sábado, 18 de julho de 2009

Cantiga quase de roda

Encontrei esta bela foto em http://www.flickr.com/photos/fabio_dsp/


CANTIGA QUASE DE RODA


Na roda do mundo

lá vai o menino.

O mundo é tão grande

e os homens tão sós.

De pena, o menino

começa a cantar.

(cantigas afastam

as coisas escuras.)

Mãos dadas aos homens,

lá vai o menino,

na roda da vida

rodando e cantando.

A seu lado, há muitos

que cantam também:

cantigas de escárnio

e de maldizer.

Mas como ele sabe

que os homens, embora

se façam de fortes,

se façam de grandes,

no fundo carecem

de aurora e de infância

- então ele canta

cantigas de roda

e às vezes inventa

algumas – mas sempre

de amor ou

de amigo.


Cantigas que tornem

a vida mais doce

e mais brando o peso

das sombras que o tempo

derrama, derrama

na frente dos homens.

Na roda do mundo

lá vai o menino,

rodando e cantando

seu canto de infância.


Pois sabe que os homens

embora se façam

de graves, de fortes,

no fundo carecem

de claras cantigas

- senão ficam ocos,

Senão endoidecem.


E então se segue

cantando de bosques,

de rosas e de anjos,

de anéis e cirandas,

de nuvens e pássaros,

de sanchas senhoras,

cobertas de prata,

de barcas celestes

caídas no mar.


Na roda do mundo

mãos dadas aos homens,

lá vai o menino

rodando e cantando

cantigas que façam

o mundo mais manso,

cantigas que façam

a vida mais doce

cantigas que façam

os homens mais crianças.


EPITÁFIO


O canto desse menino

talvez tenha sido em vão.

Mas ele fez o que pôde.

Fez sobretudo o que sempre

Lhe mandava o coração.


Thiago de Mello

2 comentários:

Anônimo disse...

A criança que mora em mim agradece muito à criança que mora em ti, pelo lindo poema.
Bela fotografia

Fábio disse...

Ótimo texto, fico feliz por ter escolhido minha fotografia. Tenha uma boa semana!