sexta-feira, 10 de julho de 2009

Crônica da semana: o Jardim do Fórum

O JARDIM DO FÓRUM, UM PROJETO

Gerivaldo Alves Neiva *

Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele (o sábio) colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve.

Epicuro, Carta sobre a felicidade a Meneceu.

O pátio do fórum de Coité está precisando de uma reforma. Estive conversando com o administrador sobre este assunto a semana passada e decidimos aproveitar melhor o espaço. Quem sabe um pequeno palco para apresentações, uma parede branca para projeção e retomar o projeto Cine Fórum?

Na noite deste dia, enquanto o sono não chegava, apanhei aleatoriamente algum livro na estante e me caiu nas mãos uma pequena brochura sobre história da filosofia, dessas historiografias tradicionais mesmo. Abri qualquer página e li um pouco sobre o Jardim de Epicuro, mas o sono chegou logo...

Esta mistura de reforma do pátio do fórum com o Jardim de Epicuro foi retomada em sonho. Pois bem, sonhei que o pátio do fórum tinha se transformado em um espaço chamado O Jardim do Fórum e acontecia de tudo no local: poesia, música, dança, cinema, teatro, exposições, filosofia, conciliações, mediações, debates, reuniões e festas.

Tal qual o Jardim de Epicuro, o Jardim do Fórum também não era um local só de diversão, mas um local de discussões acaloradas sobre o Direito e a Justiça, porém alegres. O fundamento de todas as discussões, como também acontecia no Jardim de Epicuro, tinha sempre como base a vida cotidiana e a busca da felicidade. Nada de discussões estéreis, meramente teóricas e desvinculadas da realidade das pessoas. Sobretudo, eram discussões democráticas, alegres e acessíveis a todos.

Qualquer pessoa também podia passear no Jardim do Fórum. Não havia discriminação de qualquer natureza e, exatamente por ser assim, era o lugar preferido de todas as espécies de excluídos. Portanto, prostitutas, homossexuais e outros marginalizados se sentiam absolutamente confortáveis no Jardim.

No sonho que sonhei, estranhamente, estava acontecendo uma festa no Jardim do Fórum e não me foi informado, a princípio, o motivo daquela festa. As pessoas estavam felizes, dançavam, conversam e bebiam sem moderação. Lei seca e bafômetro? Nem pensar...

Têmis, a Deusa, provocante e linda, transitava pelo Jardim como se não pisasse o chão. Não tinha os olhos vendados, não trazia balança, nem espada e passeava alegremente entre as pessoas. Era de uma beleza estonteante. Vestia um vestido branco, fino, quase transparente, um decote bem generoso, colo branco quase rosa, cabelos castanhos encaracolados e ao vento, sorriso provocante e cativante... uma Deusa de verdade, em carne e osso.

Sentado e parecendo distante, em Atenas, na ilha de Lesbos ou em Lâmpsaco, Epicuro, feliz da vida, observava atentamente e não desgrudava os olhos da bela Têmis. Ao seu lado, tomando nota de tudo, Diógenes Laércio e outros epicuristas e hedonistas de todas as épocas, inclusive o contemporâneo Michel Onfray. De passagem, ouvi Epicuro filosofando e Diógenes anotando: “que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz.” Na verdade, Epicuro estava ditando a Diógenes uma carta a ser enviada a Meneceu. Em sonho, tudo é possível.

Em outra mesa, tomando um cafezinho, Orlando Gomes, Clóvis Bevilácqua, Pontes de Miranda, Teixeira de Freitas, Calmon de Passos e Cosme de Farias – um famoso rábula baiano – em gargalhadas escandalosas, debatiam sobre a autonomia privada, direitos de personalidade, prazer e obesidade... Tudo a ver com Epicurismo e Hedonismo.

