terça-feira, 17 de novembro de 2009

O MST e as laranjas. A sensatez adverte: miséria pode causar perda de paciência


A melhor análise que li sobre o episódio “laranjas e MST”, de longe, foi no blog do jornalista e cineasta Maurício Caleiro, principalmente por esta frase: “E, acima de tudo, O MST é um assassino de laranjas! E ainda que as laranjas fossem transgênicas, corporativas, grilheiras, estivessem podres, com fungos, corrimento, caspa e mau hálito, eles têm de pagar pela chacina cítrica!”

Outra parte do texto que gosto muito é quando Maurício Caleiro questiona sobre as condições de vida dos acampados e a cobrança da mídia por sensatez em suas ações: “Ora, o MST é um movimento social nascido da miséria, da necessidade e do desespero. Eles estão em plena luta contra uma estrutura agrária arcaica e concentradora. Não se pode esperar sensatez de movimentos sociais da base da pirâmide social, que lutam por um direito básico do ser humano. Pelo contrário: é justamente a insensatez, a ousadia, a coragem de desafiar convenções que faz do MST um dos únicos movimentos sociais de fato transgressores na história brasileira.”

E, finalmente, o comentário sobre a inversão de valores praticada pela mídia: “Para a mídia, pés de laranja valem mais do que a vida humana, quero dizer, a vida subumana de um miserável que cometeu a ousadia suprema de lutar para reverter sua situação. Mas os bárbaros, claro está, são o MST. Por isso, haja o que houver, o MST é o culpado.”

Clique aqui par ler o post na íntegra.

Eu me lembrei desse comentário quando ouvia a militante do MST, no IV Seminário do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, em Brasília, no último dia 12/11.

A jovem militante, integrante do programa de proteção, demonstrando um misto de revolta, desespero, angústia e sensatez, contou-nos que vive sob ameaça de morte e já teve um primo e um tio assassinados a mando de latifundiários.

O que me chamou muito a atenção é que não percebi, apesar da gravidade da situação, um sentimento de vingança pessoal na voz da militante do MST, mas de confiança e chamamento à Justiça. Por um instante passei a acreditar, de fato, que o povo brasileiro é pacífico e resignado, pois não era possível sofrer tanta violência e não sentir um gosto amargo de fel na garganta e contaminar a voz com o sentimento de vingança e transformar o gosto de fel em gosto de sangue.

Esta esperança na Justiça é um forte chamamento ao Poder Judiciário e à Magistratura brasileira. Precisamos corresponder a este chamado. Contribuir e lutar pela realização da reforma agrária. Transformar sem-terras em agricultores. Fazer cumprir o projeto constitucional de construção de uma sociedade livre justa e solidária.

E fazer isto com pressa e enquanto é tempo. Antes que os acampados sem-terra percam a paciência e a resignação; que deixem de acreditar na justiça; que ao invés de laranjais, tratores e sedes de fazendas, resolvam descarregar em pessoas sua contida e secular revolta.

Portanto, ao invés de criminosos e inimigos cometendo crimes, vejo as ações do MST como uma advertência à sociedade brasileira: miséria não combina com sensatez e pode causar perda de paciência e de resignação.

10 comentários:

MARCO ANTONIO disse...

Caro doutor Gerivaldo,

Concordo com sua frase, de que "miséria não combina com sensatez". Eu aproveito e acrescento um adendo, considerando que a insensatez não é o caminho para livrar as pessoas da miséria. Não posso considerar que o bem possa advir do mal; ou o que é certo possa ser resultado do erro e da injustiça.

Não estou aqui a defender ameaças de qualquer natureza a um cidadão. Não posso concordar com tentativas de agressão aos direitos do indivíduo. Bem como não podemos, da mesma forma, considerar justos movimentos - supostamente de natureza social - que utilizam jornalistas como escudo humano em um confronto armado com donos de terra.

A natureza desse movimento é política e ideológica, travestida de movimento social.O objetivo não é a obtenção da terra como meio de produção, ou de incluir miseráveis num sistema produtivo mais eficiente. É o de substituir um sistema político por outro, de outra natureza, a saber autoritária e anti-capitalista.

Mais que isso, por que esses movimentos recebem financiamento e apoio advindos de países concorrentes do agronegócio brasileiro - a exemplo do setor de cultivo de eucaliptos para celulose - com o objetivo claro de atentar contra um segmento que gera riqueza e empregos para os brasileiros?

Um abraço.

Márcio Aguiar disse...

