quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os loucos e insensatos do MST estão em marcha


Os loucos e insensatos do MST estão em marcha
Gerivaldo Alves Neiva*
Trafegava ontem (22.04) pela BR 324 (Salvador - Feira de Santana) e vi a marcha do MST pela rodovia. Saíram de Feira de Santana e a previsão de chegada a Salvador é na segunda-feira (26.04). São mais de 100 km de caminhada.  Fala-se em 5 mil ou 6 mil participantes. Vi muitos jovens e mulheres participando da marcha.
Segunda a imprensa local, “a manifestação tem como objetivos cobrar mais agilidade na reforma agrária no País e cobrar do governo a realização de obras negociadas em manifestações anteriores, como a construção de casas e escolas em 120 assentamentos no Estado. A marcha também tem o caráter de protesto contra a criminalização dos movimentos sociais e contra a impunidade no campo, afirmou o deputado estadual Valmir Assunção (PT), que integra a marcha. Com ele, estão outras lideranças do partido na Bahia, como o vice-presidente estadual da legenda, Weldes Valeriano. Na programação dos participantes, estão previstas caminhadas pela manhã e atividades culturais - como curso de formação política e exibição de filmes - nos outros períodos”. (leia mais...)
Antes de encontrar os membros do MST em caminhada, parei em um posto para abastecer o carro e puxei conversa com o frentista sobre a marcha. Comecei perguntando se estavam muito na frente e ele me respondeu que tinham passado por ali na manhã anterior e que àquela hora (+/- 9h) já deveriam ter levantado acampamento e estavam novamente na pista. Em seguida, tentou me confortar argumentando que era feriado, o trânsito não estava intenso e talvez não encontrasse muito engarrafamento. Respondi que não me incomodava muito, pois o MST tinha o direito de lutar e de se manifestar. Ele se animou para continuar a conversa e alegou que também gostava do MST e da coragem deles, mas não gostava quando se tornavam violentos, destruíam plantações e casas das fazendas invadidas.
Desejei bom dia de trabalho ao frentista e segui viagem. Depois que passei por aquela multidão de homens e mulheres, caminhado em duas filas indianas, cantando e demonstrando que estavam voluntariamente naquela caminhada, pensei comigo mesmo: são mesmo loucos e insensatos! Ora, são mais de 100 km de caminhada e nesta época do ano costuma chover muito no recôncavo baiano. Loucos e insensatos, mesmo!
Mais na frente, lembrei-me da observação do frentista com relação à violência do MST e pensei: também, o que se pode esperar de loucos e insensatos? Que vão entrar com muito cuidado nas fazendas que ocupam, cuidar bem da casa, deixar tudo limpo e arrumado? Não, nada disso. São loucos e insensatos!
Mas o que os levou à loucura e à insensatez? Por que tantos jovens, moças e rapazes, já perderam a razão e os bons modos ainda na flor da idade?
Esta doença é hereditária e foi causada por mais de 500 anos de exclusão e opressão. No início, os índios, depois os negros, depois os posseiros e pequenos colonos foram excluídos da terra e lançados ao léu. Agora, séculos depois, tornaram-se “sem-terra” e marcham pelas rodovias do país, moram em acampamentos, ocupam fazendas, derrubam laranjais, queimam sedes luxuosas, matam bois para comer a carne... São uns loucos e insensatos.
Sendo assim, diferente dos “doutores da lei”, eles não sabem distinguir os vários tipos de posse, não sabem distinguir posse de propriedade e, muito menos, o que sejam os tais “interditos possessórios.” Para eles, interessa somente a terra e os alimentos que dela brotam. Terra, portanto, não se confunde com posse e, muito menos, com propriedade. Terra é mãe e produz alimentos, é o local, o espaço sagrado e detentor das possibilidades de continuidade da espécie humana sobre o planeta. Propriedade, de outro lado, é mera abstração, conceito, idéia, pedaço de papel, registro em cartório...
Não compreendem os loucos e insensatos do MST, enfim, por que tantos “letrados” andam dizendo por aí que a “propriedade” é um direito sagrado. Ora, sagrada é a terra, e não a propriedade dela! Esse destino místico da terra, porém, não se realiza com pastos e pisadas de bois ou eucalipto para virar celulose, mas com a presença do homem, como se pertencessem um ao outro, plantando e colhendo, no cio da terra, alimentos para o mundo. O homem, portanto, não pode impor qualquer função ou amarras à terra, pois ela já tem desde sempre o seu destino inafastável, que é oferecer a vida ao homem que lhe habita.
Pensando bem, aliás, o que seria da vida, da liberdade e do mundo sem os loucos e os insensatos?
            Salvador, 22 de abril de 2010
            * Juiz de Direito

13 comentários:

LDB disse...

Estou aqui eu, exatos 00h34min, numa temperatura de 12º estudando a teoria da interpretação penal.

E num certo momento me veio a imagem do mst e agora lendo seu blog, que tomei gosto em acompanhar leio essa postagem. Estou aqui pensando com os meus botões Doutor: se eles loucos e insensatos resolvessem bloquear a pista que o senhor está viajando, colocando fogo em pneus ou virando carros, para o senhor poderia ficar caracterizado o crime do art. 146 do CP (constrangimento ilegal)?

Como hermeneuta e valendo do que o frentista disse, de não gostar da violência, como o senhor vê esse exemplo - até é possível um dia chegar na vara criminal em que exerce o seu labor - de plano já desconsiderando a inimputabilidade pela loucura e insesatez? Abraço

Anônimo disse...

Prezado Dr. Gerivaldo:
Fiquei muito emcionado com seus comentários a respeito do MST... emocionado é o jeito de falar, porque a vida tornou-me um cético, pessimista e sem crença em ninguém mais. No entanto, quando penso em Justiça, igreja católica... juízes, promotores... me vem sempre a idéia de que nada mais tem saída... Juíz que defende a miséria, promotor que se vende por interesse ou por status... Olha Dr., acho que tá tudo perdido, torço todo dia que caía um meteoro gigante na terra e destrua tudo e que deixe apenas a possibilidade de renascer outros tipos de vida, menos egoísta, mais solidários... mais parecido com o Sr e comigo.
Um abração e fico ainda com uma ponta de esperança no meu coração de que ainda a humanidade pode mudar.
Prof. Dr. Miguel A. Lazzaretti
Gaúcho de Santa Rosa-RS e professor da Unioeste-PR... estudo o MST a 22 anos.

Miguel Graziottin disse...

Brilhante texto
Pço-lhe licença para publicar no meu blog!
Já coloquei na minha lista de favoritos. Um abraço
www.miguelgrazziotinonline.blogspot.com

Itárcio disse...

Parabéns, poeta, belo e emocionante texto.

Abraços!

Sérgio Blasquez disse...

Ótimo texto.

Por que motivo essa "luta" se torna mais lícita?

jader resende disse...

É bom saber que existe fraternidade, amora ao próximo e a terra.

acabo de ver este mesmo poste republicado em outros dois blogues de tão importante que é.
Abraços

Sérgio Blasquez disse...

P.S: Postei no meu também, com as devidas referências.

Abraços.

Paulo disse...

É sempre bom ler o que de bom se escreve neste país. Alguém Louco e Insensato nesta Justiça tem uma bandeira digna; Parabéns e vamos a diante que eu quero ver o futuro.

Cícero R. C. Omena disse...

Parabéns pelo artigo.
Ninguém anda 100 km por pura farra. Pena que a questão da terra virou briga de torcida: Os-do-Contra não vão virar a casaca por nada, por melhores que se lhes apresentem os argumentos.

Eu, pelo meu lado, procuro ver o que meu "time" tem de bom e o que precisa melhorar.

O movimento dos sem-terra tem muitas virtudes, mas também inúmeros defeitos.

Sua reivindicação, no entanto, é totalmente legítima.

Mas uma vez, parabéns pela coragem de assumir sua opinião publicamente.

Francisco Petrucio disse...

Quero mim congratular o com nobre Magistrado.
Dr. Gerivaldo Neiva, admirei vossa reflexão da qual compactuo.
O que discordo, além dos saques, é são os bloqueios das rodovias, tirando-nos o direito cidadão de ir e vir, como discordo, quando o fazem qualquer categoria social.

Prof.Francisco Petrucio Cavalcante
email - fpcuniao@gmail.com

União dos Palmares - Alagoas

Matheus silva disse...

É raro... Muito raro, alguém assim, com um ótica, voltada à ESPERANÇA da humanidade!

Parabéns

Oficina de Capacitação de Radislistas Comunitários disse...

Me anima saber que dentro das corporações do Poder Judiciários, encontramos um ser humano. ABRAÇO FORTE

Mara disse...

Em nome dos/as 5 mil marchantes, queremos saudá-los pela atitude revolucionária de manifestar seu apoio e solidariedade à luta pela Reforma Agrária e por reconhecer a importância e legitimidade de nossa Marcha.

Mara Ribeiro, louca e insensatamente militante do MST, licencianda em História, mais uma que engrossou as filieiras da Marcha.

“...Legitimam-se não pela propriedade, mas pelo trabalho,
nesse mundo em que o trabalho está em extinção.
Legitimam-se porque fazem História, num mundo que já proclamou o fim da História.
Esses homens e mulheres são um contra-senso
porque restituem à vida um sentido que se perdeu...”