sexta-feira, 6 de março de 2009

A crônica da semana

Sócrates no leito de morte. 1787, Jacques-Louis Daivid.

SÓCRATES E A PEPSI-COLA


Gerivaldo Alves Neiva*


Um dia desses fui a uma livraria apenas para passear. Este é um dos meus passeios favoritos. Ficar por dentro dos lançamentos, ler orelhas de livros, conferir os preços das mesmas obras por editoras diferentes. Gosto muito de livrarias que tem aqueles aparelhinhos para informar o preço dos livros. Por falar em preço de livros, sempre me lembro de um professor de filosofia que usava uma dose de uísque como unidade monetária para suas despesas. Quando chegava atrasado, por exemplo, reclamava que tivera de vir de taxi e lá se fora cinco doses de uísque. Livro também era relacionado com doses de uísque. Tinha um colega com forte presença de espírito que fazia uma espécie de tabela de valores de doses de uísque a depender da marca e ano de fabricação. Assim, a depender da marca e ano, um livro poderia custar de uma a dez doses de uísque. Eu, como sobrevivia de bicos e estágios, tinha outras unidades monetárias bem diferentes daquelas.

Deixando de lado as unidades monetárias etílicas, meus passeios em livrarias, para passear mesmo, acontecem sempre no final do mês. Não é coincidência. Na verdade, a coincidência é apenas com o final da verba destinada no orçamento doméstico para compra de livros. É verdade. Com cartão de crédito estourado, a alternativa é olhar e reservar para o mês seguinte. Não custa nada, de outro lado, dar uma boa folheada para ver se vale a pena mesmo. Ainda mais quando a livraria dispõe de boas poltronas e um cafezinho.

Pois bem, minha esposa saiu a passear no shopping com boa verba do orçamento ainda disponível para sandálias, bolsas, blusinhas básicas e coisas afins. A mim restou olhar livros na livraria e fazer uma lista para o mês seguinte.

As seções são basicamente as mesmas: constitucional, civil, teoria geral do Direito, filosofia do Direito, sociologia, história, política, filosofia, literatura, artes etc. Um passeio mesmo!

De repente, “não mais que de repente, fez-se da vida uma aventura errante”, como diria Vinícius de Moraes, apanhei na estante de filosofia um pequeno livro de Andreas Drosdek – Sócrates, o poder do não saber, da Editora Vozes. Logo na orelha, uma frase Einstein: “os problemas que existem no mundo não podem ser resolvidos a partir dos modos de raciocínio que deram origem aos mesmos”.

Pronto, muito mais valioso do que uma dose do uísque, encontrei o livro ideal para esperar a esposa detonar o orçamento. Era como se fosse uma bela fatia de pizza, um suculento sanduíche ou uma taça de sorvete. Era para ser saboreado devagarzinho.

Vamos saborear comigo. O livro é dividido em duas partes principais, sendo uma primeira sobre o próprio Sócrates e a segunda intitulada “A tripla reviravolta Socrática”, a saber: (i) o reconhecimento do não-saber, (ii) o ser humano como centro e (iii) o bem enquanto objetivo. A primeira parte faz uma rápida biografia de Sócrates, de seu método e da influência sobre os jovens da época. A segunda parte, a mais interessante, inicia com uma breve síntese das três reviravoltas de Sócrates. Segundo o autor, ao invés de defender seu pretenso saber a qualquer custo, Sócrates passou a se concentrar em seu não-saber e, sendo assim, transformou a revelação de falsos saberes e a descoberta do não-saber no foco de sua vida.

A primeira reviravolta seria, portanto, exatamente esta: o reconhecimento do não-saber. Assim, quando Sócrates apregoa que “só sei que nada sei”, na verdade, não quer dizer que não sabe de nada, mas que tinha consciência de que seu saber a princípio seguro, ainda era falho em relação a alguns pontos decisivos, ou seja, “não acredito saber aquilo que não sei”. Utilizando seu método de perguntar, Sócrates, então, desmascarou o não-saber dos políticos, dos poetas e dos artesãos. Com isso, Sócrates terminou por demonstrar as mentiras que alicerçavam a vida de muitas pessoas, que viviam bem com o fato de enganarem a si próprios e aos outros. Ao final desta parte, o autor convida a todos para se tornarem especialistas em não-saber, ou seja, analisar, a partir da perspectiva do não-saber, o seu próprio âmbito de trabalho, a sua empresa, a economia, a vida em si. O resultado será a constatação de que algumas coisas simplesmente assumimos dos outros, sem jamais averiguá-las ou refletir sobre elas por conta própria. Para Sócrates, enquanto seres humanos, jamais devemos ignorar a dúvida.

