domingo, 9 de novembro de 2008

A crônica da semana

PALAVRAS QUE VOAM



Gerivaldo Alves Neiva*


Tive um amigo Juiz que morreu de câncer no cérebro. Nunca vou me esquecer do nome científico da coisa: glioblastoma multiforme. Este nome parece mesmo com tumor no cérebro. Nome forte. Nome parecido com a coisa. Não me lembro de nada igual.

Este meu amigo gostava muito de nomes, palavras, poesias e música. Foi ele quem me apresentou o concerto para piano nº 1 de Brahms. Em contrapartida, eu lhe apresentei o “trenzinho caipira” de Villa-Lobos. Ríamos muito. Tomávamos muitas cervejas, conversávamos bobagens, apelidava as pessoas, diversão pura e simples... Uma vez, levamos horas para definir o que seria uma pessoa “espaçosa.” Depois de muita conversa, chegamos à conclusão que ser “espaçosa” é um estado de espírito. Então, uma pessoa pode ser extremamente magra e abundantemente “espaçosa.”


Tínhamos apenas uma divergência: ele era torcedor do Bahia e eu do Vitória, mas não brigávamos por isso. Muitos anos antes do seu câncer, ele disse que gostaria de me dar de presente algo muito especial, que era guardado com muito carinho. Insisti que não poderia receber algo assim, mas ele retrucou dizendo que era exatamente por isso que estava me dando de presente. Depois de me convencer, ele foi ao quarto e retornou com uma camisa do Bahia daquelas que tem listas brancas mais finas e as vermelhas e azuis mais largas, sem publicidade, número dez nas costas e de um tipo de malha que não se fabrica mais. Apenas uma estrela sobre o escudo, representando a conquista da Taça Brasil de 1959. Eu, torcedor do Vitória, não quis nem pegar na camisa, mas ele não me deu alternativa. Guardo esta camisa há muitos anos e ainda hoje dei uma olhada nela em meu guarda-roupa. Às vezes penso em mandar para um de seus filhos, mas acho que ele queria que ficasse comigo mesmo.


Outro dia, depois de algumas cervejas, ele apanhou um livro de poesias de Pablo Neruda na estante e me desafiou: “leia esta poesia com concentração total e sinta a força desses versos; depois, deixe o livro aberto sobre a mesa e veja as palavras saindo do livro, viajando no ambiente da sala e impregnando as paredes de poesia...” Fiz tudo direitinho e juro que vi! Verdade!

Passado o transe, de forma bem solene, ele me disse: “quando você gostar muito do trecho de determinado livro, deixe-o sempre aberto naquela página e em um local onde as palavras possam impregnar seu ambiente.”


Tive saudade dele estes dias e me lembrei das palavras saindo do livro e impregnando paredes de poesia... Como não tinha um livro de poesias ao alcance, pensei em fazer a experiência com a Constituição Brasileira, que está sempre por perto de mim. Utilizando os recursos da informática, abri a Constituição no “word” e usei a ferramenta “localizar” para buscar palavras que tivessem força para depois vê-las voando da página aberta da Constituição. Busquei por amor, abraço, amigo, amizade, beijo, beleza, carinho, dedicação, gostar, música, paixão, poesia, saudade etc.

De todas, só encontrei amor em amortização no artigo 234. Que decepção!Por que estas palavras não estão na constituição? Será que não pode? Sei que não pode: lei é lei e poesia é poesia! Basta!

Mas são palavras tão fortes, voariam tão bonito, impregnariam tão bem as paredes dos gabinetes, fóruns e tribunais...

Outro dia vou fazer a mesma experiência com outras Leis. Quem sabe, encontro uma Lei para deixar sempre aberta, ao lado de Mário Quintana, na mesa do meu gabinete, misturando lei com poesia: “Todos estes que aí estão, atravancando o meu caminho, eles passarão... Eu passarinho!”

Conceição do Coité, 06 de novembro de 2008

* Juiz de Direito da Comarca de Conceição do Coité – Bahia.

10 comentários:

stela disse...

Caro Gerivaldo, acabo de ler "palavras que voam". É um texto emocionante e sabe por que? O vôo das palavras impulsiona esta leitora às suas memórias. Lembro-me que certa vez embaralhada pelas teorias sociológicas, quando escrevia o projeto para o mestrado e não conseguia redigir a seção de metodologia, afinal estava dividida: se marxismo, se fenomenologia. Foi assim que encontrei fora da clausura sociológica uma bela resposta, na crônica de Ítalo Calvino (As Cidades Invisíveis). E lá estava escrito:" Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.
- Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? - pergunta Kublai Khan.
- A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra - responde Marco -, mas pela curva do arco que estas formam.
Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: - Por que falar das pedras? Só o arco me interessa. Polo responde: - Sem pedras o arco não existe."
Procurava sensibilidade na sociologia, naquela oportunidade, encontrei pedras. Mas foi o encontro com o texto de Calvino que ajudou-me a consturir o material de que precisava. Deixei o livro aberto entre dois livros de teoria e no outro dia encontrei o nome do projeto: Arcos na desordem.