Brilhante! Foi assim mesmo que vi o alarde da imprensa acerca do "massacre do laranjal": um caso típico de inversão de valores. É muito fácil exigir sensatez e calma quando se está à frente de um computador, numa sala refrigerada e com o bucho cheio!
Parabéns ao MST por canalizar tão bem a voz dos que não tem vez e por não transigir diante dos que se sentem incomodados ao verem seus luxos egoístas ameaçados por quem quer justiça social.
Com todo respeito, discordo do Marco Antonio quando reprova o caráter político e ideológico (como se uma coisa estivesse dissociada da outra) do MST. E que o que tem de errado nisso? Antes: quem não sabe disso? Aliás, é exatamente por lutar por uma sociedade anti-capitalista (jamais autoritária, como erroneamente disse o Marcos, a meu ver) que esse movimento conta com o respeito de milhões de brasileiros, inclusive deste humilde advogado.
Por fim, creio que esse discurso xenófobo já tão batido que ele reproduziu no fim de seu texto é fruto mais da enxurrada de informações tendenciosas que todos recebemos da imprensa do que de uma real reflexão sobre o assunto. Até quem gera empregos no Brasil é a agricultura familiar e não o agronegócio predatório e mecanizado, conforme reconheceu uma das maiores ONG's do mundo (Action Aid) ao conceder prêmio ao Brasil por ser o país que mais reduziu a fome no mundo. E isso se deu através da agricultura familiar (www.verdesmares.globo.com/v3/canais/noticias.asp?codigo=275858&modulo=125)
Grande abraço a tod@s!
Márcio Aguiar
www.marcioaguiaradvocacia.blogspot.com

MARCO ANTONIO disse...

Caro doutor Gerivaldo,

Peço a gentileza de ceder este espaço para um breve comentário sobre o comentário do nosso amigo Márcio Aguiar.

Meu caro Márcio,

Não conheço, na prática, nenhum modelo marxista que não seja autoritário. Portanto, o autoritarismo por trás da ideologia do líder desse movimento é evidente. Que ele, o líder, utiliza a massa de miseráveis como massa de manobra política é também evidente.

O agronegócio é uma fonte importante de divisas para o país. Ao reconhecer a importância desse segmento, por sinal eficiente, não estamos minimizando a agricultura de base familiar. Contudo, a agricultura de base familiar e sua inserçao na economia do páis não é o que pretende o MST em suas ações de invasão, depredação e desrespeito às propriedades privada e pública.

O agronegócio, como você diz, mecanizado, é um avanço para o Brasil. Nosso governo, de vertente social democrata, comemora os números da balança comercial e de crescimento do PIB por conta também dos expressivos resultados obtidos por esse segmento.

Sem mecanização, sem tecnologia, sem ciência - essa mesma ciência que esses movimentos rejeitam ao destruir áreas de pesquisa - fica impossível alimentar os bilhões de humanos neste planeta, em especial os mais pobres, com alimentos mais baratos. Mecanização e eficiência no campo representam possibilidade real de redução de custos. A redução dos custos dos alimentos impacta positivamente sobre a vida dos mais pobres. Permitir que mais e mais pessoas possam comer, comprar e consumir tudo aquilo que antes estava fora do alcance, é uma forma de inserção social, sem dúvida. Este é um dado da realidade.

Não estou fazendo discurso contra a reforma agrária, e acredito que muito já foi feito pela reforma agrária no Brasil, embora seja de opinião de que muito já passou da hora de ser feito, e é contraproducente remar contra a maré. A plataforma político-ideológica do MST, em sua visão ressentida em relação aos que mais têm é a voz do atraso. Ressentimento contra os ricos não enche barriga dos pobres, enche apenas a barriga das lideranças.

Um abraço

Fabio Lemos (Didático) disse...

Caro Doutor Gerivaldo Meu Patrono,

Lhe peço permissão paras usar do formalismo e rebater o formal quando desnecessário. Do espaço de debate não é preciso autorização, pois o Blog assim como a liberdade não carece de concordo para ser utilizado, ele é de todos.

