domingo, 5 de julho de 2009

A semana foi assim


A semana? Passou que nem corisco,

somente e aqui e ali deixando um risco

além do velho céu, hoje quadrado,

pelas naves do cosmo ultrapassado.

Que pretendem os homens: descobrir

um novo mundo, onde se possa rir?

brincar de amor? jogar de ser feliz?

tirar diploma de deus-aprendiz?

(Daqui a pouco o trânsito no espaço

estará de fundir cuca e espinhaço.)

Minha tia mineira não se espanta:

há sempre uma cantiga na garganta:

para saudar o sonho, embora a ruga

da experiência prefira a tartaruga

em seu calmo ficar aqui por perto,

tartarugando no roteiro certo...

É isso a espécie: um revoar aos trancos,

aos gemidos, aos cálculos e arrancos,

entre miséria e ciência, na poesia

da eternidade posta num só dia.

Ninguém entende bem o tal contexto

de que tanto se fala; e Paulo Sexto,

dos bispos a escutar o iroso brado,

chora, talvez, ou se mantém calado?

Eu contesto o contexto, diz a voz

em torno, em cima, até dentro de nós,

e a humanidade, enquanto assim contesta,

do próprio contestar faz uma festa. [...]


in Carlos Drumond de Andrade, Amar se aprende amando.

Em 18 de outubro de 1969.

1 comentários:

Anônimo disse...

Obrigada, dr. pelas perólas com que o ser nos agracia.
abraços