domingo, 16 de novembro de 2008

A crônica da semana



VOCÊ SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?

Gerivaldo Alves Neiva *

- Você sabe com quem está falando?
Coitado do interlocutor: será um delegado, um juiz, um promotor? Valha-me Deus!
Esta expressão demonstra, sobretudo, o autoritarismo e a arrogância dos agentes públicos deste nosso país. Muitas vezes, é usada até mesmo por filho, esposa ou parente em grau distante de “autoridade” qualquer. É típica do “país dos bacharéis.”
Eu nunca usei esta expressão, mas já fui tentado algumas vezes.
Certa feita, estava na estação rodoviária de Salvador esperando minha sogra, pessoa idosa, chegar do interior do estado com caixas de preciosidades: rapadura, requeijão, carne do sol e outras iguarias mais. Na época, havia um torniquete que impedia o acesso à plataforma de desembarque, mas havia um portão lateral destinado à saída dos carregadores credenciados que trabalhavam na estação rodoviária.
Vendo minha sogra desembarcar, pedi educadamente ao funcionário que me permitisse entrar por aquele portão: “companheiro, aquela senhora é minha sogra e está precisando de ajuda com aquelas caixas...” Ele nem me deixou concluir: “meu jovem, este portão é só para desembarque...”
Insisti com minha calma costumeira e expliquei que não lhe causaria prejuízo algum, pois entraria apenas para trazer duas caixas até a parte externa e também não causaria qualquer problema para sua autoridade, mas não obtive êxito com meus argumentos.
Nisto, vejo que se aproxima de mim um Sargento da Polícia Militar, devidamente fardado, que havia comandado o destacamento de uma Comarca que eu havia trabalhado. Ao me reconhecer, o Sargento colocou sua mala no chão me saudou com a “continência” e perguntou se estava precisando de alguma coisa.
Tive muita vontade de rir da cara de surpresa do funcionário da estação rodoviária, mas me contive. Com mais humildade ainda, expliquei ao Sargento o ocorrido e este se virou com autoridade militar para o funcionário e disse que ele estava desrespeitando um Juiz de Direito e que fosse ele mesmo apanhar as caixas. Claro que não permiti e eu mesmo fiz questão de ajudar minha pobre sogra que já estava desesperada com a demora.
Na volta, o funcionário me pediu mil desculpas e observou, quase me repreendendo, que eu deveria ter dito logo que era Juiz de Direito e que tudo teria seria resolvido sem problemas. Aceitei suas desculpas, agradeci ao Sargento e fui embora. Deu tempo ainda para ouvir uma pessoa que presenciou a cena comentar: “ah! se eu fosse Juiz de Direito esse guardinha de rodoviária ia ver uma coisa!”
Deixa prá lá... Com diz o ditado: “Deus não dá asa a cobra!”
Outra vez, ainda em Salvador, imprudentemente, cometi uma infração de trânsito. Era uma famosa “roubada”, fazendo um “cotovelo” não permitido, para encurtar caminho e evitar duas demoradas sinaleiras. Nunca tinha feito aquilo antes, mas admirava quem fazia. O problema é que havia um módulo policial na praça logo em seguida à saída do “cotovelo”, mas naquele dia olhei com cuidado e não vi o policial militar de plantão.
Criei coragem e fiz o “cotovelo” com maestria e rapidez. Com mais rapidez ainda, o policial militar que estava do outro lado da rua apitou com força, apontando para meu carro e me fazendo estacionar. E agora? Fazer o quê? Flagrante...
O policial militar aproximou-se bem devagar, com aquela “marra” característica e sotaque “baianês” acentuado: “boa tarde, cidadão, documento do veículo, habilitação e documento de identidade!”
Vi que se tratava de um soldado e não tinha dúvida de que estava errado e que deveria ser punido. Agi com absoluta calma. Cumprimentei o soldado e perguntei se ele já havia multado um Juiz de Direito em sua carreira de Policial. Ele me olhou com surpresa e me perguntou a razão. Respondi então que seria aquela a sua primeira vez e lhe apresentei minha carteira de magistrado.
Não sei descrever a expressão inicial dele: surpresa, raiva, indignação, dúvida... Olhava a carteira e me olhava como se conferindo a fotografia da carteira com meu rosto. Depois de alguns segundos ele me devolveu a carteira e me disse em tom de reprovação: “Até o senhor, doutor? Tudo bem, não vou lhe multar, mas o senhor sabe que cometeu uma infração e que está errado. Pode ir embora, mas não faça mais isso, doutor.”
Agradeci sem graça e me despedi do soldado em péssimo estado moral. Melhor seria que não tivesse me apresentado como Juiz e ser multado normalmente. O comentário do policial me valeu muito mais do que a multa por infração no trânsito. Aquele “até o senhor, doutor?” ficou repercutindo em minha cabeça por vários dias.
Claro que já vivi outras situações, mas depois desses dois episódios entendi, primeiramente, que não tenho uma estrela na testa me identificando como Juiz de Direito e que o funcionário da estação rodoviária estava apenas cumprindo o que lhe foi determinado e protegendo seu emprego; em segundo lugar, que terminei constrangendo desnecessariamente um policial militar no exercício de sua função e saindo mais constrangido ainda ao me utilizar da condição de Juiz de Direito para me livrar de uma merecida multa de trânsito.
Por fim, passei a agradecer todos os dias ao constituinte que elaborou o artigo 5º, da Constituição Federal: “todos são iguais perante a Lei, sem distinção de qualquer natureza.”
Conceição do Coité, 16 de novembro de 2008

15 comentários:

****JULIO**** disse...

Parabéns Doutor Gerivaldo!! Pena que este comportamento é exceção!! Grande Abraço!

