sábado, 4 de julho de 2009

Decadência e esplendor da espécie

Não sei o que terá acontecido com a espécie humana.

Esta ausência de pêlos... Para os outros mamíferos a nossa nudez pode parecer repugnante como, para nós, a nudez dos vermes.

E, depois, a nossa verticalidade é antinatural. Estas mãos pendendo, inúteis, são ridículas como as dos cangurus sentados.

Se fôssemos veludos e quadrúpedes, ganharíamos muito em beleza e, sem a atual tendência à adiposidade, poderíamos ser quase tão belos como cavalos.

Felizmente, inventou-se a tempo o vestuário, que, pela variedade e beleza (a par de sua utilidade em vista do fatal desabrigo em que ficamos) redime um pouco esta degenerescência.

E acontece que inventamos também o mobiliário, os utensílios: no caso vigente, esta cadeira em que escrevo sentado a esta mesa, à luz artificial desta lâmpada.

E ainda este ato de escrever, isto é, de expressar-me por meio de sinais gráficos, é mais uma prova da nossa artificialidade.

Mas quem foi que disse que eu estou amesquinhando a espécie? Quero apenas significar que, em face das suas miseráveis contingências, o homem criou, além do mundo natural, um mundo artificial, um mundo todo seu, uma segunda natureza, enfim.

O homem, esse mascarado...

in Mário Quintana – Caderno H

5 comentários:

disse...

De fato é o homem, não conheço outro, o único animal que não demonstra quando vai insurgir-se diante das vicissitudes. É um mascarado corriqueiro. O animais peçonhentos sempre avisam de alguma forma, não me toquem sou brabo. Os felinos mostram que têm dentes. Até os vermes se ocultam e só causam o mal quando alguns desavisados chegam ao seu habitat, assim como os microorganismos. Mas o homem, esse mascarado, será que é assim por ser o único que tem a consciência da morte???

disse...

...digo, microrganismos.

MARCO ANTONIO disse...

Caro Dr. Gerivaldo,

Há quem diga que não demora muito e vamos dar um salto e nos afastar mais ainda da natureza e tomar para a humanidade o controle da evolução da espécie, até aqui seguindo o pressuposto de Darwin. Talvez em cinqüenta ou cem anos, talvez um pouco mais. A começar com nanotecnologia para reparação de órgãos internos, manipulação do DNA humano e implantes cibernéticos em partes variadas do corpo, em especial no cérebro, o que resultará em aumento significativo da capacidade cognitiva, além de nos manter uns ligados aos outros, como computadores numa rede. Em havendo de fato sucesso na reparação de órgãos, acontecerá o que especialistas denominam de "singularidade", a partir da qual o ser humano deixa de ser simplesmente um animal mortal, transformado em misto de humano e máquina, mais ainda, imortal. É mais que uma máscara. Se acontecer, será um salto qualitativo na evolução da espécie.

Uma espécie aprimorada artificalmente significa um aconteceimento anti-natural? Talvez não. Talvez seja o caminho natural mesmo, não somente uma possibilidade, mas um imperativo da evolução da inteligência.

Um abraço.

Anônimo disse...

O texto é prosa poética, Marco Antônio. E, já dizia Rubem Braga, "a poesia é necessária"...

MARCO ANTONIO disse...

Ora, anônimo, e quem disse que não é?