terça-feira, 27 de abril de 2010

Com exceções, o ensino jurídico cospe no prato que comeu


 O ensino jurídico cospe no prato que comeu

A filha de um amigo está estudando Direito e teve grande decepção nos primeiros dias de aula com um professor que não perde oportunidade para criticar os juízes. Como não tem argumentos ainda para contrapor ao “mestre”, ela apenas escuta com alguma indignação e não entende porque um professor do curso de Direito alimenta tanta revolta contra os juízes.
Esta menina me contou sobre o assunto com certa cautela e temerosa que eu pensasse que também ela tinha a mesma impressão dos juízes. Depois de acalmá-la, perguntei mais sobre as críticas do professor e ela teve mais segurança para dizer que o dito professor considera os juízes despreparados, preguiçosos, arrogantes e outros adjetivos não menos recomendáveis.
Perguntei, em seguida, se o dito professor tinha a mesma postura acerca do Poder Judiciário e do Direito e ela me respondeu que não entende muito ainda sobre “teoria do Direito”, mas já ouviu de estudantes mais antigos que o professor em questão é um “ferrenho positivista e dogmático”.
Depois perguntei sobre o estilo de aula e de avaliação e a resposta foi a que eu já esperava: as aulas são sempre discursivas, os alunos permanecem sentados no velho esquema de filas de cadeiras, a avaliação é feita através de provas e o “mestre” não se cansa de ameaçar os alunos com sua rigidez no momento de corrigir a prova. Acrescentou minha amiguinha que o “mestre” inicia sua aula escrevendo um longo esquema no quadro, o mesmo esquema que utiliza há vários anos, e depois se senta em sua cadeira de professor e faz um longo discurso até o final da aula.
Por fim, perguntei a minha amiga se já havia conversado com seus colegas sobre o que pensam em fazer após o curso e a resposta foi de que o grande temor da maioria ainda é passar no exame da Ordem, mas o objetivo de quase todos é fazer concurso para as carreiras jurídicas.
Então, minha cara, teus colegas, formados por teu mestre, serão os futuros delegados, procuradores, promotores e juízes de Direito desse país. O que você pensa disso? Como serão esses profissionais? Quem está lhes dando “régua e compasso”, como diz Gilberto Gil?
Então, concluiu minha amiga, o ensino jurídico é o responsável, em última instância, pelos profissionais da área jurídica? Sim, sem dúvidas. Compreenda, por fim, que o professor dogmático e tradicional que critica os juízes é o também o responsável pela formação desses “despreparados, preguiçosos e arrogantes”. É como se ele estivesse “cuspindo no prato que comeu”, sacou?
Não posso deixar de observar, por fim, que conheço dezenas de professores em cursos de Direito que mantém uma postura crítica e inovadora e que procuram, enfrentando os antigos esquemas, formar Juristas de verdade e não pinguins, como diz Warat.

6 comentários:

Rafson Ximenes disse...

Gerivaldo, você está coberto de razão.

As faculdades induzem à preguiça, o autoritarismo e à subserviência.

Os concursos, em geral, continuam o trabalho, quando selecionam, para todos os cargos, aqueles que melhor conhecem o entendimento dos tribunais e não os assuntos exigidos e suas implicações sociais.

Agora, o CNJ reforça a tendência e traz a cereja do bolo, ao exigir decisões padronizadas e, pior, estabelecer como critério de merecimento das promoções de magistrados o respeito ás súmulas. Ou seja, juiz com a ousadia de pensar não deve ser promovido.

abraços e parabéns pelo excelente texto.

Rafson Ximenes disse...

Só uma coisa, a única falha do seu texto. Você esqueceu que sua amiga e seus colegas podem ser também Defensores Públicos.

Mas, sei que não é culpa sua, afinal de contas, o orçamento destinato pelo governo do estado à Defensoria Pública é de cerca de 1/5 do destinado ao MP. Por isto há muitos anos Conceição de coité não tem Defensor. Situação triste, à qual não se pode acostumar.

abraços

Caroline disse...

Fico impressionada com certos comentários que os alunos ainda estão sujeitos a ouvir em sala de aula. Estes "profissionais" que provavelmente não conseguiram alcançar os objetivos que tinham na vida, preferem amargar suas mágoas em seus pupilos, que, geralmente são jovens ainda em processo de formação de personalidade crítica.
Sou advogada atuante e não almejo a carreira da magistratura, porém, aprendi que o mínimo que podemos fazer para ajudar os que nos pedem auxílio, é levá-los a buscar a resposta de suas questões da maneira mais ética possível.

rogério lima de oliveira disse...

O tom ameaçador, a arrogância, a preguiça e o despreparo não são características apenas de juiz de direito. São de advogados, membro do MP, delegado, policial, empresário, gerente de empresa e tantos outros. Com raríssimas e honrosas exceções. Até alguns humildes pecam. Pecam porque declaram “ eu não, eu sou humilde” .
Ouro dia um amigo advogado militante, sentiu vergonha da maneira como um colega seu recém ingressado na advocacia destratou uma serventuária do cartório. Esta questão é doméstica e de ínfimo contato com a pouca literatura. Se os arrogantes lerem este BLOG, deixarão de sê-los prepotentes e os que não são permanecerão com a boa postura.
Quanto ao ensino jurídico, não devemos cursá-lo para ser promotor, juiz ou advogado.
O objetivo deve nortear pela necessidade de mudar o mundo. Disto é que precisamos. Termos um amor pelo direito que transcenda as profissões.
Quanto a profissão de professor. Esta é sagrada. E quem o tem não pode maculá-la sob hipótese alguma.

Rogério Lima.

Luiz Otávio Ribas disse...

Olá

Gostei muito desta relação que fizeste entre ensino dogmático e ensino da dogmática, com as consequências na formação do operador do direito.

Tenho pesquisado sobre este assunto e estou próximo de concluir a mesma coisa. Eu só faria uma ressalva, em relação ao positivismo: é possível não ser positivista no capitalismo?
Eu acredito que é desejável ser positivista, mas um "positivismo de combate", como quer Miguel Pressburger, uma garimpagem do ordenamento jurídico em busca de garantias e realização de direitos.

Quanto ao ensino, faz pouco tempo que me tornei professor. No entanto, ressalto que concordo com a avaliação de que o professor preguiçoso é responsável por uma classe preguiçosa e suas consequências depois da formatura.

Sérgio Blasquez disse...

Me lembrou até "Another Brick in The Wall".