Um galera mais jovem, um pouco mais à esquerda, passando uma cuia de chimarrão, João Batista Herkenhoff, Amilton Bueno, Délio Rosa, Rui Portanova e Rui Rosado de Aguiar trocavam figurinhas sobre as experiências da magistratura... Ouvindo atentamente, pude reconhecer ainda Luiz Edson Fachin, Lotufo, Leoni, Tartuce, Simão, Lucas, Penteado, Mazzei, Catalan, Bernardes, Roxana, Fredie, Ricardo Maurício, Cristiano, Pablo Stolze, Andréa, Mônica, Eroulths, Edvaldo Brito e outros tantos que não reconheci no sonho.

Em uma mesa mais ao centro, cada um com sua Constituição na mão – e uma taça de vinho na outra, Paulo Bonavides, José Afonso, Luis Roberto Barroso, Ingo Sarlet e Willis Santiago divagavam sobre a teoria da constituição. Ao lado deles, havia um jovem, que ouvi sendo chamado de Dirley, tomando notas sem parar.

Em outra parte do jardim, Drumond e Bandeira, com a galera-maluco-beleza da cidade, declamavam poesias. Não havia muita platéia ouvindo, mas parece que para eles o mais importante era declamar. A platéia era apenas um detalhe. A maior satisfação era simplesmente declamar. Os malucos da cidade estavam mais malucos do que de costume.

Na mesa mais alegre da festa, Luis Alberto Warat, Leonoel Severo Rocha e Alexandre Morais da Rosa, rodeados de prostitutas, malandros e outros heróis, promoviam um animado café filosófico... Também nesta mesa, um pouco mais comportado, Lenio Streck tomava algumas notas, mas não concordava com as loucuras propostas por Warat.

A reclamação de alguns em relação à fumaça tinha razão de ser. Pois bem, Marx, Engels, Proudhon, Freud, Lenin, Trotsky e Gramsci, este último bem acomodado em uma cadeira por conta do problema na coluna, fumavam fedorentos charutos e discutiam, em fenomenal algazarra, em várias línguas, sobre o Estado, sociedade civil, ideologia, revolução, propriedade, psicanálise, cultura e intelectuais... Metido que só ele, Marx se gabava a todo instante de ter escrito sua tese de doutorado sobre a diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro, desfazendo equívocos sobre o pensamento do filósofo do Jardim.

Havia também uma mesa com vários convidados estrangeiros: Habermas, Dworkin, Rawls, Cappelletti, Canotilho, Alexy, Bobbio, Boaventura, Zaffaroni, Miaille, Duguit, Perelman, Ihering, Luhmann, Foucault, Ferrajoli, Grossi, Barcellona, Rodotá, Pachukanis, Stucka, Hesse, Lassalle, Maffesoli, Baudrillard, Verdú, Deleuze, Morin, Zizek, Perlingieri, Mészáros e outros que não reconheci.

De forma bem provinciana, as mulheres tricotavam em uma mesa em separado e pude reconhecer Judith Martins-Costa, Teresa Negreiros, Maria Celina, Gizelda Hironaka, Ana Paula, Marilena Cahuí e Hannah Arendt conversando animadamente sobre o vestido de Têmis.

Para a posteridade, gravando tudo, Glauber Rocha prometia um filme fantástico sobre o evento histórico; Portinari registrava tudo em uma tela e Luiz Gonzaga dividia outro pedaço do Jardim com a banda de pífanos de Caruaru.

Dentre todos, havia apenas um senhor de paletó e gravata, sisudo, tomando chá, alheio a tudo que acontecia, concentrado e pensativo... Era Kelsen fazendo anotações para sua “Teoria pura do Direito.”

Recobrado do susto, depois de perguntar o que se passava, fui informado que estava acontecendo, para desespero de aristotélicos e platônicos, a festa do casamento de Têmis com Epicuro, apesar dos protestos visivelmente ciumentos de Warat e do Marquês de Sade, que tinha chegado de última hora.

A cerimônia foi presidida por Dionísio, o Baco em pessoa, em raro momento de sobriedade, rodeado de bacantes desvairadas e visivelmente embriagadas. Depois da cerimônia, uma festança regada a muito vinho e cerveja... Agora fiquei sem saber se aqui é começo ou o final do sonho...

