
Bruno é o personagem real da sentença “A Crônica de um crime anunciado” (clique aqui para ler). Por enquanto, ninguém lhe ofereceu uma oportunidade de trabalho. Então, conversamos com sua mãe e ele está ficando às tardes no fórum “fazendo mandados”. Vai ao banco, ao correio, serve água e cafezinho, essas coisas. No início houve uma certa resistência, mas hoje todos gostam dele. Outro dia, um advogado até lhe deu um terno de presente.
Pois bem, Bruno é surdo e mudo, mas sabe ler e escrever com alguma dificuldade. Era muito difícil, portanto, a comunicação com ele. Percebi que ele se sentia excluído, como um estrangeiro, sem entender e sem participar das conversas. Como se fôssemos todos analfabetos em sua língua.
Em vista disso, conversei com seu professor e fui informado que ele havia estudado Libras (Língua Brasileira de Sinais, adotada pela Lei nº 10.436/02) nas vezes que frequentava a escola. Como ele é muito esperto e inteligente, pensei que este seria um dos caminhos para sua inclusão. Descobri um site na internet que ensina Libras e chamei Bruno para conversar. Para minha surpresa, ele pediu o mouse e, com desenvoltura, passou a me mostrar como navegar no site e como fazer o sinal correto para cada palavra.
Com mais algumas visitas ao site, consigo me comunicar razoavelmente com Bruno e percebo o quanto fomos estúpidos nas tentativas de comunicação com ele. Nossos sinais eram todos errados e tinham significado absolutamente diverso do que pretendíamos dizer. Entendo agora sua expressão de desânimo quando tentávamos conversar com ele e, em seguida, seu silêncio e abatimento.
A falta de alguém para lhe ouvir em sua língua era uma forma terrível de exclusão. Isto aconteceu no fórum. Fiquei a pensar como seria na rua, no bairro, na escola.... É possível ser cidadão sem fala compreensível para os outros?
Hoje, Bruno se sente seguro quando fica ao meu lado e às vezes me pergunta, como se eu fora o intérprete, o que alguém está querendo lhe dizer. Sua auto-estima também melhorou muito. Ele agora tem com quem conversar e sabe que pode ser compreendido.
Passei o endereço do site para o pessoal do fórum e estou pedindo que todos dediquem alguns minutos diários em suas navegadas pela Internet para aprenderem um pouco de Libras. Se tivesse poderes para tanto, iria determinar que Libras fosse disciplina obrigatória nas escolas, concursos públicos, órgãos públicos, grandes empresas... Acesse o site clicando aqui... Uma boa dica – ensinada por Bruno – é clicar em “busca” (no alto à esquerda), digitar a palavra pretendida no quadro inferior à esquerda, depois clicar em “buscar”, depois clicar na palavra encontrada na coluna do meio e esperar o resultado. Existem outras opções de busca e interação. Bastam poucos minutos por dia...
Existem também outros sites na Internet sobre Libras, cursos, cds, dvds e até loja vendendo material didático. Pergunte ao google...
E assim, vamos misturando Libras com amor e música:
Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria...
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja
Ou se envaidece...
(Monte Castelo – composição de Renato Russo com recortes de Paulo (1Cor 13,1) e de Camões)
3 comentários:
È só o amor...
Parabéns, Dr. Gerivaldo pelo êxito no anseio em si comunicar com Bruno.
Fico feliz por ele está perto do Sr.
"Para minha surpresa, ele pediu o mouse e, com desenvoltura,..."
Prezado Magistrado.
Ao ler a sua crônica, detive-me neste trecho acima. Sou apaixonado por computadores. Agora, dia 14/03/2009, 16:57 h, já entrei no Jus Navigandi e nos blogs, já mandei um montão de "e-mail's", já li o CONJUR, etc., etc., etc. E daí? Quem sabe Bruno tb. tem paixão por computadores/informática e se "deslancha" nesta área? Vamos dar-lhe mais uma chance?
Fico muitíssimo contente por ver como o empenho de alguém que em nós deposita determinada confiança pode fazer grande diferença. Tive oportunidade recentemente de conhecer Bruno e até de conversar um pouco com ele. Às vezes a decisão está em nossas mãos, mas o medo de arriscar nos impede de tomá-la. Neste caso, a falta de medo do que outrem pudesse achar...talvez um ato descabido, não sei, possibilitou que uma boa pessoa, embora alguns não achem, pudesse ser inserida novamente no nosso contexto. De fato Bruno foi desconsiderado por muitos, mas uma pessoa faz a diferença.
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