Pois bem, a segunda reviravolta é ter o homem como centro, ou seja, para Sócrates a dedicação ao ser humano não se reduzia apenas à auto-análise. Estar a serviço do bem-estar do próximo, ajudando-o em sua busca pela verdade e pelo sentido da vida, era o seu objetivo.

Por fim, a terceira reviravolta tem o bem enquanto objetivo. Acreditava Sócrates que a missão do ser humano era viver do modo mais virtuoso possível, ou seja, aquilo que preenche melhor sua função, usar o seu potencial da melhor forma possível e fazer jus às suas responsabilidades. Em suma, o processo de contínuo auto-aprimoramento representava para Sócrates o ponto de partida na busca do bem.

Esta leitura durou pouco mais de meia-hora. Ao final, suspirei fundo, acomodei-me na poltrona da livraria e comecei a pesar sobre o que tinha lido: eu ando sabendo de tudo ou tenho algumas dúvidas? Ando exercitando meu não-saber ou acredito saber mesmo aquilo que não sei? Minhas ações estão voltadas para o bem e tem o homem como centro?

Conduzi meu pensamento para minha condição de Juiz de Direito e membro de um Poder – o Judiciário, reconhecidamente em crise, e comecei a perguntar. Um “por que” atrás do outro, até a exaustão. Por que sou Juiz? Porque fiz um concurso e passei. Por que passou? Porque estudei mais do que os concorrentes. Por que estudou mais? Porque queria passar. Por que queria passar? Porque tinha vocação. O que é vocação?... Ou então: por que Poder Judiciário? Porque assim pensou Montesquieu. Por que assim pensou? Porque as atribuições precisavam ser divididas para evitar o poder absoluto... Por que está em crise? Porque falta estrutura, juízes, pessoal qualificado e leis melhores. Por que falta tudo isso? Porque não existem recursos suficientes. Por que não existem? Porque não consta do orçamento. Por que não consta? Porque não houve interesse de quem elaborou. Por que não houve interesse? Sei lá, Sócrates! Chega! Cansei!

Minha esposa me tirou do transe socrático e voltei à realidade sem saber se realmente sei o que pensava saber. Tinha mais dúvidas que certezas. Retornamos para casa e eu continuava perguntando sobre tudo que via: pessoas, carros, edifícios, vendedores ambulantes, pedintes, homens de gravata em carros com ar condicionado etc. Pensava como seriam meus interrogatórios daqui por diante: atirou na vítima? Sim. Por quê? Porque fui ameaçado. Por quê? Porque brigamos antes. Por que brigaram? Porque estávamos bebendo juntos e discutimos. Por que bebiam e por que discutiram?... Isto não vai dar certo!

Chegando em casa, como que para desanuviar de Sócrates, liguei a TV em busca de algo mais ameno e no primeiro comercial vi um rapaz fazer uma proposta para uma garota bonita: se eu lhe der um gole de Pepsi, você me dá um beijo? Ante a resposta negativa da moça, sob argumento de que tinha namorado, o rapaz continua com uma série de “por quês” até convencer a moça e trocam então um estimulante beijo. (veja o comercial clicando aqui).

Ora, então Sócrates tem razão! Vale a pena perguntar sempre! Se não obtivermos as respostas, pelo menos vamos chegar à conclusão de que não sabemos. Saber que não sabe, portanto, já e um bom sinal. Da minha parte, daqui por diante, quando for julgar alguém ou quando for criticar o Judiciário, vou fazer muito mais perguntas.

Conceição do Coité, 02 de março de 2009

* Juiz de Direito em Conceição do Coité – Ba.

5 comentários:

Mateus disse...

Desconstruir para Reconstruir.

Paulo Marcos disse...

Parabéns Gerivaldo. Seus textos são cada vez mais autênticos e nos fazem refletir e ter mais dúvidas sobre as certezas que carregavamos.

Laurentino louro disse...

PERGUNTO: O quê sei mesmo nesta vida?

Anônimo disse...

Muitas vezes nos acomodamos em pensar que de fato sabemos de tudo nesse mundo.
Mas quando nos deparamos com os "por quês" sobre a vida, sobre o mundo, realmente descobrimos ainda temos um "mundo" dentro de nós a espera de ser descoberto, e que sempre, todos os dias por mais que, em pensar que sabemos de tudo e sobre tudo" ainda teremos algo a descobrir até o fim de nossa vida.

Anônimo disse...

Uma das grandes alegrias da vida eh "conhecer" o desconhecido e com isso compreender que conhecemos muito pouco... deste modo vamos tecendo o conhecimento como um fio de Ariadne. O desconhecido eh o mistério do mundo, pois como lembra um provérbio turco "As noites estão gravidas e ninguém sabe o dia que nascera!"