Bem , relembrando as palavras do Doutor em Criminologia, o Belga, Dan Kaminsk que diz que só conseguimos sentir a realidade a partir da visão da vítima do sistema, ponho no debate se realmente acreditar que o MST é um coletivo de lideranças que manobram as massas( como se estas estivessem em estado de demência e sem escolha) não se torna uma forma de resignação para se aceitar o quadro agrário nacional. Falo isso por que, citando o Marcio, se torna facil, alías , facílimo falar de frente de uma tela de computador impondo valors captados tambem atraves de uma tela de computador , ou mesmo da TV. Se torna fácil falar baseado num discruso de "perfumaria" que é repassado cotidianamente nos meios jurídicos e sociais em que nós vivemos.
É importante saber qua as ações práticadas pelo MST não são isensatas ( até porque este conceito de insensatez pode se tornar muito meleável)são estas oriundas de decisões políticas contra o modelo agrário atual, contra a fome e desprezo da propria condição humana de existência!
Ouso complementar Gerivaldo( membro e minha banca monográfica) para dizer que a miséria sim combina com a sensatez, ainda que pareça insensato os olhos dos outros. A Sensatez ,aí, não tem que ser entendida com os olhos do agressor, mas da vítima do sistema que impera em nossa sociedade! Digo Mais: A míséria combina sim com a AÇÃO de SE LUTAR PELA VIDA! e é nesta luta que marcham os Sem terra assim como a grande variadedade de movimentos por teto, trabalho e dignidade.
Ora, as massas pensam, agem e lutam por escolha ideologica proprias delas e não como manobradas pelas "lideranças" que o Senhor Marco Antonio mencionou. E falo isso por experiência própria ante a minha proximidade com movimentos Sem teto e com o MST. É um engano tremendo se pensar que estes "pobres dos pés rachados" são menos inteligentes que nós, pelo contrário, eles são muito mais sábios. Eles fazem com que a vida se transforme enauqnto muitos dos Juizes, promotores e advogados apenas se preocupam em viver no seu locus histórico, no formalismo do seu meio"e em nascer e morrer".
Neste contexto se torna muito mais fácil crer que a massa é manobrada do que ver nesta a insurreição contra o sistema.E assim,negando a existencia o insatisfeito sentir-se confortável de modo a banalizar o mal( tal qual menciona Christophe Dejours).

Fabio Lemos (Didático) disse...

(continuando)
Bem, de fato existem pessoas que tem uma melhor desenvoltura para mobilizar, mas isso não deve ser confundido como uma forma de manipulação, porque não são.
COmodiz aquela frase popular " a educação liberta" o modo de dar uma educação crítica e emancipatória( como Paulo Freire propunha) nos assentamentos faz com que estes resolvam lutar por repúdio ao modelo de concentração agrária excludente em que vivem.
No que tange ao "atraso" a que se propõe o MST, segundo as suas palavras, ressalvo que a agricutura familiar traz beneficios maiores do que o agronegócio, seja pelo ponto de vista ecomonico seja pelo ponto de vista social. Enquanto a agricultura familiar beneficia a coletividade e traz melhorias para a ecomonia local, usando o solo adequadamente e trazendo bem estar para os trabalhadores; o agronegócio concentra as "riquezas" para um so bolso, logicamente que o Estado comemora os impostos(que nem sabemos onde são empregados) sobre a exportação mas tambem fica refém dos efeitos negativos que a balança cambial imputa a nosso País intensificadas pelo agronegócio. Não se esqueça que os produtos destinados para o exterior são vendidos em dolar. Se este está em alta, os preços internos sobem para acompanhar o preço de venda com o exterior, de outro lado, se o dolar cai, aí haveria uma que de arrecadação, recessão e este prejuizo seria transposto nos produtos do mercado interno. Moral da história, a taxa cambial bem ou mal, quem sofre é o povo brasileiro.
Nem irei comentar os casos de trabalho escravo, degradação ambiental, grilagem, lavagem de dinheiro e demais crimes de ordem tributária que estão atrelados aos latifúndios. Pra mim o argumento citado acima já me basta.
Será que no modelo de agricultura familiar este impacto teria a mesma proporção? Creio que não...
Por fim, ressalto que a tecnologia não é repelida, pelo contrário, inumeros assentamentos usam a tecnologia para beneficiar produtos de modo cooperado e equânime.
Talvez esta seja a diferença: o modo de como se usa a tecnologia e quem recebe os seus os benefícios.
No mais, peço-lhe que tente ver pelos olhos da vítima do sistema (excluidos do campo), se aproxime mais do MST ou de outros movimentos, ou ainda, desconfie um pouco do discurso que se houve e que é reproduzido, pois enquanto o senhor estiver fazendo isso, estará contra a reforma agrária e contra o MST , mesmo sem reconher que esteja.
obrigado.

MARCO ANTONIO disse...

Caro doutor Gerivaldo,

Espero não estar abusando deste espaço. Vejamos então um breve comentário sobre o que diz o nosso amigo Fábio, em especial sobre a questão cambial.

