo. Aprendeu depressa e no mesmo ano em que entrou já ensina. Letícia descobriu o instrumento graças à boa vontade. “Ninguém queria o violoncelo e eu fui pra ajudar. Hoje eu gosto mais do que do violino”, assegura.
O apego só não é maior que o de Isabela pela viola. “Gosto muito, muito, muito”. Tanto que se zanga quando o repórter pergunta se o instrumento incomum atrai pretendentes. “Não procuro namorado. É perda de tempo”, decreta.
MOTIVAÇÃO
A motivação das crianças impressiona. Um exemplo é a pequena Micaele, 10 anos, que brigou para tocar o instrumento de sua preferência. Todos os iniciantes começam a formação musical com a flauta doce. Muitos sonham em mudar para a flauta transversal. É difícil, porque o preço impede que o projeto compre muitas.
A flauta que custa R$ 700 no Brasil é vendida por 150 dólares nos Estados Unidos, mas a importação não é uma saída, porque encarece o produto. Pela insistência de Micaele em mudar de flauta, Valdete disse que aceitava se ela aprendesse três músicas em uma semana, sem ninguém ensinar. Ela aprendeu, ganhou a promoção e até demonstrou para a reportagem uma das melodias do teste. “O som da transversal é mais bonito”, diz.
PROJETO PRECISA DE APOIO PARA AMPLIAR NÚMERO DE INTEGRANTES
A orquestra tem um repertório de 30 músicas, conforme o maestro Josevaldo. Nele misturam-se composições clássicas e populares, entre estas algumas tipicamente nordestinas. No período atual, canções natalinas entram no cardápio musical.
A orquestra Santo Antônio atualmente até recusa convites para apresentações, porque as solicitações aumentaram muito e é preciso dedicar tempo aos ensaios e aprendizagem. Começou a cobrar pelas apresentações, mas o dinheiro não chega a cobrir os custos. “As cordas dos instrumentos precisam ser importadas. Por semana quebram pelo menos 10”, justifica Maria Valdete. Santos, coordenadora do projeto.
Para expandir o projeto, em qualidade artística (com um professor por instrumento, por exemplo) e quantidade de crianças atendidas, a direção tenta obter patrocínios em editais públicos de apoio à cultura, mas até o momento não obteve sucesso. A prefeitura assumiu o pagamento do maestro Josevaldo e além da feijoada anual em Nova Iorque, pessoas da comunidade, sensibilizadas com a beleza e importância social da iniciativa fazem contribuições.
A instituição mantém conta no banco cooperativo Sicoob, por onde também podem ser feitas doações, para a agência 3017, conta 15509-8.
Reportagem da TV Subaé, afiliada da Rede Globo, de Feira de Santana - Ba.
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