Não sei o que terá acontecido com a espécie humana.
Esta ausência de pêlos... Para os outros mamíferos a nossa nudez pode parecer repugnante como, para nós, a nudez dos vermes.
E, depois, a nossa verticalidade é antinatural. Estas mãos pendendo, inúteis, são ridículas como as dos cangurus sentados.
Se fôssemos veludos e quadrúpedes, ganharíamos muito em beleza e, sem a atual tendência à adiposidade, poderíamos ser quase tão belos como cavalos.
Felizmente, inventou-se a tempo o vestuário, que, pela variedade e beleza (a par de sua utilidade em vista do fatal desabrigo em que ficamos) redime um pouco esta degenerescência.
E acontece que inventamos também o mobiliário, os utensílios: no caso vigente, esta cadeira em que escrevo sentado a esta mesa, à luz artificial desta lâmpada.
E ainda este ato de escrever, isto é, de expressar-me por meio de sinais gráficos, é mais uma prova da nossa artificialidade.
Mas quem foi que disse que eu estou amesquinhando a espécie? Quero apenas significar que, em face das suas miseráveis contingências, o homem criou, além do mundo natural, um mundo artificial, um mundo todo seu, uma segunda natureza, enfim.
O homem, esse mascarado...
in Mário Quintana – Caderno H
5 comentários:
De fato é o homem, não conheço outro, o único animal que não demonstra quando vai insurgir-se diante das vicissitudes. É um mascarado corriqueiro. O animais peçonhentos sempre avisam de alguma forma, não me toquem sou brabo. Os felinos mostram que têm dentes. Até os vermes se ocultam e só causam o mal quando alguns desavisados chegam ao seu habitat, assim como os microorganismos. Mas o homem, esse mascarado, será que é assim por ser o único que tem a consciência da morte???
...digo, microrganismos.
Caro Dr. Gerivaldo,
Há quem diga que não demora muito e vamos dar um salto e nos afastar mais ainda da natureza e tomar para a humanidade o controle da evolução da espécie, até aqui seguindo o pressuposto de Darwin. Talvez em cinqüenta ou cem anos, talvez um pouco mais. A começar com nanotecnologia para reparação de órgãos internos, manipulação do DNA humano e implantes cibernéticos em partes variadas do corpo, em especial no cérebro, o que resultará em aumento significativo da capacidade cognitiva, além de nos manter uns ligados aos outros, como computadores numa rede. Em havendo de fato sucesso na reparação de órgãos, acontecerá o que especialistas denominam de "singularidade", a partir da qual o ser humano deixa de ser simplesmente um animal mortal, transformado em misto de humano e máquina, mais ainda, imortal. É mais que uma máscara. Se acontecer, será um salto qualitativo na evolução da espécie.
Uma espécie aprimorada artificalmente significa um aconteceimento anti-natural? Talvez não. Talvez seja o caminho natural mesmo, não somente uma possibilidade, mas um imperativo da evolução da inteligência.
Um abraço.
O texto é prosa poética, Marco Antônio. E, já dizia Rubem Braga, "a poesia é necessária"...
Ora, anônimo, e quem disse que não é?
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