JULIO RABELO BH/MG

Mário Silva disse...

Ao ler esta crônica, lembrei-me do constrangimento que passei com o "marrento" vereador Assis, quando fui tirar a foto dele na sessão da Câmara onde me interpelou com tom de humilhação "Quem é você?" "puxa saco" Na certa ele se achava uma autoridade de ter um titulo de vereador e estudado em uma faculdade. Podia ter o direito de humilhar.
Realmente "Deus não dá asas a cobra" Se este cara fosse eleito prefeito.
Mário Silva

Anônimo disse...

Excelência, em primeiro lugar, parabéns pelo blog, pelo texto, que é muito bom. Desculpe a expressão, mas "nada a ver" com a maioria do pessoal do judiciário Brasil afora. Ainda bem.
Em relação ao post, já comentei em outros lugares que aqui em Belém acontece um fenômeno interessante: na conversa das pessoas simples, sobre prisões, assassinatos e outros fatos desta natureza, é comum alguém se sair com uma afirmativa do tipo "fulano vai se safar, a mãe dele é desembargadora..." Depois de ouvir esta afirmação, a respeito de um assassino confesso, pessoa com longa ficha, apesar da pouca idade, mas sem querer reabaixá-lo, concluí que ele não era filho de juíza. Entendi que, no imaginário coletivo, na ânsia desesperada das pessoas do povo, por uma Justiça que nunca vem, apela-se a uma filiação fictícia como querendo recolocar as coisas em seus lugares. Não à toa, nunca se fala do "pai juiz". É uma especie de mito urbano, em que se acredita na justiça por outras vias. Acho que vale a pena estudar esta manifestação do imaginário popular.
Artur Dias

DELBO AUGUSTO disse...

Crônica Justa e Perfeita.

robdelapenha disse...

Moral foi a coragem de Vossa Excelência divulgar esses fatos, o que torna melhor a presente crônica, e digo, nossos exemplos tem que partir de "cima", só assim essa cultura tende a mudar...
Robson...

Ivy Dayube disse...

Quero parabenizá-lo Doutor Gerivaldo, fico muito feliz em saber que como estudante do 6ª semestre de direito poderei encontrar alguém como o senhor. O seu comprometimento com a justiça a postura diante dos fatos e a simplicidade das ações enobrece ainda mais o seu trabalho. Grande abraço!!!

Nelson disse...

Como sempre, impecável Excia.
Quanto mais o conheço, mais o admiro.
Nelson Breanza
SP - SP

Patrãozinhuuu disse...

kkkkkkkkk,
ficou muuuito bom doutor.
"ahhh, se eu fosse Juiz de Direito"
kkkkk,
muuuito boa mesmo a crônica.
O blogger tá massa!

ivo disse...

Olá Dr., nunca havia parado pra ler seus posts, sempre vi na minha caixa de mensagem e sempre tive curiosidade, mas faltava o "start" pra abrir um e ler.

Esse texto sobre a "síndrome do pequeno poder" é muito ilustrativo, exprime bem o sentimento coletivo da sociedade brasileira.

No Brasil, muitas pessoas estão contaminadas por um comportamento de superioridade aparente, baseada em títulos, diplomas ou parentescos com pessoas "importantes".

Pobres daqueles que pensam assim, que, só por terem um diploma pendurado no escritório, estão autorizados a se sentir mais importantes e melhores que as outras pessoas, mal sabem eles que respeito e consideraçao é algo adquirido de baixo para cima, e não o contrário.

Conquistar respeito e consideração de forma natural é algo particular aos humildes e dignos, por um motivo óbvio: humildade e dignidade são características valorosas de qualquer ser humano que as detenha, logo, a admiração e o respeito das outras pessoas surgem de forma natural sem precisarem ser impostas.

Enfim, gostei bastante do conteúdo do texto e passarei a ser leitor assíduo do que for escrito neste espaço.

Abraço.

Ivo Gomes Araújo

Wagner Martins disse...

Muito interessante, doutor. Eu já ouvi muitos "você sabe de quem eu sou filho?" Da vontade de responder um "Sei sim, um filho da..." Mas, tudo bem, um dia as pessoas aprendem que somos todos iguais e que o nosso fim é o mesmo...

Parabéns!

Rafson Ximenes disse...

Muito bacana!

É interessante, porque o livro que indiquei no blog fala justamente nesta vergonha de usar o "você sabe com quem está falando?", que seria a demonstração de conflito, em uma sociedade que se diz cordial.

Por esta razão, o seu uso se daria muitas vezes, em situações de ânimos exaltados, ou de medo. O campo mais propício seria justamente o trânsito, onde não temos "estrelas na testa".

Todos já usaram ou já foram alvejados por isto, inclusive eu. O importante é ter consciência e tentar evitar.

abraços

Rafson Ximenes disse...

Esqueci do link:

http://pensandoeseguindo.blogspot.com/2010/11/voce-sabe-com-quem-esta-falando.html

Anônimo disse...

Ótimo! Parabéns Excelência!

Mone disse...

Roberto DaMatta escreveu um artigo muito interessante com o tema "Você sabe com quem está falando?". Nas palavras de sua crônica, Dr. Gerivaldo, lembrei do escrito de DaMatta, por sinal um texto criativo e de agradável leitura.

Agora até eu pergunto, "até o senhor Doutor?" Rsrsrs!!

O Juiz é um ser humano e não está livre de tentadoras aventuras, rsrsrs!! Penso que valeu a experiência narrada na crônica, não somente pela quebra de rotina, mas principalmente pela lição de vida. Não se arrependa do que fez, apenas não repita... rsrsrs!!

Sua fã Simone, SSA/Ba

Ramon disse...

Achei jóia!!! rsss