quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Carnaval de Salvador: retrato em negro e branco


Trio Chiclete com Banana e Bloco Camaleão - Foto Fernando Vivas / Ag. A Tarde

O carnaval de Salvador é colorido e tem bom aroma quando visto pela TV.

Visto de perto e ao vivo, no entanto, o carnaval de Salvador é um mar de contradição de negros e brancos e não tem um bom aroma, principalmente nos becos e locais mais escuros. Um mistura de suor, cerveja e urina.

Eu posso contar porque vi de perto o carnaval de Salvador.

Vi um cordão de negros, de moças e rapazes, os tais cordeiros, segurando uma corda para proteger moças e rapazes brancos se divertindo em um bloco. Aliás, na maioria dos blocos, os cordeiros eram quase todos negros e os foliões quase todos brancos.

Em outro instante, vi novamente um cordão de cordeiros negros protegendo outros negros se divertindo em outro bloco. Certamente, negros pobres ganhando R$ 28,00 por diária para proteger negros ricos ou menos pobres.

Vi uma cordeira negra não suportar o calor e desmaiar, sendo levada por seguranças para o interior do carro de apoio ao Trio Elétrico.

Em outro instante, sob o mesmo sol, vi uma menina negra da Banda Didá tocando um tambor com toda sua força para homenagear outro negro, o Neguinho do Samba.


Boneco do Neguinho do Samba e Banda Didá - Foto de Eduardo Martins / Ag. A Tarde

Espremida nas calçadas, vi uma multidão de “pipocas”, os sem-blocos, negros e brancos, empurrados e agredidos por cordeiros quase todos negros.

De súbito, vi muitos, muitos soldados, quase todos negros, com capacetes brancos, descendo o cassetete em foliões quase todos negros e sem-blocos.

Vi, também, uma patrulha inteira conduzindo um casal de idosos pelo meio da multidão. Não importa a cor da pele dos idosos, agora importa a ação positiva.

Vi, sobre o Trio Elétrico, músicos percursionistas, quase todos negros, tocando tambores e atabaques com energia sobrenatural.

Vi cantores e cantoras, negros e brancos, cantando axé e pagode. Rimas pobres, poucos acordes e refrões repetidos à exaustão dos ouvidos mais apurados.

Vi homens, brancos e negros, vestidos de mulheres como se tivessem deixado a fantasia no armário.

Vi de tudo e muito mais.

No final, quando não queria ver mais nada, vi homens, mulheres e crianças, quase todos negros, catando latinhas de cerveja pelas ruas.

E vi, perto do monumento ao dois de julho, a data de independência da Bahia, no Campo Grande, um homem negro, de olhos arregalados, catando latinhas de cerveja e, antes de jogá-las em um saco, balançava em busca de algum líquido em seu interior. Na maioria das vezes, bebia com prazer o resto da cerveja que alguém deixou na latinha, seja resto de branco ou negro, pobre ou rico.

Do alto, em camarotes, agora quase todos brancos, sem cordas e bem protegidos, celebridades e famosos posavam para fotos e se fartavam de boa comida e bebida.

O carnaval de Salvador é assim: um mar de contradição de negro e branco.

15 comentários:

Kátia disse...

Realmente, quem se predispoe a VER a realidade, dos bastidores do Carnaval da Bahia, volta abismado com a tamanha desiguldade Social...

Luiz Bentes disse...

Onde está a tão falada Democracia destes dias de folia?

Cabral disse...

Lá, o sentimento de desigualdade simplesmente está nu e enxerga quem quer! Nossa realidade dói!

Magnum Almeida disse...

Felizmente, há pessoas (poucas, mas há) que conseguem enxergar esse grande contraste, presente no carnaval. Enquanto a maioria, 'vai pra dançar'. Parabéns pelo artigo.

Eduardo Sampaio disse...

"Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados"

O Haitiii é aqui! Já dizia Caetano...

Anônimo disse...

E onde o Dr estava (dentro ou fora das cordas? Na pipoca ou no camarote?) quando viu tudo isso?

Anônimo disse...