O certo é que acordei atrasado para mais um dia de trabalho, para a rotina diária de um magistrado. Chegando ao fórum, ao cruzar o pátio, fechei um pouco os olhos para relembrar o sonho, mas não podia me atrasar mais: partes e advogados me esperavam para uma audiência, a mesa estava repleta de autos para despachar e sentenciar, mil relatórios para o CNJ e metas a cumprir. Somente para isto serve um Juiz que não sonha...

Na verdade, como escreveu Epicuro a Meneceu, “nunca devemos nos esquecer que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.”

Da janela da sala de audiência, na certeza de que o futuro nasce no presente, continuei a sonhar olhando para o Jardim do Fórum!

Salvador, 04 de julho de 2009

* Juiz de Direito em Conceição do Coité – Ba.

PS. Têmis e Epicuro pedem desculpas aos amig@s que não foram lembrados, incluindo Bakunin, Stédile, Darcy Ribeiro, Milton Santos, Manoel de Barros, Cora Coralina, Torquato, Cazuza, Pagu, Oswald, Macunaíma, Maiakovsky, João Cabral, Patativa, Castro Alves, Olga, Dom Hélder, Francisco, Clara, Casaldáliga, Frei Caneca, Cervantes, Zumbi, Nabuco, Dostoevsky, Baudelaire, Antígona, Faoro, Chatô, Dallari, Paulo Freire, Roberto Lyra, Florestan, Apolônio, Nietzsche, Eros Grau, Carlos Brito, Joaquim Barbosa, Martí, Bolívar, Túpac Amaru, Che Guevara...


17 comentários:

Rogério Lima. disse...

... Francesco Carnelutti, Caetano Veloso, recitando LÍNGUA, Chico Buarque declamando CONSTRUÇÃO,João Bosco, Ives Gandra Martins com seu irmão, talentoso pianista, Damásio, Paulo Queiroz, Edgar Morin, Cristóvam Buarque, Gofredo Telles Junior, Tércio Ferraz Junior e tantos outros que não deu para visualizar porque porque o sonhador despertou.
O primor de crônica, mestre Gerivaldo. Os leitores, assim como, os homenageados ficarão agradecidos por especial presente. Para mim, arremete-me aos sonhos que deveras precisamos ter. Importante mesmo o significado desta crônica. Do que nos adiante ser juiz, advogado, promotor público, procurador, doutrinador ou jurista e se não possuirmos a capacidade de sonhar. E ai reside a diferença entre o sonho e o pesadelo. O primeiro traduz como gostaríamos que a vida fosse e este como de fato ela é.

Rogério Lima de Oliveira
Estudante de Direito.

reliana disse...

Belissima cronica estimado Gerivaldo. Fico feliz em saber que apesar de ainda está ingressando no quarto degrau da caminhada academica do Direito já tenho grandes nomes na minha literatura e chegarei lá com fé e força.

DELBO AUGUSTO disse...

Não sei nem como discrever a beleza dessa crôniaca, magnifica. Depois dessa leitura sinto-me completamente disposto e bem humorado para encarar o dia-a-dia.

Parabéns Doutor.

Laurentino louro disse...

Impressionante!O homem é muitíssimo Culto. Fiquei atordoado com a menção de tantas personagens da História Humana. Parabéns! Sua cabeça é um "jardim" de muito SABER.

Anônimo disse...

Ao unir em matrimonio Têmis e Epicuro, intuo a revelação poética de uma essência, de forma tão bela e culta.
Obrigada por emprestar a sua voz à expressão de uma voz que não se cala.

Cloves dos Santos Araújo disse...

Meu caro Gerivaldo,
Gostaria de estar ali por perto para assistir ao debate entre os convidados.Certamente seria de grande aprendizado, sobretudo pela diversidade de leituras do mundo, das ciencias, do direito e da vida na sua totalidade. Continue sonhando,apesar da rotina forense.
Parabéns!!!
Cloves

Cloves dos Santos Araújo disse...

