sábado, 31 de janeiro de 2009

A crônica da semana


LEMBRANÇAS DE BELÉM


Gerivaldo Alves Neiva*


Guardei muitas lembranças de Belém. Aliás, guardo lembranças desde antes da viagem: a expectativa de participar do V Fórum Mundial de Juízes, o reencontro com colegas, a possibilidade de contato com colegas de outros estados e, sobretudo, a expectativa com a cidade de Belém e o Estado do Pará.

Saí de Salvador por volta das 9 horas com escalas em Recife e Fortaleza. O serviço da TAM é o mesmo: pão quente com queijo e presunto e as balinhas durante as escalas. Tenho um amigo que sempre viaja com uma cartela de pastilhas de Magnésia Bisurada para combater a azia causada por tais pãezinhos acompanhados de suco de caixinha ou refrigerante. O pessoal da TAM bem que poderia incluir as pastilhas no serviço. Inegável, no entanto, a simpatia das comissárias e comandantes com suas falas decoradas.

Perto de mim viajava uma turma de quatro ou cinco amigos. Falavam alto e brincavam entre si. Na escala de Fortaleza, uma simpática comissária solicitou de um deles a permuta da poltrona, como chamam aquela cadeirinha apertada, para que uma senhora pudesse se sentar ao lado da filha. Ele negou o pedido sob alegação de que estava sempre conversando com o amigo que estava na poltrona à sua frente e não se mudaria para o outro lado. Fiquei por um tempo a pensar: foi falta de solidariedade dele ou sua conversa com o amigo era mais importante?

Lembrei, por conta da situação, daquela frase atribuída a Che Guevara sobre a solidariedade: “Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros". De outro lado, lembro também de uma das conclusões de Luis Alberto Warat no seu “Manifesto do Surrealismo Jurídico.” É algo mais ou menos assim: Não se podem suprimir as desigualdades materiais à custa de homogeneização dos indivíduos e das consciências. A liberdade nunca pode ser o preço do bem estar material. Entretanto, ninguém é livre se não tem asseguradas suas condições materiais de existência.

Certo que não são pensamentos contraditórios: solidariedade radical e liberdade do indivíduo. Concordo com Guevara em relação à radicalização da solidariedade, mas também entendo que Warat está certo em relação à violência que se perpetra contra a liberdade individual. A síntese de tudo isso é proposta pelo próprio Warat: também não existe liberdade sem condições materiais de existência! Sei que meu amigo Warat não vai gostar muito dessa história de lhe misturar com Che Guevara, mas ambos são argentinos mesmo... deixa prá lá!

Mas uma simples troca de poltrona já rendeu conversa demais. A seqüência dessa conversa importa em diálogos com Freud, Jung, Sartre, Habermas... Deixa para outro dia!

Pois bem, cheguei em Belém quase três horas da tarde e meu amigo já teria degustado várias pastilhas de Magnésia Bisurada. O pessoal da agência Vale Verde já me esperava no aeroporto e seguimos para o Hotel Grão Pará, no centro da cidade. Durante o trajeto, o simpático motorista me mostrou o Hangar Centro de Convenções, onde aconteceria o Fórum de Juízes, o Tribunal de Justiça do Pará e outras curiosidades da Capital. Perguntei-lhe sobre o clima da cidade, sobre a história das mangas caindo sobre os carros, da chuva diária e outras amenidades. Percebi que havia um esforço de toda a cidade para receber bem os visitantes, mas também é visível a falta de estrutura para um evento do porte do Fórum Social Mundial.

Descansei o resto da tarde e só dei uma caminhada na Praça da República no início da noite, visitando o imponente Teatro da Paz. Dizem que a primeira regência de “O Guarani”, pelo próprio Carlos Gomes, teria acontecido no Teatro da Paz, no auge da borracha.

Na manhã seguinte, em companhia da colega Maria Coeli, da Paraíba, fiz um ‘tour’ pela cidade e visitamos os pontos turísticos que todo visitante deve fazer: mercado Ver o Peso, mercado do peixe, museu do índio, casa das 11 janelas, forte do presépio, mangal das garças e basílica de Nazaré. A impressão foi a mesma: os locais tem imenso potencial turístico, mas falta ainda estrutura e o tratamento do turismo como uma verdadeira indústria de emprego e renda.

O mercado Ver o Peso é uma grande mistura de cidade, pessoas e floresta. Tem um pouco de tudo. Castanhas do Pará e Cupuaçú aos montes, folhas e ervas medicinais, peixes e camarões que não existem em tamanho e beleza em outros locais do mundo.

Vi, também, uma pessoa com fortes traços indígenas, um mameluco, magérrimo, com a mão estendida pedindo uma esmola. Logo em seguida, no Forte do Presépio, o contraste é visível entre a cultura dos conquistadores e a cultura indígena local. No museu, resultado das obras da restauração, existe desde uma escavação onde se vê o local onde foi feita uma fogueira para assar um tatu canastra, urnas funerárias e também louças e cerâmicas dos portugueses. Na parede, porém,consta um grande painel com várias referências ao processo de “colonização.” Depois da palavra “colonização” não tive condições de continuar a leitura, pois a imagem do quase índio magérrimo pedindo esmola no mercado do Ver o Peso embaçou meus olhos e embargou minha voz.

Certamente, o mameluco do mercado Ver o Peso tem sangue Tupinambá, português e negro africano. Seu sangue guerreiro Tupinambá, é verdade, já está contaminado com gripe, varíola, sarampo, sífilis, gonorréia e tantas outras doenças contagiosas dos brancos portugueses, mas não pode ter perdido o mistério da convivência harmônica com a floresta e seus bichos. Do sangue negro, sem dúvida, carrega a força, saudades da mãe África e o desejo de liberdade. É um ribeirinho, amazônico, índio, branco, negro, pobre, excluído, pedinte, sem terra, sem teto, analfabeto, brasileiro...

Lembrando do radicalismo solidário de Che Guevara, do passageiro que não aceitou permutar a poltrona e do mameluco do mercado Ver o Peso, eu, Juiz de Direito do Brasil, transbordando de indignação e esperança, tomei um banho no final da tarde para ouvir, na primeira noite do encontro, as palavras sensíveis e comedidas do Ministro Carlos Britto. Sempre penso que ele gostaria de dizer mais do que diz. Como se a estrutura sisuda do Supremo Tribunal Federal não lhe permitisse. Ele declama poesias, cobra poesias dos Juízes, reclama da linguagem inacessível e, quando se reportou à música de Gilberto Gil, demonstrou que conhece com profundidade os mistérios da alma humana e também da história da música brasileira.

Como bem disse o Ministro, defendendo a Constituição e culpando os Juízes pela pouca constitucionalidade, a música se chama Drão e se reporta a Sandra (Sandrão), ex-mulher de Gil, e diz: Drão! Os meninos são todos sãos. Os pecados são todos meus.”

Foi emocionante, mas penso que o Ministro Carlos Britto teve vontade de concluir com outra parte da música de Gilberto Gil: “Tem que morrer pra germinar, plantar nalgum lugar, ressuscitar no chão, nossa semeadura.”


Conceição do Coité, 30 de janeiro de 2009

* Juiz de Direito em Conceição do Coité – Ba.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Alem da queda, o coice.


Além dos probelmas de gestão administrativa, no TJ do Maranhão também tem rapinagem:

O desembargador aposentado Augusto Galba Falcão Maranhão, ex-presidente do Tribunal de Justiça do Maranhão, foi acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público do estado. Segundo os promotores Marcos Valentim Pinheiro Paixão e João Leonardo Sousa Pires, em Ação Civil Pública ajuizada nesta quinta-feira (29/1), o desembargador desviou R$ 354 mil com irregularidades na folha de pagamento quando era presidente do TJ, entre 2006 e 2007. A ação tramita na 2ª Vara da Fazenda Pública de São Luís.

Galba e outras 12 pessoas, incluindo a mulher dele, Celina Ramos Maranhão, são acusados de causar prejuízo ao erário por meio cargos de assessor comissionado fantasmas. O MP diz que ele contratou parentes para o gabinete da presidência pagando salários de R$ 7.200 e R$ 9.300.

(leia mais...)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Bahia x Maranhão x CNJ

Com Boaventura Sousa Santos, em Salvador-Ba.

