O Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, Caneca, um dos convidados esquecidos para o casamento do ano no Jardim do Fórum, mártir da Confederação do Equador, capitão de guerrilhas, fundador e editor do Typhis Pernambucano, arcabuzado em 1825 à mando do Imperador, aceitando o pedido de desculpas de Têmis, solicitou a publicação da fala que lhe emprestou João Cabral de Melo Neto, como se fosse a sua própria fala, no poema para vozes o Auto do Frade, tendo como epígrafe um trecho do Manifesto da Confederação do Equador.
O pedido foi prontamente deferido e ora cumprido:
AUTO DO FRADE
"As constituições, as leis e todas as instituições humanas são feitas para os povos e não os povos para elas." (Manifesto da Confederação do Equador)
Acordo fora de mim
como há tempos não fazia.
Acordo claro, te todo,
acordo com toda a vida,
com todos cinco sentidos
e sobretudo com a vista
que dentro dessa prisão
para mim não existia.
Acordo fora de mim:
como fora nada eu via,
ficava dentro de mim
Como vida apodrecida.
Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é recordar-se
ao que em nosso redor gira.
Mesmo quando alguém acorda
para um fiapo de vida,
como o que, tanto aparato,
que me cerca me anuncia:
esse bosque de espingardas
mudas, mas logo assassinas,
sempre à espera dessa voz
que autorize o que é sua sina,
esses padres que as invejam
por serem mais efetivas
que os sermões que passam largo
dos infernos que anunciam.
Essas coisas ao redor
sim me acordam para a vida,
embora somente um fio
me reste de vida e dia.
Essas coisas me situam
e também me dão saída;
ao vê-las me vejo nelas,
me completam, convividas.
Não é o inerte acordar
Na cela negra e vazia:
lá não podia dizer
quando velava ou dormia.
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