Grata pela oportunidade da leitura.
Abraço.
Stela.

Educandario Divino Mestre disse...

A arte, a poesia e a música são bilhetes de viagens para passgeiros portadores de generosidade e sensibilidade.
Vislumbrar a magia das palavra, permite-nos flutuar e mergulhar na essência da criação divina.
Agora retorno de um mergulho e de uma viagem, mais leve e mais humano.
Obrigado pelo bilhete.

Luciano

Valdice disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Valdice disse...

Suas crônicas são cada dia mais interessantes! Mariene não deixa de enviá-las pra mim, porque sabe que aprecio muito sua forma de escrever. Parabéns pela sensibilidade!

Anônimo disse...

A humanização das ciências, inclusive as da área de humanas, se faz necessário e é um movimento crescente. Com o Direito não é diferente.
Através do artigo do CONJUR, tive acesso ao seu blog. Ainda não li tudo, mas já gostei muito do que tive acesso. Parabéns!

Numa coincidência, também deixei vários livros (dentre eles o de Ítalo Calvino citado pela Stela) e e artigos abertos e espalhados "esperando deles" uma resposta para um título de um projeto do curso de História. E não é que eles me responderam ?
As palavras voam... Se voam !

Meu título:
CARAVELAS: CIDADE SENSÍVEL, TRANSFORMAÇÕES VISÍVEIS. ALTERAÇÃO DE UM PATRIMÔNIO HISTÓRICO.

Tina Maria
Teixeira de Freitas/Bahia

Nina disse...

Olá!!!
Simplesmente amei estes textos, dão um sentido diferente, emocionantes, que nos fazem conforme este texto, voar nas palavras, gostei muito também do texto da menina das balinhas de café! Parabens pela sensibilidade e da forma com que consegue transparecer com clareza seus pensamentos...Esta gravado nos meus favoritos, pois conheci hoje o seu blog, agora estarei sempre por aqui!
Um grande abraço,
Fabíola Toma
Campo Grande - MS

Defensores da Vida disse...

Brilhante crônica excelência ..............

Welber disse...

Não que as outras que venho lendo essa semana sejam inferiores, mas essa foi uma das mais emocionante, ainda não passei por essa experiência de perder uma pessoa na qual se divertimos, mas imagino como dever ser...

CECILIO ALMEIDA MATOS disse...

Muito bom, era de fato a cara de Julio. Esqueceu-se de dizer de quem se tratava a homenagem: Julio Cesar Freire Brandão.Um grande homem, louco no bom sentido, mais excelente ser humano.

Anônimo disse...

Caro amigo.
Assim que li essa crônica identifiquei imediatamente de quem se tratava.
Lembro bem de todas as circunstâncias dos encontros aos domingos lá em casa. Ele sempre rindo de uma nova descoberta quando vc ensinava algo novo no micro. Poesia e palavras ora declamadas , ora lidas.
Lembro até do "espaçosa", foi num barzinho em Irecê, rimos muito.
Mirany com a piada do macaco e ele e vc, sempre com risos .
Lembro também do Paul Simon com Olodum, que ele insistiu para vc ouvir e vc adorou!
São essas lembranças boas que apagam as que agora são passado.
O hábito do livro aberto para que as palavras valsem no ambiente, continua aqui em casa.
Mas as saudades continuam , lá no cantinho escondido do coração pois em cada gesto de um filho encontro um pedacinho dele , então é impossivel não sentir saudades ... até das loucuras(boas).
Mas uma coisa marcou muito - a dualidade entre a meiguice da poesia e o homem de beca autero e autêntico que muitos conheciam.
Em cada comarca ele deixou uma marca, uma cicatriz. Não importa o efeito que elas causaram, de qualquer forma foi marcante.
Se até hoje sinto saudades é porque ele continua vivo nas minhas lembranças que apesar de tudo estão cristalizadas em mim.
Vocês é que fazem parte da nossa história.
Nada se apagou daquele tempo, desde a notícia da chegada de "segundinho" , as brincadeiras com nosso amigo e irmão Promotor de lapão até aqueles licores exóticos que vc guardava como coleção.
Esse tempo foi muito bom.
Hoje, talvez se ele ainda estivesse aqui com seu contato muita coisa teria sido com certeza diferente.
Mas ele foi para outra comarca e a distância geográfica sempre dificulta um aperto de mão um abraço abertado, uma lição de vida dita para ser ouvida.
Saudades vão ficar para sempre!
Continue fazendo a experi~encia do livro aberto, as palavras escolhidas sempre voltam no vento que as levam.
Forte abraço.