Certa vez, um Delegado de Polícia teve a audácia de me confessar que para elucidar alguns crimes se via obrigado a “apertar” um pouco os acusados no momento do interrogatório. Perguntei-lhe o que significava esse “aperto” e depois de muita embromação entendi que se tratava mesmo de verdadeira tortura física e psicológica, sob o falso argumento de que, em benefício da “ordem pública”, os meios justificavam os fins.
Mais recentemente, ouvi esse mesmo argumento com relação à gravação de conversas entre advogados e seus clientes na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS). Antes disso, o mesmo argumento também foi usado para justificar as Portarias baixadas por Juízes da Infância e Adolescência disciplinando o “toque de recolher” em suas Comarcas.
Agora, novamente para o bem do “interesse público”, o Congresso Nacional aprovou a chamada “Lei ficha limpa” e o Tribunal Superior Eleitoral respondeu consulta no sentido de que a citada lei vale para as eleições deste ano; que alcançará todos os candidatos que tiverem condenação em órgão colegiado antes da sanção da lei, bem como alcançará os processos em tramitação, os já julgados ou aqueles aos quais ainda cabe recurso. O relator foi acompanhado por cinco dos sete ministros. Apenas Marco Aurélio Mello ficou contra.
Assim, conquistas históricas da humanidade e inscritas na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no Pacto de San José da Costa Rica e na nossa Constituição de 1988 são “relativizadas” em nome de um inexplicável “interesse público” como se houvesse interesse público maior do que garantir essas conquistas históricas.
Depois disso, parafraseando a obra de Marcos Caruso, pensei comigo mesmo: “é verdade: trair, coçar e violar a Constituição é só começar!”
“Trair e coçar é só começar”, aliás, é o título de uma peça teatral brasileira (adaptada para o cinema em 2006) considerada um dos maiores sucessos de público no Brasil. Encenada desde 1986, é a peça teatral há mais tempo em cartaz em todos os tempos, o que lhe valeu quatro menções no Guiness, o livro dos recordes mundiais.
Tomara que as violações à Constituição neste país não tenham tanto sucesso quanto a peça de Marcos Caruso!

6 comentários:
Muito bom o texto. É impressionante como nos dias de hoje há uma busca meio que incessante por exceções ou situações não expressamente contempladas na Constituição/Lei para viabilizar arbitrariedades desse jaez contra algumas das conquistas históricas da civilização que, entre outras coisas, são verdadeiros pilares do Estado Democrático de Direito.
Mas Doutor??
Onde está escrito que essas "conquistas" históricas são realmente conquistas sociais? No livro de História? Este mesmo que conta que Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil?
Como seria uma Constituição e um livro de História escrito pelos perdedores, pelo povo pobre brasileiro?
Relativizadoramente,
Tiago_Pedreira
Muito bom o texto. É impressionante como nos dias de hoje há uma busca meio que incessante por exceções ou situações não expressamente contempladas na Constituição/Lei para viabilizar arbitrariedades desse jaez contra algumas das conquistas históricas da civilização que, entre outras coisas, são verdadeiros pilares do Estado Democrático de Direito.
Dr. Gerivaldo, muito bom dia. Escrevi – tentei – sobre o assunto mais bem longe da maestria com a qual o Dr. escreveu. Na verdade trata-se de um comentário de um eterno aprendiz e que se sente sorumbático com certas coisas (atitudes) daqueles que deveriam dar exemplo. Gostaria que se possível o Dr. desse uma lida.
http://nilton-cezar.blogspot.com/2010/07/exercicio.html
Um forte abraço!
Tomara mesmo Gerivaldo. Começa mais uma nova corrida eleitoral. Agora vai se expor de fichas que supostamente alguém deva levantar contra um candidato opositor. Como diz o jornalista José Simão, "o Brasil é um país da piada pronta". Infelizmente vou acabar rindo muito nestas eleições.
Parafraseando Boris:
Isso é uma vergonha!
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