Parabéns pelo comentário! Se o nobre Doutor abrisse mais um pouco sua visão, até chegar na espiritual iria ver também como multidões de negros e brancos são conduzidas pelas forças malignas, durante o carnaval, a se auto-destruírem física, moral e espiritualmente, quando: se embriagam, se drogam e se dão ao adultério, à prostituição, às mentiras, às brigas, às doenças, às prisões, aos divórcios, aos roubos, às músicas obscenas ou consagradas a ídolos (demôios), à morte!

Jesus é caminho, a verdade e a vida. No Evangelho segundo Marcos no Cap. 8-34 o Mestre disse: "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me".

Deus continue te abençoando!

Eduardo José de Oliveira Sobrinho.
e-mail: eduardo_bia@hotmail.com

Gerivaldo Neiva disse...

Eu?
Nem no bloco, nem nos camarotes, nem na pipoca... estava "zanzando" por aí!

Prof. João Damasceno disse...

Pois é mestre, o senhor ainda se deu ao trabalho ir...
Não gosto, desaprovo, não fui e não vou.
Qualquer pessoa, com um olhar mínino de crítica, pode perceber o quão prejudicial e o quão continua sendo o mesmo do mesmo: circo e pão ao povo, já faziam os romanos.
Temos tantas necessidades: social, política, estrutura, moral, educação, etc., e as pessoas matam e morrem por uma festa que não leva a nada e consagra as desigualdades de 500 anos.
Espero que seu colega não volte às tv´s, após 9 meses, para pedir que as crianças, filhas das adolescentes do carnaval, sejam adotadas.
Parabéns pelo sucinto artigo.

Prof. João Damasceno disse...

Pois é mestre, o senhor ainda teve a coragem de ir...
Desaprovo, não gosto, não fui e não vou.
A festa, para quem tiver um mínimo olhar crítico, serve para demonstrar o quanto o povo é levado, assim como são as multidões.
E o mesmo do mesmo: pão e circo. Já faziam os romanos.
A festa demonstra o quão degradada é a nossa condição moral.
Uma sociedade com tantas necessidades, um Estado, uma cidade, um povo, carentes de tanta infra-estrutura e envergadura moral, continua a praticar as mesmas condutas de 500 anos atrás. Avançamos muito pouco...
Daqui a 9 noves seu colega voltará às tv´s para pedir que sejam adotadas as crianças advindas do carnaval.
Parabéns pelo artigo!

Anônimo disse...

O Doutor além de jurista é um flâneur, vide seus comentários sobre o carnaval. Amaranta César, doutora em cinema, produziu um curta sobre os cordeir@s, exibido pela TVE/Ba em Fevereiro/2008, neste trabalho a autora expõe outras contradições subsumidas na individualidade dos meninos e meninas que vivem o maior carnaval do mundo na figura emblemática do Cordeiro.
Parabéns pelo olhar sensível!

Wagner Martins disse...

O carnaval é o ópio sagrado do mês de fevereiro! Parabéns pelo post, senhor Gerivaldo!

CONÇA BARRETO disse...

EU TAMBÉM, NAO FUI, NAO VOU E DESAPROVO....
E O TEXTO ESTÁ EXCELENTE, LEMBRA CASTRO ALVES ....
ABRAÇOS !
MARIA DA CONCEIÇÃO SANTANA BARRETO

Flor disse...

Não fui mas não desaprovo que foi, tudo me é lícito mas nem tdo me convém, obigada pelo comentário.

Anônimo disse...

Eu fui e embora haja toda essa contradição a festa é otima, as pessoas se divertem e TODOS ganham: os vendedores aumentam sua renda; os cordeiros ganham alguns trocados a mais; os foliões se divertem, os catadores recolhem suas latinhas etc. A desigualdade social existe em todo o mundo, no carnaval ela fica mais aparente, oportunidade para se refletir sobre o assunto e pensar em uma maneira de diminui-la.
Embora alguns desaprovem, outros aprovam (como todas as coisas do mundo), a existência ou não do carnaval bahiano não muda em nada a existência da desigualdade, só a deixa evidente.