domingo, 30 de novembro de 2008

A crônica da semana

OS SINOS DE SANTA RITA

Gerivaldo Alves Neiva *

As lembranças da advocacia têm me fustigado neste final de ano. Talvez seja a crise da meia idade do Juiz. Não, não é descrédito com a magistratura. Ao contrário, sinto-me cada vez mais vocacionado para ser Juiz. Claro que reconheço as limitações e os problemas estruturais do Poder Judiciário, mas sei distinguir bem os papéis do Juiz e do Poder. Sei também o quanto posso contribuir para um mundo melhor sendo um magistrado justo, apesar do Poder Judiciário e todos os seus mecanismos de exclusão.

Voltando às lembranças da advocacia, tem uma estória que eu só sei contar até determinado momento, mas sei que teve um final teatral e magnífico. Quem sabe o resto dessa estória é Cloves. Ele me fazia companhia na viagem de Santa Rita de Cássia à Mansidão, nos limites da Bahia com o Piauí, onde faríamos uma reunião com uma comunidade que estava sendo ameaçada por uma grande empresa rural. Sabíamos que só a medida judicial não resolveria o problema e era necessário ter a comunidade organizada e mobilizada para resistir na terra. Daí a necessidade de conversar com o pessoal e explicar a situação. Na época, Cloves era “coroinha” do Padre José, vigário de Santa Rita, e participava de tudo que é pastoral e movimentos sociais. Atualmente, Cloves é mestre em Direito pela UNB-Coimbra e professor em várias faculdades de Direito na Bahia. É como um irmão!

Destinados à Mansidão, atrasamos na saída de Santa Rita e a noite nos pegou no caminho. Na subida da serra, quebrou a suspensão dianteira da D-20 e graças à habilidade do motorista Cloves e à Santa Rita, estamos todos vivos para contar o caso.

Era impossível continuar a viagem. A única opção era esperar o dia clarear e alguém retornar para Santa Rita e trazer um mecânico. Enquanto isso, a tarefa era identificar nossa posição, organizar a vigilância e procurar um local seguro para dormir.

Só tive medo da situação até olhar para o céu e observar as estrelas. Aliás, este deveria ser um exercício obrigatório para todos os viajantes dessa pequena nave chamada Terra! A constatação da nossa insignificância é fatal: um universo sem fim, repleto de galáxias e estrelas e nós, minúsculos terráqueos, nos confins do interior da Bahia. Além do sentimento de insignificância diante da imensidão do universo, outro sentimento, paradoxalmente, aflora neste momento: de fazer parte do cosmos, ser passageiro e morador da nave Terra, pertencer a um lugar e, sobretudo, ser responsável pela preservação e pelo rumo de seu lugar!

Nesta mesma noite, outro “sentimento de pertença” vai me fazer marcas na vida que carrego até hoje.

Pois bem, algum tempo depois de nosso “prego”, um de nossos companheiros de viagem descobriu que estávamos perto da casa de outro companheiro. Marchamos no escuro na direção provável e chegamos ao local sem problemas. Candeeiros foram acesos, saudamos a todos de casa e fomos bem recebidos. Sempre é assim no interior. Os viajantes são bem-vindos e sempre há um local para se armar mais uma rede. Por aquelas bandas, o viajante precavido jamais esquece sua rede.

Também não me esqueço que lá interior de Santa Rita de Cássia as pessoas se cumprimentam, quando se encontram, com “Adeus, como vai?” Nunca vi essa forma de tratamento em outro lugar do interior baiano. Nunca me interessei em perguntar sobre isso. Fui “aculturado” e agia da mesma forma.

Providenciar comida e uma boa pinga para os viajantes faz parte da hospitalidade dos habitantes das tantas “veredas” que cortam o interior do município de Santa Rita. Não foi diferente dessa vez. Em poucos minutos uma galinha já estava no fogo e a conversa seguia animada no terreiro da casa. Só para tirar a poeira da goela, um litro de pinga da boa foi saboreado.

Sob o estado de euforia, as estrelas brilhavam cada vez mais e também me sentia cada vez mais à vontade ali naquele lugar. Agora, além de pertencer ao universo e ser passageiro da nave terra, também me sentia pertencente àquele grupo de pessoas e àquele lugar. Era como se fosse tudo interligado e dependente: todos os humanos fazem parte do planeta, que faz parte do sistema solar, que faz parte da via láctea, que faz parte do universo, que faz parte de algo maior ainda e que não sabemos explicar... até chegar a Deus e começar tudo de novo!

E assim, sentindo-me parte de um pequeno local e parte de tudo ao mesmo tempo, pude agora entender com exatidão a meditação de John Donne:

Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

Como já disse no início dessa conversa, o final dessa aventura só Cloves sabe.

Bom, até onde eu me lembro, a galinha estava deliciosa, conversei muito e fiz discursos, mas não consigo me lembrar o que disse. É uma situação incômoda, mas o que conforta é saber que “in vino veritas.”

Recentemente perguntei a Cloves sobre este episódio e ele me mandou ler a bíblia, acrescentando: você repetiu várias vezes, de forma solene e teatral, Mt 12, 46-50.

Depois de ler a indicação, cheguei à conclusão que o “prego” do carro foi mesmo obra de Santa Rita de Cássia e descobri, finalmente, de onde tinha saído minha vocação para a magistratura e meu “sentimento de pertença” ao mundo e à humanidade.

Conceição do Coité, 30 de novembro de 2008

* Juiz de Direito em Conceição do Coité – Ba.

6 comentários:

Cloves dos Santos Araújo disse...

Caro Gerivaldo,
Posso até lembrar do final da história, mas não sabia que um dos principais personágens tinha tanto talento para a literatura. Ao ler a crônica me veio à lembrança os tempos da infância, na Comunidade de Angical, Município de Mansidão. Distante de tudo!Normalmente, ao entardecer, eu ficava observando o por do Sol e me parguntava: Será que existe alguma coisa do outro lado daquela serra? Agora, depois de tantas andanças, aprendo com Hannah Arendt que o homem primitivo não conhecia a sua própria casa, que é a Terra. Parece que tudo é muito revolucionário. Depois de ter passado por experiências como aquelas relatadas na crônica, sinto-me globalizado, mas ao mesmo tempo com saudade daquela e de outras viagens que fizemos juntos, defendendo posseiros, sofrendo e divertindo. Lembro-me até mesmo de uma crônica de Saramago, "O Direito e o Sino". Posso contar depois, e fico devendo também o fim da história da viagem pelas veredas de Santa Rita de Cássia.
Um forte abraço de parabéns pela beleza dos teus escritos.
Cloves.

DELBO AUGUSTO disse...

Dr. Gerivaldo, adeus como vai? rsrs, na qualidade de filho de Santaritenses, alegra-me as boas recordações daquele torrão agreste do oeste baiano.

Abraços

leninbacelar disse...

Dr. Gerivaldo,
Embora não o conheça pessoalmente sei que é um homem de grandes virtudes. Ao ler sua crônica, pude perceber que acima da magistratura és um ser humano brilhante.
Meus parabéns!
Leniana Teixeira de Lima Bacelar.

Giorgio disse...

Amigo Gerivaldo,
sua cronica me leva ate aqueles tempos quando tambem, olhando para as estrela e o luar do sertao, podia entender a imensidao do universo e as imensas liçoes de vidas recebidas andando por aquelas veredas encontrando aquele povo mestre de vida.
A breve estarei por aqueles lados matando a saudade dos velhos companheiros... estarei sozinho com minha companheira sentindo com certeza sua presencia junto aquela de Clovis na certeza que a solidariedade e o mutirao no compromisso fez brotar historias que jamais poderemos saber o quanto sao frutos daquele trabalho.
Giorgio.

Fran disse...

Tanto tempo nem imaginava que você se lembrasse de nossa Terra pois assim o considero, nada melhor do que relembrar a história e ainda mais vivenciar novamente aquela experiência agora com uma diferença não a trabalho mas a passeio naquela mesma estrada passamos quase uma noite cnão com voc~e e Cloves mas com Giorgio e Suy.
Que saudade.

Fran disse...
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