A SEGUIR O TRECHO DE FÁBIO:
"Não se esqueça que os produtos destinados para o exterior são vendidos em dolar. Se este está em alta, os preços internos sobem para acompanhar o preço de venda com o exterior, de outro lado, se o dolar cai, aí haveria uma que de arrecadação, recessão e este prejuizo seria transposto nos produtos do mercado interno. Moral da história, a taxa cambial bem ou mal, quem sofre é o povo brasileiro."

AGORA COMENTO:
Quando temos a balança francamente favorável às exportações, e o agrenogócio aponta nesse sentido, temos logicamente uma tendência ao aumento de dólares no país, com conseqüente valorização da nossa moeda e queda do dólar. Para manter as nossas exportadoras competitivas no mercado internacional, há o clássico caminho para enfrentar a sobrevalorização do Real: - Redução dos custos em real, como forma de compensar uma tendência do aumento dos preços em dólar e, como consequencia, uma redução dos preços no mercado interno. Se, por excesso de dólares no país, nossas empresas perdem competitividade no mercado externo, resta dirigir a produção para consumo interno, forçando também os preços para baixo.

Assim, por lógica simples e elementar, fica demonstrado que as exportações tendem a empurrar o dólar para baixo, forçando a redução dos custos e aumento da eficiência. A existência do agronegócio aponta neste sentido.

O nosso amigo Fabio, ao encontrar argumentos em "desfavor" dos efeitos da queda e também contra a valorização do dólar, parece preferir o câmbio fixo e artificial, como faz a China... ou, quem sabe, em favor do isolamento econômico.

Um abraço.

Anônimo disse...

Conheça melhor Bruno Maranhão - Líder do MST. Nesse blog há foto da humilde casa dele. http://ribeirobr.blogspot.com/2010/02/conheca-melhor-bruno-maranhao-lider-do.html
Só ousei postar isso pq. sou sua fã e sinto sua seriedade em tudo que faz! Infelizmente a maioria dos movimentos ou sindicatos que dizem lutar em prol dos necessitados, na verdade lutam em causa propria, etc.
Parodiando a diva Maysa: Ah! se todos fossem iguais a voce.

danielleblima disse...

MARCO ANTONIO, virei sua fã! ;-)

carvalho disse...

E por falar em ideologia...bem se sabe qual é a sua Marco Antonio...
A favor do agronegócio, contra o meio ambiente,contra a biodiversidade, em que mundo vivemos?
O que mais me deixa indignada, é que, quem é contra o MST, é contra os movimentos sociais, contra o meio ambiente, contra a justiça social, contra pobre, contra esse país..acorda para a realidade, levanta do berço esplêndido e vai conhecer o que se passa com esse povo sofrido que não pode ser estigmatizado porque um ou outro companheiro de luta se desvirtua do caminho e a mídia ferozmente se aproveita disso, os excessos ocorrem em todo e qualquer movimento, mas isso de jeito nenhum invalida tão nobre direito, relativo a função social da propriedade.
Luciana Carvalho- estudante de Direito.

Anônimo disse...

Respeito todas as opiniões colocadas em discussão, e, por isso, creio que a mesma deva ser pautada levando-se em consideração a função social da propriedade.

Por isso, pergunto: a propriedade é sustentável (economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente correta)? Se sim, qual é o problema dela continuar produzindo, gerando riquezas e preservando o meio ambiente? Seria justo esta propriedade sofrer interferências externas, ainda que essas interferências sejam justificadas? Outras propriedades irregulares não poderiam ser o foco da manifestação?

Por favor: gostaria de pedir que não confundissem propriedade socialmente justa com justiça social. A propriedade é socialmente justa quando respeita o trabalhador, cria condições para que estes trabalhem com dignidade, bem como, quando promove ações sociais de interesse coletivo (patrocínio de creches, asilos, hospitais, segurança pública, e outros).

Ressalto, por fim, que é fácil fazer discursos em defesa dos dois lados da questão, pois, o meio agrário tem sua história de disparidades, mas, apresenta uma forma de administração que necessita de escala mínima para sobrevivência.

Tanto é assim que a agricultura familiar, tão valorizada pelo grupo MST, não tem escala mínima, o que redunda em uma vida humilde e simples. Chego a dizer que o trabalho rural, em regime familiar, consegue somente promover a sobrevivência, afinal, não há renda suficiente para contratação de mão-de-obra e não é uma vida de riquezas. Muitas pessoas da cidade chamariam essa vida de pobreza...