Quando eu era criança, estudante no sertão da Bahia, tinha grande dificuldade para entender a parte da aula que tratava de mortalidade infantil. A professora tentou me explicar várias vezes, mas minha cabeça não conseguia imaginar como a professora podia saber quantas crianças morreriam com menos de um ano de idade, como menos de dois anos... dentre mil nascidas.
A situação se complicava mais ainda quando a professora passava a explicar as causas das mortes: sarampo, catapora, difteria, disenteria e tantos outros males que afligiam as crianças do sertão.
A minha lógica era a seguinte: primeiro, a professora não poderia saber, de antemão, quantas crianças iriam morrer dentre aquelas mil nascidas e, segundo, se já se sabia a causa da morte com antecedência, então seria fácil evitá-las. Lógico, né? Mas a professora não entedia minha lógica e nem eu entendia a lógica dela.
O resultado é que são passados mais de 30 anos e eu ainda não consegui entender esta lógica de já se saber antes quantas pessoas irão morrer de determinada causa e não se evitar essas mortes.
Este sentimento foi renovado esta semana com a notícia de que “o risco de ser assassinado no Brasil é 2,6 vezes maior entre adolescentes negros do que entre brancos.” Confira...
O estudo foi realizado pelo Observatório de Favelas, pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Clique aqui para baixar o relatório na íntegra.
Não tenho mais minha professora para perguntar, mas continuo sem entender.
Ora, como é possível se saber, com antecedência, até mesmo a probabilidade de ser assassinado entre adolescentes brancos e adolescentes negros?
Para complicar ainda mais minha cabeça, como é possível se saber, com antecedência, que é 2,6 vezes maior a probabilidade de ser assassinado um adolescente negro?
De outro lado, sei que alguns vão pensar que então teremos mais chance de nos livrarmos dos nossos “inimigos residuais”, como diz Zaffaroni, ou seja, dos delinqüentes comuns, dos adolescentes pobres e negros da periferia das grandes cidades, que tem 2,6 mais chances de serem assassinados do que os adolescentes brancos.
Pois é, minha professora, não sou mais um estudante com dificuldades de aprender certas lições. Cresci e hoje sou um Juiz de Direito, mas continuo sem entender por que os adultos sabem, com antecedência, quantas crianças e adolescentes vão morrer, inclusive por cor, e nada fazem para impedir.
No final, como diz o cantor Lobão, na letra da música Revanche:
Eu sei que já faz muito tempo que a gente volta aos princípios
Tentando acertar o passo usando mil artifícios
Mas sempre alguém tenta um salto, e a gente é que paga por isso, oh!
Fugimos prás grandes cidades, bichos do mato em busca do mito
De uma nova sociedade, escravos de um novo rito
Mas se tudo deu errado, quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?
O Direito Penal deveria ter uma resposta para esta pergunta! Ou não?
5 comentários:
O problema com as estatísticas, como dizia Roberto Campos, é que elas mostram tudo, menos o essencial.
Caro Gerivaldo
A dificuldade é que ainda deificamos a Razão Lógica como a única entidade divina capaz de prever tudo para que a norma kelseniana resolva tudo.
Faço coro com você: Será que o SER HUMANO IMPERFEITO, quando cria instrumentos como a estatística, PODE AINDA PREVER ALGUMA COISA?
As estatísticas podem sinalizar: precisamos mudar. Mas, alguém muda?
Pois é, não dá pra entender.
Mas toda vez que leio coisas do gênero, sempre me recordo do texto de Khalil Gibran em "O profeta":
"E assim como uma única folha não fica amarela sem o conhecimento silencioso da árvore inteira, o malfeitor não pode fazer o mal sem a vontade oculta de todos vós."
e eu me recordo de um trecho de música da banda Catedral:
Vamos acabar com a hipocrisia
E aprender a dividir o pão
Viver com a verdade sem mentiras
Se resolver e esquecer a solidão
Varrer as ruas de toda maldade
Sonhar a cada instante
Esquecer a realidade
Construiremos uma nova realidade
Com igualdade e liberdade
Não vamos construir mais templos ricos
E deixar crianças morrerem de fome
Se preocupar com ouro e granito
Enquento o mais próximo não come
O maior pecado cometemos todo o dia
O da inconveniência e da indecência
De fazer nada vezes nada vezes nada vezes nada vezes nada vezes nada...
...vamos decretar a revolução!
é preciso que haja a revolução dentro de nós. Que os nossos verbos se façam carne e habitem no meio dos números desta sociedade que precisa re-evoluir. Não dá para compreender como a sociedade involui diante de uma era de evolução da informação.
não seja por menos que Albino Forjaz tenha escrito o livro considerado o maior monstro moral de todos os tempos, Palavras Cínicas. Ele, no auge de sua mórbida sinceridade, escreveu:
"A vida, apesar de todas as melhorias que sofreu nos últimos cem anos, não deixou de ser trabalhosa, negativa e cruelmente tediosa. Nervos á flor da pele, atentados, rebeliões, moléstias, penúria, calamidades, injustiças sociais e outras tantas misérias ainda dão o ar da graça, mesmo no início deste nosso terceiro milênio. Quando deixaremos de nos matar em nome da ganância? Quando reconheceremos nossa igualdade, nossa ínfima condição perante nós mesmos? O homem não aprende com seus erros. Ignora o passado, mesmo sabendo que o fazendo estará sempre condenado a repeti-lo. Não existe Amor (ou antes, Caridade) apenas uma instituição com esse nome, a qual usam para angariar fundos cujo real fim é sempre um mistério. A Paz é algo negociado como carne, e carne é a moeda que usam para negocia-la. Os pobres são um incômodo que costumam varrer para debaixo do tapete às vezes literalmente. Todos estão interessados no seu próximo mas em como ele poderá se tornar lucrativo, quando não um mero estorvo.
A ignorância é cultivada como um estado interessante para as massas afinal, um povo idiota é facilmente manipulado. Políticos corruptos garantem a solução dos problemas sociais durante o período eleitoral sumindo logo depois. Quando reaparecem, é porque estão envolvidos em desvios de verba, superfaturamentos, maracutaias e coisas do tipo. As igrejas hoje às centenas de milhares continuam prometendo o céu sem demonstrar como seria possível que um tal playground post mortem realmente possa existir. Não seria justo que criassem uma filial aqui na Terra, para que os fiéis fossem já se acostumando com o Paraíso? Mas nada disso é feito. Talentos são ignorados o talento era apenas uma moeda de prata no tempo da dominação romana, não é mesmo? Nada de granjear subjetividades tem alguma grana aí com você? Só o dinheiro é adorável por aqui! E assim todo o potencial de uma pessoa é reduzido ao que ela pode obter comprando."
concluo com uma indagação de Fred Teixeira: "Se não posso viver como quero, como posso querer viver?... Será que tudo é motivo para arrancarem o nosso couro? Será que algum dia o povo aprenderá a dizer CHEGA? Espero que ainda nessa minha encarnação."
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