domingo, 28 de junho de 2009

Homens, água, vinho, juízes e o Direito

Cora Coralina dividiu os homens em água, vinho e vinagre.

Assim também vejo a magistratura e o Direito que praticamos...


OS HOMENS


Em água e vinho se definem os homens.


Homem água. É aquele fácil e comunicativo.

Corrente, abordável, servidor e humano.

Aberto a um pedido, a um favor,

ajuda em hora difícil de um amigo, mesmo estranho.

Dá o que tem

- boa vontade constante, mesmo dinheiro, se o tem.

Não espera restituição nem recompensa.


É como água corrente e ofertante,

encontradiça nos descampados de uma viagem.

Despoluída, límpida e mansa.

Serve a animais e vegetais.

Vai levada a engenhos domésticos e regueiras, represas e açudes.

Aproveitada, não diminui seu valor, nem cobra preço.

Conspurcada seja, se alimpa pela graça de Deus

que assim a fez, servindo sempre

e à sua semelhança fez certos homens que encontramos na vida

- os Bons da Terra – os Mansos de Coração.

Água pura da humanidade.


Há também, lado-a-lado, o homem vinho.

Fechados nos seus valores inegáveis e nobreza reconhecida.

Arrolhado seu espírito de conteúdo excelente em todos os sentidos.

Resguardados seus méritos indiscutíveis.

Oferecidos em pequenos cálices de cristal a amigos

e visitantes excelsos, privilegiados.

Não abordável, nem fácil sua confiança.

Correto. Lacrado.

Tem lugar marcado na sociedade humana.

Rigoroso.

Não se deixa conduzir- conduz.

Não improvisa – estuda, comprova.

Não aceita que o golpeiam,

defende-se antecipadamente.

Metódico, estudioso, ciente.


Há de permeio o homem vinagre,

uma réstia deles,

mas com esses não vamos perder espaço.

Há lugar na vida para todos.

Em qual dos grupos se julga situado você, leitor amigo?

In Cora Coralina, Vintém de cobre – meias confissões de Aninha.


Um comentário:

Bruno disse...

Complementando a idéia do texto, poderíamos definir o "homem água" como sendo o "homem generoso" e o "homem vinho" como sendo o "homem egoísta".

O homem generoso seria então aquele homem que antes de pensar em si mesmo, pensa no outro. Pensa no outro não como um ser ignóbil, mas como SER HUMANO, dotado de razão e caráter, possuidor dos mesmos direitos e deveres.

Pensa na satisfação e felicidade do outro antes mesmo da sua. Não se preocupa em receber, apenas de dar.

Já com relação ao egoísta, o mundo pertence somente a ele. É seu e de mais ninguém. Preocupa-se em receber e não em dar. Não importa o que acontece com o outro, não é problema seu.

Mas, sabemos que ser generoso ou egoísta em demasia não seria a melhor opção. Qual seria então o meio termo entre a generosidade e o egoísmo?

O HOMEM JUSTO!

Aquele que preocupa-se com o outro, sabe a hora de dar e sabe a hora de receber.

O que falta, portanto, é o HOMEM JUSTO, livre de interesses pessoais e particulares, interessado em combater as injustiças e as ilegalidades que ainda fazem muitas vítimas nos dias de hoje.

Seria uma espécie de "homem vinagre".

Aristóteles, no livro V de sua obra "Ética a Nicômaco", define justiça como uma:

"disposição de caráter que torna as pessoas propensas a fazer o que é justo, que as faz agir justamente e a desejar o que é justo".

Quais seriam então as características do HOMEM JUSTO?

O agir justo é o esperado para o cidadão justo. No entanto, nem todo homem que age justamente é um cidadão justo, e ainda, nem todo aquele que comete um ato injusto é um cidadão injusto. Daí que a justiça identificada como qualidade no homem não é apenas definida pela totalidade de suas ações. Existe um certo valor moral que acompanha as atitudes do homem justo, e este reside também nas disposições internas para a ação.

De fato a justiça é uma disposição de caráter presente na pessoa.

De acordo com Aristóteles, o valor moral de uma ação só pode residir na voluntariedade da mesma. Quando uma pessoa age por ignorância ou ainda quando é obrigado por outrem a agir de determinada maneira, não podemos dizer que sua ação foi voluntária.

Para que alguém possa ser responsabilizado por suas atitudes, é necessário que a pessoa saiba o que está fazendo.

Isto envolve o conhecimento dos motivos, dos meios e das conseqüências da ação. Age voluntariamente aquele que, conhecendo isto, opta (deliberadamente) por agir.

Pessoas agindo de maneira involuntária não geram justiça ou injustiça senão por acidente, não podendo-se taxa-las de justas ou injustas uma vez que não agem de acordo com suas disposições.

Já o homem justo pretende praticar a justiça, pois possui uma disposição interna que o leva a deseja-la.

Portanto, o HOMEM JUSTO é aquele que busca voluntariamente praticar as ações ditas justas, sendo ao mesmo tempo, generoso e egoísta; sabe ponderar as mais adversas situações da vida, trantado com exceção os casos excepcionais e com urgência as questões emergenciais, e o mais importante, age livre de qualquer interesse privado ou particular.