Depois que o CNJ realizou inspeção no Poder Judiciário da Bahia, a notícia é de que era o "pior do Brasil." Para ler o relatório completo da inspeção na Bahia clique aqui .

Pois bem, o CNJ acaba de divulgar algumas informações (clique aqui...) sobre a inspeção realizada no Judiciário do Maranhão e começamos a ter dúvidas com relação ao título de "pior do Brasil."

Como solução, propõe o CNJ o controle interno dos Tribunais Estaduais pelas Corregedorias e mais e mais relatórios a serem enviados pelos Juízes, que muitas vezes não dispõe sequer de computador e muito menos de Internet.

Nada disso irá resolver a crise do Poder Judiciário, que é muito mais profunda e complexa.

Há tempos venho defendendo, concordando planamente com Boaventura Souza Santos, sobre a necessidade de uma Revolução Democrática da Justiça que passaria pelos seguintes vetores:


a) profundas reformas processuais;

b) novos mecanismos e novos protagonismos no acesso ao direito e à justiça;

c) nova organização e gestão judiciárias;

d) revolução na formação de magistrados desde as Faculdades de Direito até à formação permanente;

e) novas concepções de independência judicial;

f) uma relação de poder judicial mais transparente com o poder público e a media (imprensa), e mais densa com os movimentos e organizações sociais;g) uma cultura jurídica democrática e não corporativa.


Além disso, ao tratar da magistratura, Boaventura aponta os “sete pecados” da cultura normativista e técnico-burocrática da atualidade:


1) prioridade do Direito Civil e Penal;

2) cultura generalista de que o magistrado, por ser magistrado, tem competência para resolver todos os litígios;

3) desresponsabilização sistêmica perante os maus resultados do desempenho do sistema judicial, manifestada através de três sintomas: o problema é sempre dos outros, da outra instância; desempenhos distintos dentro do mesmo Tribunal e baixíssimo nível de ação disciplinar efetiva;

4) o privilégio do poder junto à justiça, traduzido no medo de julgar os poderosos, de investigar e tratar os poderosos como cidadãos comuns;

5) refúgio burocrático: gestão burocrática dos processos, privilegiando a circulação à decisão; preferência por decisões processuais em detrimento de decisões substantivas e aversão a medidas alternativas;

6) distância da sociedade: o magistrado conhece o direito e sua relação com os autos, mas não conhece a relação dos autos com a realidade, tornando-se presa facial da cultura dominante. Pensa que está julgando com isenção, mas está julgando de acordo com os ideais da classe política dirigente;

7) confundir independência com individualismo auto-suficiente, que não permite aprender com outros saberes.


Ao lado de tudo isso, conforme defendi em Seminário na Universidade do Estado da Bahia - UNEB, ano passado, a magistratura necessita de uma verdadeira Revolução Humanística (clique aqui...), pois como nos ensina Luis Alberto Warat, no Manifesto do Surrealismo Jurídico, "O sentido do Direito é o de ser parte do sentido de uma prática social."


Policiais foram suspensos


Um processo disciplinar sumário foi aberto na quarta-feira, dia 28, no 10º Batalhão da Polícia Militar de Barreiras (a 855 km de Salvador) para apurar a ação de policiais da corporação que, na véspera, obrigaram duas adolescentes a lavarem com as mãos a calçada da loja da Cesta do Povo. Considerada pelo subcomandante do 10º BPM, capitão Beck, um acontecimento isolado, a ação, testemunhada por dezenas de pessoas, teve o objetivo de apagar palavrões que as duas meninas teriam escrito no chão para ofender a policial responsável pela segurança do estabelecimento, SD Solange, e colegas. O Comando Geral da Polícia Militar, ao tempo em que determinou a apuração em Processo Administrativo Disciplinar, determinou que os policiais envolvidos no caso sejam afastados do serviço operacional até a conclusão das investigações. [...]
[...] Na casa de uma das garotas, em um bairro periférico de Barreiras, os irmãos afirmaram que o comportamento da menina é normalmente agressivo e que a mãe “tem sofrido muito” por sua causa. “Dentro de casa, ela é muito bruta com todos. Não deixa ninguém em paz”, resumiu o irmão de uma das adolescentes. O pai trabalha em uma carvoaria e passa a maior parte do tempo longe da família. (leia mais...)