Meu caro Gerivaldo,
Gostaria de estar ali por perto para assistir ao debate entre os convidados.Certamente seria de grande aprendizado, sobretudo pela diversidade de leituras do mundo, das ciencias, do direito e da vida na sua totalidade. Continue sonhando,apesar da rotina forense.
Parabéns!!!
Cloves

Joseline Barros disse...

De verdade: Sonho cultural...! Mas das diversas mentes filosóficas que ali estavam, ao mencionar o tão pesimista Friedrich Nietzche, pensei: pq D. ERIALDOÃOPERMITIU NESSE SONHO TÃO BEM SONHADO a aprticipação (mesmo que simplória) em razão do seu mau humor e pessimismo deste com o seu amigo Artur Schopenhauer? Imagine só essas duas criaturas reunidas neste Jardim de Idéias e ideais concretos? Poderia ele retornar às boas com KANT? Agora sou eu que fico a sonhar nesse reencontro...E Augusto dos Anjos?? Já imaginou nas teorias que poderiam surgir dessa festa nesse jardim? Ai, Ai... Bom, apesar de estar numa fase intimista, sentaria ao lado desses grandes pensadores nesse tal jardim, e ainda creio q eles iriam gostar de mim: coiteense, cheia de vontade - mesmo com toda dor q ela acarreta - vontade esta de vencer...! Adorei este sonho, excelência, Parabéns! Creio q meu primo, THONGA, IRÁ AMAR! Abraços, Joseline Barros

Thonga disse...

realmente... amei!
talvez Nietzsche tenha sido convidado, mas não fora por intolerância aos efeitos dos derivados etílicos kkkkkkkk porém ele deixaria uma carta com uma recomendação máxima: Carpe diem!
seu amigo Wagner também não faltaria...
e o contemporâneo Rubem Alves seria também ótima presença!
abraço

Nilza disse...

Olá... gostei de seu blog... achei a crônica muito legal...
Fiquei muito feliz... Precisamos transformar outros jardins no Jardim do Fórum.
bjos

Nilza

Adauto disse...

Excelente texto Dr Gerivaldo. Sei que não a colocou, pois são tantoas pessoas que o Jardim pode não caber. No entanto, tenho certeza que Cecília Meireles estavam lá em um cantinho contemplando tudo.
Feliz do homem que sonha!
Parabens
Adauto Sena

Josy disse...

Incrível! acabei de ler, simplesmente maravilhosa, precisei ficar em casa e revirar os enunciados sobre a Justiça Bahiana para chegar a esta crônica, pois, enquanto lia,era como se dormitasse, e revivesse cada momento, no jardim do Fórum onde moro, pois é lá que trabalho, e gostaria que assim fosse, sem sentir desejo de acordar, e que tudo fosse real, mas, infelizmente era sonho, e foi lindo enquanto durou. Parabéns excelência, essa permanecerá nos anais da história.

Anônimo disse...

Extremely funny video with a social message. Ghuggi must get a national award for his efforts.

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Anônimo disse...

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OS BONS ESCRITOS (meus e dos amigos) disse...

Meu ilustre Magistrado,

Ainda bem que os beócios dos podres poderes não incluíram os SONHOS no rol dos elementos sujeitos ao pagamento de impostos.

Com um SONHO desse envergadura, seria altamente taxado e com certeza seria seu nome incluído na dívida ativa, em razão de que os homens justos e perfeitos não dispor de grande fortunas ou metais.

Parabéns!!! Sou cada dia seu admirador maior.

Livia disse...

Muito gostosa de ser lida sua crônica. Seu sonho. Sonhar é viver mais leve, é o esvaziar da pressão. Uma delícia. Seria um acontecimento maravilhoso a construção dum jardim no Fórum, acho ele muito cinza, sem vida. E seria mais gostoso ainda se os demais acontecimentos de arte acontecessem! Apoio esta idéia! E Thonga, Rubem Alves seria um doce delírio nesse sonho... =)

Professora Raquel Tinoco disse...

Demais, simplesmente demais! Adorei. Pena não ter visto e nem sei se verei, jardins de fóruns como esse. Abraços