sábado, 25 de julho de 2009

Editor do Typhis aceita desculpas de Têmis


O Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, Caneca, um dos convidados esquecidos para o casamento do ano no Jardim do Fórum, mártir da Confederação do Equador, capitão de guerrilhas, fundador e editor do Typhis Pernambucano, arcabuzado em 1825 à mando do Imperador, aceitando o pedido de desculpas de Têmis, solicitou a publicação da fala que lhe emprestou João Cabral de Melo Neto, como se fosse a sua própria fala, no poema para vozes o Auto do Frade, tendo como epígrafe um trecho do Manifesto da Confederação do Equador.

O pedido foi prontamente deferido e ora cumprido:


AUTO DO FRADE


"As constituições, as leis e todas as instituições humanas são feitas para os povos e não os povos para elas." (Manifesto da Confederação do Equador)


Acordo fora de mim

como há tempos não fazia.

Acordo claro, te todo,

acordo com toda a vida,

com todos cinco sentidos

e sobretudo com a vista

que dentro dessa prisão

para mim não existia.

Acordo fora de mim:

como fora nada eu via,

ficava dentro de mim

Como vida apodrecida.

Acordar não é de dentro,

acordar é ter saída.

Acordar é recordar-se

ao que em nosso redor gira.

Mesmo quando alguém acorda

para um fiapo de vida,

como o que, tanto aparato,

que me cerca me anuncia:

esse bosque de espingardas

mudas, mas logo assassinas,

sempre à espera dessa voz

que autorize o que é sua sina,

esses padres que as invejam

por serem mais efetivas

que os sermões que passam largo

dos infernos que anunciam.

Essas coisas ao redor

sim me acordam para a vida,

embora somente um fio

me reste de vida e dia.

Essas coisas me situam

e também me dão saída;

ao vê-las me vejo nelas,

me completam, convividas.

Não é o inerte acordar

Na cela negra e vazia:

lá não podia dizer

quando velava ou dormia.


0 comentários: